A ONG Sinergia Animal questiona a alegação do Grupo Trigo de que 100% dos ovos de suas marcas vêm de galinhas livres de gaiolas, apontando falta de transparência sobre produtos de terceiros e ausência de rastreabilidade na cadeia de fornecedores.
O Grupo Trigo, dono de marcas como Spoleto, Koni Store e Domino's Pizza, declarou ter concluído 100% da transição para ovos de galinhas livres de gaiolas. Porém, a ONG Sinergia Animal questiona o que exatamente significa esse "100%" e cobra mais transparência.
A afirmação foi reportada ao EggLab, plataforma que monitora compromissos corporativos com ovos livres de gaiolas. O problema é que o grupo não esclarece publicamente se essa política também se aplica a produtos de terceiros que comercializa em suas lojas e restaurantes.
- O Grupo Trigo prometeu em 2016 eliminar ovos de gaiolas de toda a cadeia produtiva até 2025.
- A Casa do Pão de Queijo é a única marca do grupo com um plano público e detalhado de transição, com metas até 2030.
- O Grupo Pão de Açúcar e a Sodexo são exemplos de empresas que divulgam percentuais reais de implementação.
- No Brasil, não existe lei que obrigue empresas a auditarem independentemente a origem dos ovos.
- Compromissos voluntários exigem prestação de contas para serem levados a sério.
O que significa 100% livre de gaiolas
Para a Sinergia Animal, existe uma diferença enorme entre usar apenas ovos livres de gaiolas nos próprios produtos e garantir que 100% da cadeia de abastecimento do grupo seja livre de gaiolas. Uma empresa pode comprar ovos diretamente de um fornecedor e rastrear a origem. Mas também pode comprar produtos industrializados, ingredientes processados ou itens prontos que contenham ovos, e nesse caso, dizer que 100% são livres de gaiolas exige rastreabilidade completa.
Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil, afirma: "Uma política livre de gaiolas só é realmente 100% quando a empresa consegue demonstrar que o critério vale para toda a sua cadeia de abastecimento, inclusive para produtos e ingredientes adquiridos de terceiros. Se uma parte dessa cadeia não é rastreada, o consumidor precisa saber disso. Transparência não pode significar divulgar apenas a parte que a empresa consegue controlar diretamente".
A diferença entre compromisso e declaração
A Casa do Pão de Queijo, marca do Grupo Trigo, é um bom exemplo da diferença. Depois de um longo processo de diálogo e pressão da Sinergia Animal, o grupo assinou em julho de 2026 um compromisso específico para a marca. O documento estabelece metas progressivas: 25%, 50%, 75% e 100%, com prazos até dezembro de 2029 para produtos próprios e dezembro de 2030 para produtos de terceiros. O plano ainda prevê reporte periódico no EggLab.
Ou seja: quando existe um compromisso verificável, é possível saber exatamente o que está sendo prometido, para quando e como será acompanhado. É justamente esse nível de clareza que falta nas demais marcas do grupo.
Outras empresas mostram o caminho
O mercado brasileiro já tem exemplos de transparência. O Grupo Pão de Açúcar ampliou seu compromisso para que 100% dos ovos vendidos em suas lojas, independentemente da marca, sejam de galinhas livres de gaiolas até 2028. A Sodexo vai além: publica um percentual real de implementação, informando que 94% dos ovos utilizados em suas operações no Brasil já eram livres de gaiolas em 2026, com meta de 95% até o final do ano.
Esse tipo de divulgação permite uma comparação objetiva entre o que já foi alcançado e o que ainda falta. É exatamente esse tipo de informação que a Sinergia Animal gostaria de ver do Grupo Trigo.
Por que a transparência é tão importante
No Brasil, não existe uma regra federal que obrigue empresas de alimentação a apresentar auditorias independentes comprovando que todos os ovos utilizados são de sistemas livres de gaiolas. A legislação possui normas gerais de bem-estar animal, e o Ministério da Agricultura mantém materiais técnicos sobre criação de galinhas poedeiras, mas a transição ocorre principalmente por compromissos voluntários.
É por isso que um compromisso público não pode ser tratado como peça de marketing sem prestação de contas. Quando uma empresa anuncia uma meta voluntária, ela cria uma expectativa legítima de transparência junto a consumidores e organizações da sociedade civil.
A Sinergia Animal reconhece o compromisso da Casa do Pão de Queijo como um avanço concreto. Porém, a ausência de mecanismos robustos e independentes de verificação deixa grande parte da responsabilidade nas mãos das próprias empresas. Se o setor quer que seus compromissos sejam levados a sério, precisa aceitar que eles sejam acompanhados, questionados e comprovados.

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