Estudantes de todo o Brasil criaram soluções práticas para problemas reais da construção civil em uma competição inédita. O Instituto Cury, em parceria com a Enactus Brasil, trouxe desafios do dia a dia das obras para a universidade, premiando quatro equipes que resolveram questões como perda de materiais, ineficiência no bombeamento de cimento e lentidão na montagem de equipamentos elétricos e hidráulicos. Diferente de outrascompetições, não houve ranking: todas as quatro vencedoras receberam o mesmo prêmio de R$ 4 mil.
São Paulo, setembro de 2026. Reduzir o desperdício de materiais em uma obra é um grande desafio para quem trabalha na construção civil. Tornar o processo de bombeamento de um material chamado graute mais eficiente também complica os projetos de alvenaria estrutural, que é a técnica de construir paredes que ficam firmes e seguras sem depender de fundações tradicionais. E foram exatamente esses tipo de problema que o Instituto Cury, uma empresa do setor, apresentou para estudantes de todo o país.
A proposta foi a primeira edição do chamado Canteiro Lab, uma competição de curta duração conhecida como hackathon, organizada em parceria com a Enactus Brasil, uma organização sem fins lucrativos que incentiva inovação no ensino. Os problemas foram construídos a partir do cotidiano real dos canteiros de obras e checados com profissionais que atuam no setor. Ao final, quatro equipes foram premiadas, todas com o mesmo valor, sem ranking que distinguisse vencedores dos perdedores.
Razão para aproximar universidade e obras
Academia no dia a dia do trabalho
O ambiente escolar oferece vantagens que a vida profissional costuma ter em falta. Enquanto no campo do trabalho existe a obrigação de gerar lucro e evitar prejuízos, na universidade os jovens podem inovar livremente. Nesse aspecto, empresas de outros países já contam com iniciativas de inovação acadêmica firmemente enraizadas. No Brasil, elas ainda estão dando os primeiros passos. Segundo Luciana Kamimura, gerente executiva do Instituto Cury, ampliar esse tipo de projeto significa preparar mais jovens talentos para o futuro.
Dados internacionais colocam o país mais para trás
E há respaldo num conjunto de números internacionais. De acordo com o Índice Global de Inovação 2025, elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o Brasil ocupa a 52ª posição em relação a 139 economias analisadas. Quando a avaliação considera especificamente a colaboração entre universidades e empresas nas pesquisas e nos desenvolvimentos de tecnologia, o país cai ainda mais, para a 84ª posição.
Desafios nascem do trabalho diário
Problemas reais do setor
Os assuntos propostos oficialmente não foram pensados como tarefas acadêmicas. Seus pontos de partida foram dificuldades concretas enfrentadas pela construção civil. As equipes puderam escolher entre três temas: melhorar a produtividade na fabricação de kits elétricos e hidráulicos, controlar com inteligência as perdas de materiais e otimizar o processo de bombeamento do graute.
A origem dessa ideia foi tentar aproximar os problemas reais das obras do mundo universitário. Segundo Cristiano Morais, diretor técnico da Cury Construtora, a empresa realizou uma pesquisa interna entre diretores de obra e de engenharia para definir esses três desafios.
No caso do graute, usado na alvenaria estrutural, o processo ainda é bastante manual. O material é entregue pronto, mas sua aplicação é feita pouco a pouco com ferramentas simples. As bombas disponíveis no mercado não realizam o bombeamento de que a empresa precisa. Por isso, o tema foi levado ao ensino superior: seria possível descobrir novas soluções que o setor não enxerga
Os outros dois assuntos seguem o mesmo raciocínio. A Cury mantém sua própria equipe de instalação, responsável pela montagem dos kits elétricos e hidráulicos, e buscava uma forma de acompanhar melhor a produtividade dessa fase. Já o controle de perdas de materiais é uma dificuldade comum a todo o setor, com uma importante ramificação ambiental.
