15 de setembro de 2026

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Inteligência artificial vira teste de gestão em empresas que buscam lucro

Geral Tecnologia 15/09/2026 17:05 Rica Mello e assessoria de imprensa

Estudos internacionais e nacionais revelam que, embora o uso da IA cresça no Brasil, poucas empresas obtêm resultados financeiros reais. O sucesso depende menos de comprar ferramentas e mais de organizar dados, pessoas e processos de trabalho.

A inteligência artificial já está presente em uma parte significativa das empresas no Brasil, mas o fato de possuir a tecnologia não garante lucro ou vantagem competitiva imediata. A TIC Empresas 2025, publicada pelo Cetic.br, mostrou que 17% das empresas brasileiras com ao menos dez funcionários utilizaram alguma tecnologia de IA em 2025. Nas grandes corporações, esse número chegou a 50%, enquanto nas pequenas, subiu de 10% para 15%. A expansão é clara, porém o retorno financeiro ainda é limitado para a maioria.

Para o economista e executivo Rica Mello, ter acesso à ferramenta não basta. Ele argumenta que a verdadeira mudança ocorre quando a organização consegue integrar a tecnologia aos seus processos reais. “Inteligência artificial aplicada aos negócios não é acumular ferramentas. A vantagem começa quando a empresa sabe onde usar a tecnologia, qual problema pretende resolver e como transformar o que a IA entrega em decisão e resultado”, afirma ele.

  • 17% das empresas brasileiras com mais de 10 funcionários já usam alguma tecnologia de IA.
  • São 80% das empresas que usam IA que optam por comprar sistemas prontos, em vez de desenvolver internamente.
  • Apenas 39% das empresas globais relatam impacto da IA em seus resultados operacionais.
  • Organizações que redesenham seus fluxos de trabalho têm 3 vezes mais chances de sucesso com IA.
  • A falta de profissionais qualificados é a principal barreira para a implementação da tecnologia.

A diferença entre testar e realmente executar a tecnologia

Um levantamento global da McKinsey, realizado em 2025, reforça essa visão. Embora 88% dos entrevistados dissem que usavam a IA regularmente em pelo menos uma função da empresa, quase dois terços ainda não haviam começado a expandir o uso pela organização toda. O dado destaca o abismo entre a curiosidade de experimentação e a maturidade operacional necessária para ganhar dinheiro com a tecnologia.

O impacto no balancete também surpreende. Apenas 39% dos participantes da pesquisa atribuíram algum efeito positivo na operação financeira de suas empresas graças à IA. Isso indica que muitos negócios ainda estão na fase de adaptação, ajustando as ferramentas às rotinas antigas, e não na fase de transformação estrutural, onde a tecnologia gera nova eficiência.

Por que os processos importam mais que a ferramenta

Rica Mello explica que a ordem de prioridades está invertida em muitas empresas. A gestora deve começar estruturando a gestão, não a compra de software. “A primeira etapa não é perguntar qual IA comprar. É organizar processos, dados, indicadores e responsabilidades. Depois, a empresa precisa entender como transformar análises, recomendações e execuções produzidas pela tecnologia em decisões melhores”, ressalta.

A pesquisa da McKinsey mostra que empresas com melhor desempenho têm quase três vezes mais probabilidade de ter redesenhado seus fluxos de trabalho. Isso significa que a IA não resolve o caos organizacional; ela apenas acelera o que já existe. “Uma empresa pode colocar IA em uma operação desorganizada e apenas executar mais rápido aquilo que já fazia mal”, diz o executivo.

Capacidade organizacional implica preparar a casa para receber a tecnologia de forma consistente. Isso inclui aprender com os erros, medir retornos e corrigir o processo quando a aplicação não dá certo. Essa flexibilidade reduz a dependência de marcas específicas, já que as plataformas mudam rápido, mas a capacidade de identificar problemas é um ativo estratégico do negócio.

O desafio da falta de profissionais e da liderança

Outro estudo, o State of AI in the Enterprise 2026 da Deloitte, ouviu 3.235 líderes de 24 países. A maioria, 42%, considera-se bem preparada para a IA. Porém, essa confiança cai quando o assunto é infraestrutura, dados, gestão de riscos e, principalmente, mão de obra qualificada. A falta de competências específicas é a maior trava para a integração real da tecnologia.

Apenas 34% das empresas utilizam a IA para mudanças profundas, como reformular processos centrais ou criar novos produtos. Rica Mello alerta que ensinar a usar o sistema não é o bastante. “A empresa precisa preparar pessoas para questionar informações, tomar decisões e medir se aquela aplicação está realmente melhorando produtividade, receita, custo ou qualidade”, afirma. Sem pessoas prontas para julgar o que a IA diz, a tecnologia vira apenas um custo operacional, sem ganho estratégico.

A nova vantagem competitiva: saber aprender

Como as ferramentas se tornam mais baratas e acessíveis a todos os concorrentes, o simples acesso perde o valor de diferenciação. A nova fronteira é a capacidade de testar soluções, medir resultados frios, cortar o que não funciona e investir no que gera impacto. A velocidade de aprendizado institucional é o que separa quem prospera daquele que apenas acompanha.

Rica conclui que a plataforma é copiável pelo concorrente na semana seguinte. O que não se copia tão rápido é a cultura organizacional. “Ferramentas serão cada vez mais acessíveis e poderão ser utilizadas pelos concorrentes. O que não se copia com a mesma velocidade é uma organização com processos claros, dados organizados, pessoas preparadas e disciplina para transformar tecnologia em decisão”, diz. A discussão empresarial muda, portanto: não é mais ‘se’ devemos usar IA, mas ‘como’ transformamos essa tecnologia em gestão eficiente e lucro real.