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Jovens da periferia de Campinas criam ações para enfrentar a crise climática

Geral Clima 02/09/2026 21:51 Cecília Polycarpo (Em Movimento)

Pesquisa em Campinas mostra que 58% dos jovens da cidade sentem os efeitos da crise climática no futuro. Agora, quatro projetos feitos por jovens periféricos usam esses dados para criar ações concretas, como mapeamento de riscos, arte, moda e cultura, para melhorar a vida nas comunidades.

A crise climática não é algo distante para os jovens das periferias do Brasil. Enchentes que param o ônibus, calor extremo nas escolas sem ar-condicionado e falta de água são situações comuns. Jovens de Campinas estão criando suas próprias ferramentas para registrar, entender e comunicar essa realidade. Isso é a resposta prática à pesquisa JUCAMP (Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas): quando a maioria dos jovens periféricos diz que o clima afeta seus planos para o futuro, eles não ficam parados, eles constroem soluções para mudar essa situação nos seus bairros e comunidades.

A pesquisa JUCAMP, divulgada em julho pela organização Em Movimento e pela rede Minha Campinas, com apoio da Fundação FEAC e assistência técnica da Rede Conhecimento Social (ReCoS), mostrou que 58% dos jovens de Campinas reconhecem que as mudanças climáticas influenciam seus planos para o futuro. Outros dados mostram impactos específicos: 73% têm dificuldade de andar de ônibus em dias de chuva forte, 70% ficam sem internet por causa do clima e 75% têm falta de energia elétrica durante ventanias.

  • 58% dos jovens de Campinas dizem que a crise climática afeta seu futuro.
  • 73% têm dificuldade para se locomover de ônibus em dias de chuva.
  • 70% ficam sem internet por causa do clima.
  • 75% sofrem com falta de energia em ventanias.
  • Quatro projetos periféricos foram escolhidos para agir, com até R$ 15 mil cada.

Agora, o projeto JUCAMP entra na segunda fase com dinheiro direto para organizações locais. Quatro iniciativas foram escolhidas por edital para transformar os dados da pesquisa em ação. Cada uma recebeu até R$ 15 mil, com acompanhamento técnico do Em Movimento e da Minha Campinas. Esses quatro projetos não são o fim da JUCAMP, mas a continuação. Os dados viraram matéria-prima para que as próprias juventudes periféricas criem ferramentas de análise, comunicação e cobrança que o diagnóstico pedia, diz Iasmim Vieira, do Em Movimento.

Dados como ferramenta de justiça

O projeto 'Cartografia Climática Periférica', feito pelo coletivo Assaltar as Nuvens no bairro Campo Belo, ensina jovens de 15 a 29 anos a usar software livre e gestão de dados para mapear problemas climáticos locais, como ilhas de calor, alagamentos e acúmulo de lixo.

A grande diferença é quem controla os dados. Diferente de plataformas de empresas, a infraestrutura é criada pelos próprios jovens, que passam a cuidar tanto da coleta quanto da análise das informações do seu território. Essa forma de trabalho é chamada Geração Cidadã de Dados (GCD). A ideia é simples, mas política: quando a comunidade que vive o problema decide quais indicadores mostram melhor sua realidade, a cobrança por soluções fica mais forte.

Quando a gente constrói uma ferramenta, ela cria e mantém relações de poder. Os dados de empresas sobre as periferias não conseguem mostrar o que realmente vivemos. A tecnologia é um campo de disputa política importante, diz João Augusto de Souza Paranhos, do Assaltar as Nuvens.

Os participantes não usam indicadores prontos de institutos de pesquisa ou do governo. Eles escolhem quais medidas fazem sentido para seu bairro. Depois criam seus próprios servidores e telas para guardar e mostrar os dados, sem depender de plataformas de empresas como Google Maps ou outros aplicativos.

Também há mutirões na comunidade para mapear os riscos climáticos. O resultado será um banco de dados público sobre esses riscos em Campo Belo, para que moradores, ativistas e governo tenham informações diretas sobre a região.

O impacto vai além dos dados: queremos que os jovens deixem de ser só usuários de tecnologia e se tornem criadores e multiplicadores na comunidade, usando a tecnologia para ter mais poder político, complementa João.

A arte como denúncia

O projeto 'Rima e Território: Quem Tem Direito à Cidade' quer alcançar até 500 pessoas. Ele usa hip-hop, funk e arte urbana para falar de justiça climática e desigualdade racial com os jovens do Distrito de Campo Grande, em Campinas. Feito pelo Cursinho Popular Responsa!, a iniciativa atende 40 alunos do pré-vestibular, com foco em entrar na universidade pública. Também abre 40 vagas para jovens de 15 a 29 anos que trabalham em empregos instáveis, como entregadores, motoristas de aplicativo e garçons.

Durante seis sábados seguidos, haverá palestras sobre 'Hip Hop e Território' com MCs da Batalha do Cálice, a maior batalha de rima do interior de São Paulo. Cerca de 80 estudantes terão aulas sobre racismo ambiental, mostrando como os problemas ambientais atingem mais as periferias e a relação com a justiça ambiental. A 'Batalha de Responsa!', aberta ao público, encerra o projeto com 16 MCs da região de Campinas.

Economia criativa e reutilização na moda

A terceira frente é a OMG Moda Sustentável, que cria um ateliê-escola de reutilização de roupas nos bairros Oziel, Monte Cristo e Gleba-B. O projeto usa cerca de 200 peças de roupa descartadas para oferecer formação criativa, consciência ambiental e geração de renda com economia circular.

A iniciativa é para jovens de 15 a 29 anos, principalmente negros, que moram nas periferias de Campinas e região e se interessam por moda, arte, sustentabilidade e criação. Eles vão criar roupas autorais a partir de peças reutilizadas, em processos coletivos de criação, experimentação e troca de saberes. Vai ter uma mostra comunitária das peças, para mostrar os resultados e valorizar o trabalho.

Samba na horta: cultura como mobilização

O Samba na Horta, feito pelo Coletivo NaViela no Parque Itajaí, junta cultura, comunicação, agroecologia, alimentação e justiça climática com rodas de conversa, produção de conteúdo digital e um encontro cultural para a comunidade.

Serão três rodas de conversa com jovens do bairro, sobre cultura periférica e justiça racial; alimentação, comunicação popular e justiça climática; e agroecologia, cuidado comunitário e direito à cidade. Essas conversas têm parceria com projetos locais como Cultura na Base, Vegano Periférico e Horta Comunitária do Itajaí.