A gestora, que transferiu R$ 1,5 bilhão em fundos de terras para a Tane Capital, já estruturou mais de R$ 350 milhões em negócios e vê espaço para crescer em reestruturação de dívidas de produtores médios.
Quando a 051 Capital decidiu separar sua operação de investimentos em terras agrícolas e colocar mais de R$ 1,5 bilhão de quatro fundos nas mãos da nova Tane Capital, no ano passado, parecia que a gestora estava deixando o agronegócio para trás.
Não demorou muito para voltar, só que desta vez trocou a posição de compradora de fazendas pela de credora de produtores rurais.
Resumo
- A 051 já estruturou mais de R$ 350 milhões em operações de crédito agro e mira produtores com dívidas de R$ 20 milhões a R$ 50 milhões.
- A gestora usa terras como garantia e busca operações com retorno de CDI + 8% e cobertura de até duas vezes o valor emprestado.
- Além de um caso próximo de R$ 1 bilhão no Matopiba, analisa outros três negócios de R$ 20 milhões a R$ 30 milhões.
Em vez de comprar terras e apostar na valorização, a gestora passou a estruturar operações de crédito e reestruturações financeiras, mas colocando a propriedade rural como uma das principais garantias.
Quando a Tane ainda era 051, a nossa ideia era fazer deals de equity. A gente não olhava deals agro na parte de crédito, era focado em terra, disse Flávio Aragão, sócio da 051 Capital, ao AgFeed.
Ele explica que a casa, com experiência em reestruturação e special situations, passou a olhar o setor por essa ótica, acompanhando também a legislação sobre RJs de produtores rurais ganhar mais corpo para reduzir incertezas.
A 051 começou a fazer os primeiros negócios no ano passado e acelerou neste ano. Segundo o executivo, a gestora já estruturou mais de R$ 350 milhões em operações ligadas ao agronegócio. E com a safra 2026/2027 se aproximando do plantio, o telefone começou a tocar mais nas últimas semanas.
Aragão diz que a casa tem sido procurada por produtores que ainda não conseguiram levantar recursos nem para comprar os insumos. Em alguns casos, são operações de grande porte.
É assustadora a quantidade de produtor que ainda não comprou nada. Tivemos conversa com produtor de 30 mil hectares que não tinha nada comprado. Outro de 14 mil hectares na mesma situação, afirmou.
A gestora passou a enxergar uma janela específica. Na divisão interna, produtores com dívidas entre R$ 20 milhões e R$ 50 milhões são os que hoje encontram mais dificuldade para acessar financiamento.
Dos R$ 350 milhões em operações, Aragão cita que é uma grande de R$ 200 milhões e outras entre R$ 20 milhões e R$ 50 milhões.
A lógica, segundo ele, é que são negócios grandes demais para depender de soluções pontuais, mas ainda pequenos para despertar o interesse de grandes bancos de investimento. É um deal que cabe no bolso, resumiu.
A ideia da 051 é ocupar esse espaço, estruturando operações caso a caso e com garantia real. A preferência é por terras.
A lógica tem ligação com a experiência da gestora em sua antiga tese. Antes, comprava fazendas porque acreditava na valorização. Agora, usa o conhecimento para avaliar a garantia de uma operação de crédito.
Em vez de comprar terra, fazemos crédito entendendo que, no pior cenário, tenho a terra, que é uma garantia que gostamos. Se tiver que arrendar por alguma questão, não tem problema, explicou.
A estrutura que a gestora busca montar tem características padronizadas. Em uma das operações citadas, o crédito foi concedido a CDI + 8%, com quatro anos de carência e dois anos adicionais para pagamento. A garantia em terras equivale a cerca de duas vezes o valor da operação.
Meu deal é esse. Se vier encaixando nesse modelo, a gente faz. Se não vier, dificilmente vamos seguir o negócio.
A 051 também diz não estar interessada apenas em emprestar dinheiro novo. Parte das operações envolve produtores que já carregam passivo elevado e precisam reorganizar dívidas antes de voltar ao campo.
É o caso de uma operação que a gestora acompanha desde março e que pode se transformar em uma das maiores recuperações judiciais do Matopiba, segundo Aragão. O produtor, cujo nome não foi revelado, acumulou passivo próximo de R$ 1 bilhão e resistia à ideia de entrar em recuperação judicial.
Ele dizia que não queria ir para RJ porque iam falar que ele era picareta. É um produtor antigo, sério. Mas não tinha alternativa, afirmou.
A gestora agora discute a estrutura da operação com os credores. Além desse caso, analisa outros três negócios entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.
Por enquanto, a estratégia segue sem meta formal de volume ou fundo exclusivo, mas a estimativa é que R$ 1,5 bilhão em dívidas passíveis de reestruturação já tenham passado pela empresa. A ideia é continuar selecionando operações individualmente e, se o fluxo crescer, transformar a atuação em uma plataforma mais estruturada, como um fundo temático.
A 051 já vem recebendo abordagens de investidores interessados em alocar recursos, mas Aragão diz não estar disposto a ampliar a carteira a qualquer custo.
Ele cita que foi procurada para financiar projetos de irrigação, por exemplo, e decidiu não seguir com algumas operações. Não porque os projetos fossem ruins, mas porque o custo do crédito não fechava a conta. Fazer deal por fazer deal não faz sentido, disse.
Enquanto as reestruturações ganham corpo na 051, hoje com mais de R$ 5,5 bilhões sob gestão, a estratégia de terras permanece na Tane Capital.
Liderada por Bernardo Reis e Marconi Silva, a Tane nasceu com quatro fundos e cerca de R$ 1,5 bilhão. A casa ficou com a tese de compra de propriedades rurais, valorização e venda. A 051 permaneceu como sócia minoritária.

Flávio Aragão, sócio da 051 Capital


