28 de agosto de 2026

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Perdoar pode fazer bem à saúde mental? Entenda como isso funciona

Geral Perdoar 28/08/2026 07:43 Beatriz Felício - Assessoria

Especialistas explicam como o perdão impacta o cérebro, a memória e o bem-estar emocional, com dicas simples para lidar com mágoas.

Perdoar realmente faz bem para a saúde mental

No Dia Nacional do Perdão (30/08), psicóloga e psiquiatra explicam como o cérebro lida com mágoas e experiências dolorosas

Uma experiência dolorosa pode terminar, mas seus efeitos emocionais nem sempre desaparecem com ela. Traições, rejeições, injustiças, humilhações e quebras de confiança podem permanecer na memória e continuar provocando emoções mesmo muito tempo depois. Para a psicologia, o perdão não significa simplesmente esquecer ou seguir em frente, mas elaborar o que aconteceu e, gradualmente, mudar a relação com a experiência e os sentimentos associados a ela, sem minimizar a dor ou retirar a responsabilidade de quem causou o dano.

Segundo a Dra. Mariana Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, o perdão é um processo interno que pode ajudar a reduzir a ruminação e o estresse associados à mágoa. Perdoar não significa esquecer o que aconteceu nem aceitar comportamentos abusivos. Na psicologia, entendemos o perdão como um processo interno de reorganização emocional. Quando a pessoa deixa de alimentar continuamente sentimentos de mágoa e desejo de vingança, pode haver redução da ruminação mental e do estresse. Esse movimento favorece um estado emocional mais equilibrado e pode repercutir positivamente nos sistemas cerebrais envolvidos na regulação das emoções, no bem-estar e na motivação, explica.

Perdoar não é esquecer

De acordo com a psicóloga, uma das principais confusões sobre o perdão é associá-lo ao esquecimento. Memória e perdão são processos diferentes: é possível lembrar de uma situação dolorosa sem continuar reagindo a ela com a mesma intensidade emocional. O objetivo da elaboração emocional não é necessariamente fazer a experiência desaparecer, mas permitir que ela ocupe outro lugar na história da pessoa. Algumas lembranças, inclusive, têm uma função adaptativa: ajudam a reconhecer limites, identificar situações de risco e fazer escolhas diferentes no futuro, aponta a especialista.

Nesse processo, a aceitação também tem um papel importante. Ela não significa concordar com o que aconteceu ou considerar aceitável o comportamento de quem causou o dano, mas reconhecer a realidade da situação, seus impactos e aquilo que está ou não sob o próprio controle. Posso me lembrar do que aconteceu sem precisar reviver emocionalmente aquilo como se estivesse acontecendo novamente, afirma.

Essa compreensão também ajuda a diferenciar perdão de reconciliação. Enquanto o primeiro pode ser um processo interno, reconstruir uma relação depende de fatores como reconhecimento do dano, responsabilização, mudança de comportamento, segurança e reconstrução da confiança. Por isso, é possível elaborar o que aconteceu e seguir a própria vida sem retomar o vínculo com quem causou a dor. A diferença é especialmente importante em situações de violência e abuso. Perdoar não significa abandonar medidas de proteção, voltar a uma relação prejudicial ou devolver a alguém o acesso que essa pessoa perdeu por causa de seus próprios comportamentos.

O que acontece no cérebro

O perdão não está relacionado a uma única região cerebral. A elaboração de situações dolorosas envolve diferentes sistemas ligados à regulação emocional, memória, cognição social, tomada de perspectiva e controle das respostas emocionais.

Quando alguém passa por uma situação marcante, a experiência pode ficar associada a emoções e estímulos presentes no momento. Por isso, situações semelhantes podem despertar medo, raiva, desconfiança ou necessidade de proteção. A dificuldade pode surgir quando a lembrança permanece acompanhada de pensamentos repetitivos, como por que fizeram isso comigo ou como alguém pode fazer isso. A ruminação pode manter a pessoa emocionalmente conectada ao acontecimento e contribuir para a manutenção do sofrimento psicológico.

Do ponto de vista psiquiátrico, experiências emocionalmente marcantes também podem permanecer associadas a respostas de alerta mesmo depois que a situação terminou. Segundo o especialista, isso ocorre porque memória e emoção estão profundamente relacionadas. A reação de alerta pode continuar depois de um evento intensamente estressante, seja ele qual for. Isso é mais comum em situações onde a intensidade do estresse é mais significativa. Veremos isso do ponto de vista patológico, de forma mais clara, em transtornos como o transtorno de estresse pós-traumático, onde a pessoa continua por um longo período revivendo e se mantendo em alerta tudo o que aconteceu dentro do evento traumático estressante.

