Pesquisa do IBGE revela que 18,5% dos adolescentes sentem que a vida não vale a pena, com meninos apresentando risco mais alto; especialista detalha sinais precoces que pais e professores devem observar.
Os resultados mais recentes sobre a saúde mental de jovens brasileiros mostram um cenário de alerta. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE em março deste ano, 18,5% dos estudantes entre 13 e 17 anos relataram sentir, na maioria das vezes ou sempre, que "a vida não vale a pena ser vivida" nos 30 dias anteriores à investigação. Entre as meninas, esse percentual subiu para 25%, mais do que o dobro dos meninos, que ficaram em 12%. O estudo ouviu a opinião de 118.099 estudantes de 4.167 escolas públicas e privadas de todas as regiões do país (PeNSE 2024/IBGE).
Outros números preocupantes incluem o fato de que 32% dos adolescentes disseram ter tido vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores à pesquisa. Além disso, 28,9% relataram sentir tristeza e 42,9% afirmaram ficar irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer motivo (PeNSE 2024/IBGE).
A psicóloga Aline Rezende Graffiette, especialista em saúde mental e fundadora da Mental One, destaca que esses dados indicam a necessidade de discutir o tema além dos momentos de crise profunda. Para ela, o maior desafio está em reconhecer que mudanças emocionais sérias podem aparecer no dia a dia muito antes de o jovem pedir ajuda explicitamente.
- 18,5% dos jovens de 13 a 17 anos relatam que a vida não vale a pena.
- Meninas apresentam risco mais alto (25%) comparado aos meninos (12%).
- 32% dos adolescentes relataram desejo de se machucar nos últimos 12 meses.
- Só 47,7% das escolas possuem suporte psicológico para lidar com bullying e violência.
- Especialistas alertam que irritabilidade pode ser um pedido de ajuda silencioso.
"Os dados mostram que existe uma parcela expressiva de adolescentes convivendo com sentimentos que não deveriam ser tratados simplesmente como uma fase. Não significa que todo adolescente que apresenta tristeza ou irritabilidade esteja com um transtorno ou em risco de suicídio, mas significa que esses sinais precisam ser escutados e contextualizados. O erro é esperar que o sofrimento fique evidente demais para só então agir", explica a especialista.
Meninas apresentam indicadores mais preocupantes
A diferença entre os gêneros é um dos pontos que mais chama atenção na pesquisa, e o mesmo padrão se repete em outros indicadores de sofrimento emocional levantados pela PeNSE 2024/IBGE.
Para Aline, esses dados mostram que falar sobre saúde mental na adolescência também exige considerar experiências diferentes entre os gêneros.
"A adolescência já é um período de intensas transformações, de construção da identidade e de busca por pertencimento. Quando acrescentamos pressão estética, comparação social, medo de rejeição e necessidade de aprovação, podemos criar uma combinação muito difícil de administrar. Precisamos olhar para esses contextos sem transformar um único fator em explicação para tudo", afirma.
Redes sociais: o problema não é apenas o tempo de tela
A discussão sobre saúde mental dos adolescentes inevitavelmente passa pelo ambiente digital. Para a psicóloga, porém, reduzir a questão ao número de horas diante de uma tela é insuficiente.
"Mais importante do que perguntar apenas quanto tempo um adolescente passa no celular é entender o que ele está vivendo nesse ambiente. Ele está se comparando constantemente Sente que precisa ser aceito Está sofrendo com comentários, exclusão ou cyberbullying Está deixando de dormir para permanecer conectado Está acompanhando conteúdos que aumentam sua ansiedade", questiona.
A especialista explica que as redes podem funcionar como espaço de conexão e pertencIMENTO, mas também podem ampliar experiências de comparação e exposição. Por isso, o papel dos adultos não deveria ser apenas controlar o acesso, mas acompanhar como o adolescente está se relacionando com esse ambiente.
"Proibir o celular não resolve necessariamente o problema. Precisamos ensinar o adolescente a reconhecer como determinados conteúdos e interações afetam seu estado emocional e, principalmente, criar espaço para que ele possa contar o que está acontecendo sem medo de julgamento ou punição", afirma.
Quando a irritabilidade pode ser um pedido de ajuda
O dado sobre irritabilidade citado anteriormente, segundo Aline, pode ser especialmente difícil de identificar porque costuma ser interpretado pelos adultos como "rebeldia", "drama" ou simplesmente uma característica da adolescência.
"Nem toda irritabilidade é sinal de sofrimento psíquico. Adolescência envolve mudanças emocionais e comportamentais. O que precisamos observar é quando existe uma mudança significativa em relação ao padrão daquele adolescente, quando o comportamento se torna persistente ou quando começa a prejudicar relações, estudos, sono, alimentação ou atividades que antes faziam parte da rotina", explica.
Para a psicóloga, o mesmo vale para o isolamento. Querer ficar sozinho eventualmente é diferente de perder o interesse por pessoas e atividades que antes eram importantes.
O que os adultos podem observar
Mais do que procurar um "sinal de suicídio", pais, responsáveis, professores e outros adultos próximos podem prestar atenção a mudanças persistentes no comportamento. Entre os pontos que merecem atenção estão:
- isolamento repentino ou aumento significativo do afastamento social
- mudanças importantes no sono
- perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer
- irritabilidade ou tristeza persistentes
- queda significativa no rendimento escolar
- alterações marcantes na alimentação
- sensação frequente de desesperança ou inutilidade
- mudanças bruscas na forma de se relacionar com amigos e familiares
- falas recorrentes sobre não fazer sentido estar vivo ou sobre não enxergar perspectivas
"Nenhum desses sinais, isoladamente, permite concluir que existe risco de suicídio. O mais importante é observar mudanças, frequência e intensidade e, diante de uma preocupação real, não tentar resolver tudo sozinho. Buscar orientação profissional é uma forma de cuidado", ressalta Aline.
A prevenção começa antes da crise
A pesquisa também mostrou que apenas 47,7% dos estudantes estavam em escolas que contavam com algum tipo de suporte psicológico para alunos, professores e funcionários em situações relacionadas a bullying e violência. Na rede pública, o percentual era de 45,8%, enquanto na rede privada chegava a 58,2% (PeNSE 2024/IBGE).
Para Aline, o dado reforça que a prevenção depende de uma rede de cuidado que não pode ficar restrita à família ou ao indivíduo. "Quando falamos de prevenção, precisamos pensar em família, escola, serviços de saúde e comunidade. O adolescente precisa ter para quem recorrer e precisa saber que pedir ajuda não significa que ele está fraco ou que fez algo errado", afirma.
A especialista também reforça que o Setembro Amarelo não deve ser encarado apenas como um período para falar sobre suicídio, mas como uma oportunidade para discutir saúde mental de maneira mais ampla. "Prevenção não começa quando alguém está em uma situação extrema. Ela começa quando conseguimos falar sobre sentimentos, quando um adolescente sabe que pode dizer que não está bem, quando os adultos aprendem a ouvir sem minimizar e quando existe acesso a profissionais que possam avaliar cada situação. Quanto antes reconhecemos o sofrimento, maior é a possibilidade de construir uma rede de cuidado", finaliza Aline.

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