Enquanto campanhas focam nos exames de mamografia, cresce o número de casos de câncer de mama em mulheres jovens. Mas uma pergunta essencial costuma ficar sem resposta: e antes dos 40, o que fazer?
A saúde das mamas antes dos 40
Enquanto campanhas focam nos exames de mamografia, cresce o número de casos de câncer de mama em mulheres jovens. Mas uma pergunta essencial costuma ficar sem resposta: e antes dos 40, o que fazer
Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 78,6 mil novos casos de câncer de mama em 2026. Ainda que a maior prevalência aconteça em mulheres acima dos 50 anos, os números em faixas etárias mais jovens vêm chamando atenção. Dados do Painel Oncologia Brasil mostram que, entre 2018 e 2023, mais de 108 mil brasileiras com idades entre 35 e 49 anos receberam diagnóstico de câncer de mama. Isso significa que uma em cada três pacientes está nessa faixa.
O aumento de casos em mulheres mais jovens foi um dos motivos que levaram o Ministério da Saúde a atualizar, em 2025, a idade recomendada para o início do rastreamento com mamografia, que agora começa aos 40 anos, e não mais aos 50. Essa mudança ainda deixa em aberto uma faixa etária significativa da vida da mulher.
"Muitas pacientes chegam ao consultório aos 32, 35, 38 anos com uma queixa ou uma alteração e me perguntam: 'mas eu não posso fazer mamografia ainda'. A resposta correta é que, nessa fase, o ultrassom mamário é o principal aliado da investigação e do rastreamento, quando indicado", explica a médica radiologista Dra. Leynalze Ruiz, mestre em Radiologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
O ultrassom e as mamas mais jovens
Nas mulheres mais jovens, as mamas costumam ser densas, ou seja, com maior proporção de tecido glandular e fibroso e menor proporção de tecido gorduroso. Essa característica é totalmente normal, mas tem uma implicação prática importante: em mamas densas, a mamografia perde parte de sua sensibilidade, porque tanto o tecido denso quanto eventuais alterações aparecem em tons semelhantes na imagem, dificultando a detecção de nódulos.
O ultrassom, ao contrário, "enxerga" com clareza dentro de mamas densas. Por utilizar ondas sonoras em vez de raios X, sua imagem em tempo real permite diferenciar cistos de nódulos sólidos, identificar alterações mesmo em meio ao tecido glandular denso e avaliar linfonodos da região axilar. Além disso, é indolor, sem radiação e não exige preparo especial.
"O ultrassom mamário é seguro e pode ser realizado em qualquer idade. Em mulheres jovens, ele frequentemente é o exame principal e não um complemento à mamografia, como acontece em faixas etárias mais avançadas. O exame pode ser feito durante a gestação e a amamentação, momentos em que a mamografia nem sempre é indicada", detalha a especialista.
Quando o ultrassom mamário é indicado
O exame não é feito indiscriminadamente em mulheres jovens sem queixas. Sua indicação segue orientação médica, geralmente do ginecologista, mastologista ou clínico. Entre as situações mais frequentes:
- Presença de nódulo palpável durante o exame clínico ou o autoexame
- Dor persistente em uma região específica da mama
- Descarga mamilar (saída de secreção pelo mamilo fora da amamentação)
- Alterações visuais (retração, mudança de forma ou textura da pele)
- Histórico familiar de câncer de mama
- Acompanhamento de cistos ou nódulos benignos já conhecidos
- Investigação de sintomas durante a gestação ou amamentação
Um alerta sobre o autoexame
Muitas mulheres jovens acreditam que o autoexame das mamas substitui os exames de imagem. Não substitui, mas continua sendo uma ferramenta valiosa de autoconhecimento corporal. É pelo toque do próprio corpo que muitas mulheres identificam alterações que motivam a procura pelo médico e é justamente esse hábito que pode encurtar o caminho até um diagnóstico precoce.
"O autoexame não é um exame de rastreamento, é um exercício de conexão com o próprio corpo. Se você percebe que algo está diferente, essa é a informação que leva ao médico e é o médico que vai decidir se o ultrassom é indicado, se precisa de outros exames complementares, ou se aquilo que você percebeu não representa risco", pontua a Dra. Leynalze.
O papel do olhar experiente
A qualidade do ultrassom mamário depende diretamente da experiência do radiologista que o realiza. Cada nódulo tem características sutis, contornos, ecogenicidade, presença ou não de vascularização ao Doppler, que precisam ser observadas com atenção e tempo.
"Um exame apressado, em mamas jovens e densas, pode não identificar achados importantes. Cada detalhe conta e o cuidado na avaliação faz toda a diferença. Por isso, cada ultrassom mamário que faço é conduzido com o tempo que ele merece, sem cronômetro, sem pressa, com o olhar treinado ao longo dos 30 anos da minha experiência em radiologia", finaliza a especialista.
O recado para as mulheres jovens
O câncer de mama continua sendo uma doença mais comum a partir dos 50 anos. Mas a atenção à saúde mamária deve começar muito antes disso. Consultas ginecológicas regulares, atenção às alterações do próprio corpo e conhecimento sobre quando o ultrassom é indicado formam o tripé do cuidado preventivo em mulheres abaixo dos 40 anos.
"Não é sobre pânico. É sobre informação. Cuidar das mamas o ano inteiro, e não apenas em outubro, é um gesto de cuidado com o próprio futuro. Para as mulheres jovens, essa informação precisa chegar com clareza: o ultrassom é o seu aliado", conclui a Dra. Leynalze.
SOBRE A DRA. LEYNALZE
A Dra. Leynalze Urbano Ruiz é médica radiologista graduada pela Faculdade de Medicina do ABC, com residência médica no Hospital Heliópolis, título de especialista pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) e mestrado em Radiologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Com mais de 30 anos de atuação, dedica-se ao ultrassom geral, com ênfase em saúde da mulher, oncologia, biópsias e punções guiadas por imagem.

(IA)


