09 de setembro de 2026

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Japoneses e brasileiros veem sushi de formas opostas, diz estudo

Geral Gastronomia 09/09/2026 08:20 Flavia Nakamura / ESPM

Uma pesquisa da ESPM revela que, enquanto a maioria dos brasileiros adora a fusão de ingredientes locais no sushi, a percepção entre pessoas de ascendência japonesa é bem mais crítica, vendo essa adaptação como perda de autenticidade.

São Paulo, 09 de setembro de 2026 O sushi no Brasil não é mais o mesmo que o servido em Tóquio. É comum encontrar versões com cream cheese, hot roll, molho de maracujá e outras combinações que seriam difíceis de imaginar na capital japonesa. Essa mistura de ingredientes e hábitos brasileiros transformou a culinária japonesa em uma experiência única. Para a maioria das pessoas, essa mudança é vista como algo bom, uma fusão cultural positiva. No entanto, essa visão não é compartilhada por todos.

O estudo aponta que os limites entre adaptação e tradição são percebidos de maneiras bem diferentes. Enquanto o público em geral celebra a criatividade brasileira, pessoas com ascendência japonesa tendem a ser mais críticas, sentindo que os pratos perderam a essência original. Essa diferença de ponto de vista é o centro da discussão levantada pela pesquisa.

  • 87% dos brasileiros veem a culinária japonesa local como uma boa fusão cultural, mas para os descendentes, esse número cai para 41%.
  • Para 82% da amostra, ingredientes brasileiros no prato são bem-vindos, enquanto apenas 37% dos japonesas concordam.
  • 76% dos participantes acham que os ingredientes parecem típicos, mas entre os de origem japonesa, apenas 38% têm essa opinião.
  • 94% dos brasileiros gostam de experimentar comidas estrangeiras, o que ajuda na popularidade dos pratos adaptados.
  • O visual, a música e até a textura do ambiente contam muito para que o público sinta que está comendo algo autêntico.

Os números são resultado de uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos Aplicados de Marketing da ESPM-SP, o CEAM. O levantamento mostrou que a maioria dos 237 consumidores entrevistados considera a culinária japonesa no Brasil um excelente exemplo de como o mundo se mistura. A maioria acha que adaptar pratos é uma forma de criar novas experiências. Porém, entre os participantes com sangue japonês, essa visão positiva de fusão aparece em menos da metade dos casos. Esse contraste mostra como o mesmo fato é interpretado de formas opostas dependendo da origem da pessoa.

A diferença na visão sobre ingredientes e sabores

Quando se fala em usar ingredientes brasileiros nos pratos japoneses, a opinião divide ainda mais. A maioria entende que puxar maracujá ou outros itens locais para o prato é uma união saudável de culturas. Mas para os descendentes, essa mudança parece um afastamento perigoso do que seria a receita original. Flávio Bizarrias, que coordena a pesquisa, explica que para o público geral, adaptar significa aproximar as pessoas. Já para os japonesas, isso pode parecer uma distância maior da história gastronômica da família. A culinária brasileira é famosa por brincar com receitas de outros países, e isso é bem aceito aqui.

Os dados mostram que quase 85% dos entrevistados acreditam que os restaurantes aqui oferecem versões bem abrasileiradas dos pratos. Outros 71% confirmam que os cardápios têm opções que simplesmente não existem no Japão. Isso significa que a maioria reconhece que a comida japonesa daqui é uma mistura de práticas internacionais e gostos locais. A chave para entender a pesquisa não é saber se a mudança existe, que todos concordam que existe, mas sim o julgamento que cada grupo faz sobre essa mudança. Para uns, é um sucesso cultural; para outros, é um erro de tradição.

O que define a autenticidade de um prato

Um ponto interessante é que, mesmo sabendo das adaptações, a maioria acha que a comida japonesa aqui ainda é autêntica. Satisfação com os ingredientes é alta para 76% das pessoas. Mas, novamente, entre os de ascendência japonesa, apenas 38% concordam. O sabor também gera debate: dois terços da amostra geral acha que o gosto é verdadeiro, mas entre os japonesas, só um terço pensa o mesmo. Isso prova que ter autenticidade não é algo universal. Depende muito da memória afetiva e cultural de quem come.

A distância entre os grupos sugere que quanto mais perto da cultura original a pessoa está, mais rígida ela é na hora de julgar o prato. Mas, apesar das críticas, a tradição ainda manda no cardápio. 65% dos entrevistados acham que o preparo continua fiel às técnicas japonesas. A maioria também acredita que a apresentação dos pratos respeita as regras originais. Os resultados indicam que tradição e adaptação podem coexistir. Um restaurante pode usar ingredientes brasileiros e ainda ser considerado japonês por grande parte do público, dependendo do quão familiar a pessoa é com a cultura de lá.

O papel dos olhos, ouvidos e sensação

A experiência de comer sushi vai muito além da boca. O visual é muito importante. Para 85% das pessoas, a aparência do prato é o que mais chama a atenção. A decoração da sala, as cores e a forma como o prato é servido ajudam a criar a sensação de que está se vivendo uma cultura japonesa. Muitas vezes, a decisão de que o restaurante é autêntico acontece antes mesmo da primeira mordida. Sons, como a música ambiente, também são relevantes para mais da metade dos participantes. Fatores de toque, como a qualidade dos utensílios, também contam.

O coordenador do estudo ressalta que os sentidos têm um peso enorme na nossa percepção. É como se o ambiente contesse uma história que o sabor precisava confirmar. Essa imersão sensorial explica por que a culinária japonesa é tão bem aceita. Ela não apenas alimenta, ela transporta o cliente para uma atmosfera específica. A combinação de elementos visuais e sonoros cria uma experiência completa que faz a comida parecer genuína, mesmo que o ingrediente seja brasileiro.

Um país aberto para misturar culturas

A popularidade do sushi no Brasil não é à toa. O brasileiro é um povo curioso e aberto. 94% dos entrevistados dizem que adoram provar comidas de outros países. A mesma abertura é vista no interesse pela cultura japonesa, que atinge 90%. Essa postura é o que permite que a fusão aconteça com tanto sucesso. O consumidor de aqui não quer uma cópia exata do que é servido em Tóquio; ele quer uma versão que faça sentido para ele, que combine com o que já conhece.

Por isso, a culinária japonesa em São Paulo ocupa um lugar especial. Ela é reconhecida como japonesa, mas popularmente brasileira. Essa mistura gera debates sobre o que é tradição e o que é inovação. No fim, a autenticidade é uma questão de perspectiva, onde cada pessoa define o que é verdadeiro com base na sua própria história e no seu gosto pessoal.

FICHA TÉCNICA
Pesquisa: CEAM Centro de Estudos Aplicados de Marketing | ESPM-SP
Responsável: Flávio Santino Bizarrias
Amostra: 237 consumidores de comida japonesa
Metodologia: Survey online com cotas de gênero, idade, região e renda.