A União Europeia vai bloquear importações de carne do Brasil por questões de saúde animal. O foco é o uso de antibióticos e o bem-estar dos bichos, o que afeta o comércio e expõe problemas na agricultura.
A União Europeia decidiu suspender a compra de carnes do Brasil a partir de 3 de setembro. A medida não é apenas sobre dinheiro ou comércio. Ela expõe um problema sério: o uso excessivo de antibióticos nos animais e o sofrimento que eles enfrentam durante a criação.
A decisão baseia-se na falta de garantias de que o Brasil segue as regras europeias sobre saúde animal. Enquanto o governo discute o prejuízo financeiro, pouca gente pergunta como esses animais são tratados antes de virarem produto.
- A UE bloqueia importações por falta de controle no uso de antibióticos.
- Só 1 de 16 grandes empresas assumiu compromisso de parar de usar remédios para engorda.
- Milhões de bovinos são exportados vivos, sofrendo muito no transporte.
- A resistência a antibióticos é um dos maiores riscos para a saúde humana.
- O debate mistura comércio, ética e saúde pública.
O risco para a saúde pública
Antibióticos salvam vidas, tanto de animais quanto de humanos. Mas usar demais, sem necessidade, cria bactérias que não morrem com o remédio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a resistência a antibióticos matou quase 5 milhões de pessoas em 2019. É necessário usar esses medicamentos apenas para tratar doentes, e não para prevenir problemas ou acelerar o crescimento.
Se a prevenção fosse melhor, com higiene e vacina, seria preciso usar muito menos remédio. Hoje, o sistema de produção depende dos medicamentos para compensar o estresse e as más condições de vida dos animais.
Um retrato da pecuária suínia
O relatório "Porcos em Foco", feito pela ONG Sinergia Animal, mostra que a situação é preocupante. Em 2025, apenas uma das 16 maiores empresas do setor suíno no Brasil (a Ecofrigo) assumiu publicamente que vai acabar com o uso de antibióticos para emagrecer, prevenir e tratar grupos de animais. As demais não têm compromisso claro até 2027.
Isso mostra que a maioria das indústrias ainda não resolveu o problema. Elas preferem usar remédios quando o animal já está com dor ou doente, em vez de mudar as condições do ambiente para ele ficar saudável.
O animal como unidade de produção
No modelo industrial, o animal é visto como uma máquina de produzir carne, ovos ou leite. O objetivo é produzir muito, rápido e barato. Nesse cálculo, o bem-estar do bicho fica em segundo plano.
Animais sentem dor, medo e estresse. Quando são confinados em espaços pequenos e sem liberdade para agir, eles adoecem. A indústria trata isso como um custo inevitável. A pergunta é: quanto sofrimento estamos aceitando para manter a lucratividade
O caso dos bovinos vivos
Outro exemplo claro é a exportação de animais vivos. Em vez de frigorificar os bois no Brasil, enviamos os bichos de navio. Em 2024, mais de 1 milhão de bovinos saíram do país vivos. Segundo a Lei de Acesso à Informação, entre 2020 e 2025, mais de 2,3 mil animais morreram no mar durante a viagem.
Há poucos anos, em 2015, o navio Haidar naufragou no Pará com mil bois vivos a bordo. Eles morreram e o acidente causou uma grande mancha de óleo. Mesmo com esses desastres, a prática continua crescendo, tratando a vida animal como simples carga de mercadoria.
Números que impressionam
Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169 bilhões. A carne bovina teve um aumento de 20% nos volumes enviados, gerando US$ 17,9 bilhões. Ser líder mundial não deveria significar apenas produzir mais, mas produzir de forma inteligente e ética.
O Brasil pode escolher continuar transformando o sofrimento animal em lucro invisível ou mudar o jogo. Uma indústria moderna deve ser capaz de garantir saúde e dignidade aos animais, sem depender de antibióticos de forma abusiva.

INA FASSBENDER / AFP