Perda de materiais afeta o meio ambiente
O desperdício de material é uma dor de mercado e também uma questão ecológica. Você acaba consumindo insumos da natureza que não precisaria se não estivesse desperdiçando. A construção civil tem um alto desperdício e a gente está tentando trabalhar para melhorar isso. Assim explicam a relevância do problema Evelyn Bouth, integrante do time Potyara da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), no Pará.
O estudante de engenharia química Guilherme Rodrigues, do grupo ECG, reforçou que o principal atrativo foi justamente a diferença entre seu curso e o tema proposto. Ele valorizou a chance de trabalhar com um projeto de verdade, em um ambiente mais profissional, apesar de a engenharia química não tratar diretamente de questões civis.
Quem respondeu ao convite
O edital, que é o conjunto de regras da competição, exigia ao menos um estudante de engenharia em cada equipe, mas incentivava a formação de grupos com mais de uma área e permitia que os integrantes atuassem à distância, sem precisar estar fisicamente perto uns dos outros. Essa estrutura ampliou o alcance para além dos cursos de engenharia civil e das universidades tradicionalmente voltadas ao setor.
Times de várias áreas
Edson Matsuoka, presidente da Enactus Brasil, destacou que o programa conectou o mundo universitário brasileiro aos desafios reais da cadeia produtiva da construção civil, gerando soluções práticas, viáveis e voltadas à sustentabilidade e à eficiência. Ele ressaltou também que os grupos com participação multissetorial deram mais amplitude às respostas.
A lista de equipes vencedoras
As quatro equipes premiadas foram:
- ECG: formada por estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da Escola de Engenharia de Lorena, da Universidade de São Paulo (EEL USP), única a reunir três instituições, e atuou sobre a otimização do bombeamento de graute.
- KitTrack: do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), campus Imperatriz, focada no controle inteligente de perdas de materiais.
- Potyara: da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em Belém, que também trabalhou sobre o controle de perdas de materiais.
- Canteiro Limpo: também do IFMA, campus Imperatriz, voltado à produtividade na confecção de kits elétricos e hidráulicos.
Uma maratona de inscrições
Quatro vencedoras entre dezenas de participantes
O percurso durou o primeiro semestre. Das inscrições abertas no fim de janeiro, saíram 20 equipes para a etapa inicial, reduzidas a oito semifinalistas. Após uma nova rodada de mentorias, quatro times foram premiadas, com R$ 4 mil cada, em 24 de julho, na final do Evento Nacional Enactus Brasil (ENEB 2026), na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande. O evento reuniu cerca de 900 estudantes, professores, lideranças acadêmicas e executivos.
Competição sem hierarquia entre vencedores
Diferente das outras competições da mesma rodada, o Canteiro Lab não estabeleceu primeiros, segundos, terceiros e quartos lugares. Ele premiou as quatro equipes em condições iguais, em um formato que a Enactus Brasil sugeriu como teste de inovação. A lógica é que rankings desestimulam a colaboração, já que mentores que circulam entre os grupos costuma favorecer o próprio time. Sem classificação, a cooperação aumenta.
Pelo regulamento, as equipes mantêm a titularidade dos direitos autorais sobre as soluções que desenvolveram.
Próximos eventos
Presente no país há mais de 28 anos e em mais de 120 universidades, a Enactus Brasil impactou diretamente mais de 95 mil pessoas no último ano. Em novembro, o Brasil sediará pela primeira vez na América Latina a Enactus World Cup, final mundial da rede, marcada para São Paulo entre os dias 16 e 19, com mais de 1.800 participantes de mais de 30 países. Em 2027, o encontro nacional será realizado em Maringá, no Paraná.

Equipes premiadas na primeira edição do Canteiro Lab, hackathon do Instituto Cury realizado em parceria com a Enactus Brasil, durante o Evento Nacional Enactus Brasil 2026, em Campo Grande (MS).


