Como a nova regra europeia de desmatamento afeta o comércio e o que o Brasil pode fazer para manter o abastecimento seguro e competitivo.
Olá Vitor, tudo bem
A nova lei antidesmatamento europeia (EUDR) promete mudar o comércio global de alimentos. Este texto mostra como rastreabilidade se tornou essencial para o agro brasileiro.
Sergio Rocha, CEO da Agrotools, analisa como comprovar a origem por meio de tecnologia pode transformar essa barreira em vantagem para o Brasil.
Obrigada e ótima quarta!
Mais do que uma exigência documental
É nesse contexto que ganha importância o Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento, o EUDR. A legislação abrange cadeias como carne bovina, soja, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma.
Para acessar o mercado europeu, operadores devem demonstrar que os produtos não se originaram em áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020 e que respeitam a legislação do país de produção. As obrigações principais passam a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas e, em regra, em 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas.
Mais do que uma nova exigência documental, o EUDR representa uma mudança na arquitetura do comércio mundial de alimentos. A origem declarada deixará de ser suficiente. Será necessário comprová-la.
Isso exige uma mudança profunda na forma como empresas e cadeias produtivas enxergam seus fornecedores. Monitorar apenas o elo imediatamente anterior da cadeia oferece uma fotografia parcial da origem. O fornecedor direto é apenas a parte visível de uma rede que pode envolver inúmeros produtores, propriedades, intermediários, movimentações e transformações.
Em cadeias complexas, o risco ambiental pode estar justamente nos elos anteriores, fora do alcance dos controles tradicionais. Na pecuária, por exemplo, não basta conhecer apenas a fazenda que vende o animal ao frigorífico. É necessário compreender as propriedades por onde esse animal passou nas etapas anteriores de criação, recria e engorda. Em cadeias como soja, café e cacau, o desafio também está em identificar e comprovar a origem real da produção, mesmo quando existem cooperativas, armazéns, tradings e intermediários entre o produtor e o exportador.
A transferência de produtos entre propriedades, a mistura de origens e a passagem por diferentes agentes podem dificultar a identificação da trajetória completa de uma mercadoria. É justamente nesses pontos que os controles tradicionais encontram seus maiores limites. Por isso, a capacidade de enxergar a cadeia de forma ampla passa a ser um fator estratégico. Não será suficiente perguntar apenas de quem se comprou. Será preciso demonstrar de onde veio, por onde passou e quais informações acompanham sua trajetória.
Tecnologia como infraestrutura de mercado
Esse novo cenário exigirá a combinação de geolocalização das propriedades, imagens de satélite, inteligência geográfica, análise histórica do uso da terra, rastreamento das movimentações e integração de informações ao longo de toda a cadeia. A própria União Europeia já mantém um sistema eletrônico para o registro das declarações de diligência, inclusive com integração por APIs para o processamento de informações em escala.
A tecnologia, portanto, deixa de ser apenas uma ferramenta de sustentabilidade. Ela passa a funcionar como infraestrutura de acesso ao mercado. Bancos, seguradoras, tradings, frigoríficos, indústrias e grandes redes varejistas precisarão conhecer com muita mais profundidade a origem dos produtos que financiam, compram ou comercializam. Um problema ambiental localizado em determinado elo da cadeia pode rapidamente se tornar um risco regulatório, financeiro e reputacional para diferentes agentes envolvidos.
Mas a fiscalização, sozinha, não será capaz de resolver todos os desafios. Se a Europa pretende transformar efetivamente as cadeias globais de abastecimento, precisará combinar exigência regulatória com mecanismos econômicos que reconheçam e valorizem quem produz preservando.
Nesse cenário, devem ganhar espaço linhas de crédito diferenciadas, seguros vinculados à performance socioambiental, pagamentos por serviços ambientais, instrumentos relacionados ao carbono, fundos de transição e modelos de financiamento que reconheçam o valor econômico da floresta preservada.
A União Europeia e seus Estados-membros já mobilizaram 81,5 bilhões para apoiar cadeias livres de desmatamento e pequenos produtores em mais de 26 países, sinalizando uma agenda que busca combinar controle e incentivo.
O desafio central será transformar a preservação em um ativo econômico verificável. Para isso, será necessário medir, monitorar e comprovar. A mesma inteligência territorial usada para identificar e bloquear produtos associados ao desmatamento também poderá ser usada para reconhecer produtores responsáveis, reduzir riscos, direcionar capital e oferecer melhores condições financeiras.
Uma oportunidade para o Brasil
Essa transformação cria uma oportunidade especialmente relevante para o Brasil. O país possui escala, diversidade produtiva, tecnologia tropical e capacidade para ampliar sua participação na segurança alimentar mundial. Mas o diferencial competitivo do futuro não será apenas produzir mais. Será produzir mais com origem comprovada, transparência territorial e capacidade de demonstrar continuamente a conformidade ambiental de suas cadeias.
As empresas exportadoras de matérias-primas ou produtos finais que consigam incorporar e comprovar atributos ambientais adicionais poderão conquistar posições cada vez mais valorizadas nos mercados internacionais. Da mesma forma, países e estados que desenvolverem mecanismos eficientes de monitoramento e apoio às empresas poderão fortalecer a identidade e a reputação de seus produtos.
Mais do que cumprir uma exigência, trata-se de criar diferenciação. Territórios capazes de demonstrar transparência, regularidade e integridade ambiental estarão mais bem posicionados para acessar mercados, atrair capital, desenvolver produtos de maior valor agregado e atender consumidores cada vez mais atentos à origem do que consomem.
A crise climática europeia, portanto, não deve ser analisada apenas como um problema interno do continente. Ao impactar diretamente a produção agrícola, abastecimento e vida cotidiana, tende a influenciar também decisões políticas, econômicas e comerciais da região.
O Brasil, que souber usar a tecnologia para diferenciar o produtor responsável daquele que atua de forma irregular, poderá transformar uma exigência em vantagem competitiva. Em vez de tratar rastreabilidade e monitoramento apenas como barreiras ou custos de conformidade, poderá usá-los para proteger a reputação, ampliar o acesso aos mercados e criar melhores condições para atrair capital.
A próxima fronteira do agronegócio mundial será definida não apenas pela capacidade de produzir alimentos em escala, mas também de provar sua origem. Nesse cenário, tecnologia, inteligência territorial e rastreabilidade completa deixam de ser apenas instrumentos de controle. Tornam-se ferramentas de competitividade, valorização da produção e acesso aos mercados.
A grande oportunidade estará justamente na capacidade de trazer visibilidade aos elos que, por tanto tempo, permaneceram fora do alcance dos sistemas tradicionais de controle. Porque, no novo comércio global, produzir é fundamental. Mas provar como, onde e em que condições se produziu poderá ser o verdadeiro diferencial competitivo.
*CEO e fundador da Agrotools.

Sérgio Rocha, fundador e CEO da Agrotools




