Análise sobre a violência em instituições de ensino e a falta de ação estatal, com dados de pesquisas e casos relatados por educadores.
Violência escolar: a brutalidade chancelada pelo Estado
O Estado promoveu um desmonte gradual da profissão docente, impondo obstáculos a todas as atividades típicas do cotidiano do professor, como preparar as aulas com liberdade, lecionar de forma explícita, transmitir conhecimentos, avaliar o desempenho dos alunos, disciplinar a turma e até mesmo reprovar os discentes que prejudicam os que realmente desejam ensinar e aprender. Não satisfeitos em promover o desmantelamento do ofício, políticos e burocratas vêm chancelando, por atos e omissões, a violência praticada contra o corpo docente brasileiro.
Os dados sobre indisciplina e violência escolar demonstram que a situação está fora de controle em muitos estados. A edição de 2024 da TALIS (Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem), promovida pela OCDE, aponta que, nos anos finais do Ensino Fundamental, manter a disciplina em sala de aula é fonte de estresse para 63,8% dos docentes brasileiros (média da OCDE: 44,8%).
Além disso, mais de 50% relataram enfrentar barulho perturbador e desordem durante as aulas (média da OCDE: 20%) e 44% afirmaram perder tempo significativo com as interrupções dos alunos (média da OCDE: 18%). Como resultado, 21% do tempo de aula é perdido apenas para tentar manter a ordem (média da OCDE: 15%).
Quanto à violência, o percentual de professores dos anos finais que sinalizaram como fonte de estresse ser intimidados ou ofendidos verbalmente pelos alunos atinge 46,6%, um valor quase três vezes maior que a média da OCDE (17,6%) e o mais alto entre os países latino-americanos analisados (TALIS, 2024).
Pesquisa do Centro de Estatística Aplicada do Instituto de Matemática da USP, em parceria com o Sindicato dos Professores e Funcionários Municipais de São Paulo, revelou o tamanho desse impacto: 62,5% dos docentes entrevistados relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência em seu ambiente de trabalho.
De acordo com a FAPESP, os casos de violência escolar triplicaram no país em uma década. Além disso, o 4º boletim técnico Escola que Protege (MEC/MDHC) indica que, entre 2001 e 2025, foram identificados 47 ataques de violência extrema em estabelecimentos de ensino, resultando em 177 vítimas (56 fatais e 121 feridas).
Enfrentar a indisciplina e a violência dentro das escolas exige soluções concretas. Isso passa, inevitavelmente, por ampliar investimentos em infraestrutura, valorizar a carreira e oferecer respaldo jurídico e psicológico aos docentes, além de programas de recuperação de lacunas de aprendizagem no contraturno. Também é necessário devolver a autoridade pedagógica e o comando das salas de aula ao professor, que precisa ter liberdade para preparar suas próprias aulas, disciplinar a turma e avaliar os alunos sem interferência de burocratas interessados apenas em maquiar indicadores oficiais.
Por fim, já passou da hora de implementar marcos legais rigorosos para proteger os profissionais da educação, responsabilizar as famílias pelo comportamento dos filhos e punir com severidade as famílias que agridem professores. Se o país agir rápido, talvez ainda seja possível resgatar a dignidade da carreira docente e evitar o apagão que se aproxima.
Arthur V. F. Furtado é professor, coordenador pedagógico, doutor em Educação Escolar e autor do livro Queimem todos os professores

Divulgação / Jaqueline Hernandez Risse


