Família acusa equipe médica de deixar material no corpo da mãe, o que teria causado infecção grave. A unidade pública alega que o parto foi normal e sem riscos.
A família de Jéssica Duarte Gonçalves, 28 anos, acusa o Hospital Maternidade Mariska Ribeiro, em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro, de negligência médica. Os parentes afirmam que os médicos deixaram algum objeto ou material dentro do corpo da jovem durante o parto. Essa falha teria gerado uma infecção geral que levou à morte da paciente dias depois. A 34ª Delegacia de Polícia (Bangu) investiga os fatos e requereu um exame técnico no corpo de Jéssica.
A mulher chegou à unidade hospitalar por volta das 4h da manhã de 8 de setembro para dar à luz a sua filha. À época, a bolsa das águas ainda não tinha se rompido, mas Jéssica sentia contrações intensas. O marido, Jhonatan Vieira de Moura, 30 anos, a acompanhou no atendimento médico. Mesmo em trabalho de parto, a jovem solicitou que fosse feita uma cesariana, porém, segundo a família, o pedido não foi aceito pela equipe.
Os principais fatos da denúncia de negligência
- Material esquecido: Familiares acreditam que algo do parto ficou dentro do corpo de Jéssica, causando infecção grave.
- Sintomas ignorados: A jovem reclamou de fortes dores abdominais, mas médicos teriam dito que era apenas gases.
- Alta precoce: Ela recebeu alta sentindo dores e precisou voltar ao hospital em estado crítico logo no dia seguinte.
- Necrose de órgãos: Cirurgiões no segundo hospital encontraram útero necrosado e não identificaram o material esquecido.
- Investigação: A 34ª DP investiga o caso e solicitou perícia médica para entender as causas da morte.
Jéssica deu à luz no período da tarde do mesmo dia. A bebê nasceu saudável, mas a recém-mãe começou a sentir dores fortes na barriga imediatamente após o nascimento. Durante a noite, segundo o marido, um profissional de plantão foi ao quarto da paciente. Diante das queixas, ele teria usado as mãos para remover coágulos de sangue do interior do corpo dela. Nos horários seguintes, outros profissionais foram avisados sobre as dores, mas a família relata que eles diziam ser gases e receitavam apenas dipirona.
Em conversa com o jornal O Dia, Andrea Cristina Vieira, 49 anos, sogra de Jéssica, revelou que um médico disse ao filho dela que o hospital não tinha outros analgésicos além da dipirona naquele momento. Jéssica ficou internada até o dia 10 de setembro e recebeu alta, mesmo ainda reclamando de dores na região do abdômen. O quadro de saúde dela piorou rapidamente, obrigando o retorno imediato à maternidade em estado muito grave.
Na segunda volta ao hospital, a paciente foi acolhida com pressa, estabilizada e levada ao centro cirúrgico, onde foi intubada. Depois, foi transferida em estado crítico para a unidade de terapia intensiva do Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo. A sogra descreveu o cenário como uma correria desesperada, com mais de 15 médicos ao redor, mas ninguém tinha clareza do problema. "No Mariska Ribeiro, os médicos correram com ela, com mais de quinze médicos em volta dela, foi uma correria danada e ninguém sabia de nada", relatou Andrea. Ela continuou: "Eu fui pro hospital, quando eu cheguei lá, eles tinham envolvido ela em uma manta térmica e a estabilizaram. Foi quando eu perguntei: ‘eu quero saber o que que ela tem’. E eles dizem achar que era uma sepse, ou seja, infecção generalizada. Foi então que começamos a questionar por que não tinham feito nenhum exame nela antes de darem alta. Questionei também sobre a placenta, onde estava, o que fizeram, mas ninguém sabia dizer".
No Hospital Albert Schweitzer, devido à gravidade, Jéssica precisou passar por uma cirurgia de emergência. Segundo Andrea, durante o procedimento, os médicos encontraram algo que possivelmente havia sido esquecido no corpo dela após o parto. A família acredita que esse material causou uma infecção profunda e contribuiu para a morte dos tecidos dos órgãos.
O que os médicos do segundo hospital encontraram
Andrea afirmou que a equipe do segundo hospital não recebeu o histórico completo da paciente e não sabia o que havia ocorrido no parto. Apesar disso, a cirurgia foi realizada e Jéssica ficou dois dias com o abdômen aberto, pois os médicos não conseguiam fechá-lo devido ao inchaço e à exposição dos órgãos. "Foi então que os médicos disseram que ela por dentro tinha alguns órgãos comprometidos, e tomados por uma infecção. O útero dela estava necrosado". A sogra destacou a falha crítica: "Os profissionais do segundo hospital não souberam identificar o que eles esqueceram dentro dela. Foi isso que a médica falou".
Jéssica não resistiu e faleceu por volta das 6h do domingo, dia 13 de setembro. A sogra expressa a dor da família: "A gente só quer saber o que de fato aconteceu naquele parto. Por que não investigaram antes de dar alta Ali eles iam identificar o que ela tinha, iam entrar com antibiótico. Foi um descaso, agiram como se ela fosse um nada. Ela era uma menina saudável, não tinha problemas com pressão alta, está todo mundo sem acreditar. Ela entrou lá só pra ter a filha".
Contexto da família e homenagem
Este era o terceiro parto natural de Jéssica, que já era mãe de duas meninas, de 9 e 4 anos. Agora, ela deixa também um recém-nascida, que está sob os cuidados do pai e da avó. O corpo de Jéssica será sepultado nesta quarta-feira, 16 de setembro, às 11h15, no Cemitério do Murundu, em Realengo. O velório dará início às 9h.
A direção do Hospital da Mulher Mariska Ribeiro emitiu um comunicado lamentando a morte e afirmando que está revisando todo o atendimento. A unidade declarou que o parto natural aconteceu sem complicações ou riscos para mãe e bebê, não havendo indicação para cesariana. "Após o parto, Jéssica se queixou de dor e desconforto abdominal, mas foi medicada e relatou melhora. Ela passou por todas as avaliações indicadas para o pós-parto, apresentando boas condições gerais, e recebeu alta 48 horas depois sem queixas que indicassem sinal de gravidade", afirmou a nota. O hospital acrescentou que a paciente retornou com sinais de atonia uterina, condição em que o útero não se contraí bem após o parto, e foi transferida para o Hospital Albert Schweitzer, onde não resistiu à cirurgia e aos cuidados intensivos.

Jéssica Duarte Gonçalves, de 28 anos, deu entrada no dia 8 no Hospital Maternidade Mariska Ribeiro - Divulgação