A relação entre memória e emoção ajuda a explicar por que determinadas experiências permanecem tão vivas. Segundo o médico Dr. Rodrigo Schettino, professor da pós-graduação em Psiquiatria na Afya Educação Médica Itaperuna, memória e emoção estão relacionadas. Inclusive, uma das estratégias que recomendamos nos estudos é que duas formas de aprendizado sejam associadas: uma através da repetição e outra por meio da emoção. Provavelmente você se lembra do seu primeiro beijo, da primeira vez que você entrou na escola, e assim vai. Situações que promovem muita emoção tendem a fazer com que a memória seja consolidada mais facilmente.

Isso, porém, não significa que toda lembrança dolorosa seja um problema psiquiátrico. A reação de alerta faz parte dos mecanismos de proteção do organismo e pode ser mais intensa ou persistente dependendo da natureza e da gravidade da experiência.

A elaboração pode ajudar a modificar a relação com o passado, reorganizando seus significados e favorecendo formas mais adaptativas de lidar com as emoções. O cérebro não possui um centro do perdão. O que ocorre é uma interação entre diferentes regiões responsáveis por memória, emoção, empatia e tomada de decisão. Quando o indivíduo consegue reinterpretar uma experiência negativa e diminuir a intensidade do ressentimento, esses circuitos podem funcionar de maneira mais equilibrada, explica a psicóloga.

Qual o papel da dopamina

A relação entre perdão e dopamina precisa ser vista com cautela. O neurotransmissor participa de circuitos relacionados à recompensa, motivação, aprendizagem e tomada de decisão, mas não há evidência de que perdoar provoque simplesmente um banho de dopamina.

Hoje, a dopamina é compreendida para além da ideia de uma substância ligada ao prazer. Ela participa de processos pelos quais o cérebro aprende com experiências, atribui valor a estímulos e orienta comportamentos motivados por recompensas.

Segundo o psiquiatra, não é adequado estabelecer uma relação direta e simples entre perdoar e aumentar a dopamina. A dopamina não deve ser entendida como um neurotransmissor responsável apenas pelo prazer ou pela felicidade. Ela participa de processos muito mais amplos, como motivação, aprendizagem, atribuição de valor às experiências e direcionamento do comportamento. Por isso, não é adequado dizer que o perdão simplesmente aumenta a dopamina e, por consequência, produz bem-estar. A experiência emocional é muito mais complexa e envolve a interação entre diferentes sistemas cerebrais e neurotransmissores.

A experiência de perdoar também pode variar bastante de uma pessoa para outra. Em algumas situações, elaborar uma mágoa pode estar associado a uma sensação de alívio e redução da tensão. Em outras, a ideia de perdoar pode provocar desconforto ou até intensificar o estresse, especialmente quando envolve pressão para retomar uma relação, reduzir o dano ou abrir mão de limites importantes.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 na revista JAMA Psychiatry, que reuniu dados de 102 estudos, encontrou associação entre a dopamina e processos de aprendizagem por recompensa e sensibilidade à recompensa. No caso do perdão, portanto, o neurotransmissor pode participar de mecanismos relacionados à motivação e à aprendizagem, mas não deve ser apontado como responsável isolado pela sensação de alívio que algumas pessoas experimentam.

Para a psicóloga, a questão central está menos em obrigar-se a perdoar e mais em entender o que a experiência provoca emocionalmente. A saúde mental depende da forma como processamos nossas emoções. Quando conseguimos elaborar uma experiência dolorosa e reduzir a carga emocional associada a ela, diminuímos o estado de alerta constante do organismo. Esse processo pode contribuir para reduzir o sofrimento emocional e melhorar a qualidade de vida.

Perdoar, ansiedade e estresse

A relação entre perdão e saúde mental também exige cautela. Guardar ressentimento nem sempre leva a ansiedade ou depressão, assim como perdoar nem sempre funciona como tratamento para esses transtornos. Ainda assim, a ruminação, a hostilidade, os pensamentos de vingança e a reação frequente a situações dolorosas podem contribuir para a manutenção do sofrimento psicológico. Nesse contexto, a terapia pode ser uma grande aliada, ajudando a reconhecer pensamentos automáticos, entender emoções, identificar crenças criadas a partir da experiência e desenvolver formas mais adaptativas de lidar com o que aconteceu.

Depois de uma traição, por exemplo, alguém pode concluir que não pode confiar em ninguém. Embora esse pensamento possa surgir inicialmente como uma tentativa de proteção, quando generalizado para todos os relacionamentos, pode afastar, deixar a pessoa em hipervigilância e dificultar novos vínculos. Elaborar essa experiência não significa apagar a dor, justificar o que aconteceu ou voltar a confiar indiscriminadamente, mas encontrar uma forma mais equilibrada de seguir em frente. Isso envolve reconhecer o que foi vivido, aprender com a experiência, estabelecer limites e, gradualmente, entender que uma decepção não precisa definir a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo e consigo mesma.