Um projeto chamado Minipúblico reúne 30 jovens de São Paulo, escolhidos por sorteio, para debater e sugerir ideias sobre como melhorar a segurança e a atuação da polícia na cidade. Eles vão criar um documento com recomendações para as autoridades.
Como tornar São Paulo mais segura para os jovens E qual deve ser o papel das polícias nesse desafio Essas são algumas das questões que 30 jovens paulistanos, de diferentes perfis e regiões da cidade, vão discutir ao longo de um Minipúblico dedicado à segurança pública.
Selecionados por sorteio após uma chamada pública que recebeu quase 200 inscrições, os participantes, com idades entre 18 e 24 anos, começaram no último sábado (15) uma jornada de quatro encontros, realizada nas instalações da FIA Business School, em Pinheiros. Ao final do processo, o grupo deverá construir coletivamente uma Carta de Recomendações sobre a atuação das polícias para tornar a cidade mais segura para os jovens.
- O projeto conta com 30 jovens de 18 a 24 anos, escolhidos por sorteio entre quase 200 inscritos.
- Serão quatro encontros presenciais para debater segurança pública e o papel da polícia.
- Os participantes vão criar um documento com recomendações para melhorar a segurança na cidade.
- O tema foi escolhido porque a insegurança é uma das maiores preocupações dos jovens brasileiros.
- O projeto também acontece em outros países como Inglaterra, África do Sul e Índia.
A escolha do tema parte de uma questão que atravessa o cotidiano da população e aparece com força entre as preocupações da juventude. Segundo o Informe Brasil 2025, a insegurança ocupa o terceiro lugar entre os temas que mais preocupam os jovens brasileiros. Já uma pesquisa do Instituto Sou da Paz realizada em 2025 apontou que 61% dos brasileiros, especialmente moradores das capitais do Sudeste, classificam suas cidades como muito ou super violentas.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre segurança pública envolve diferentes dimensões, experiências e pontos de vista. Em São Paulo, o Caderno de Conteúdo preparado para informar os jovens durante o Minipúblico aborda temas como investigação e inteligência, policiamento comunitário, uso da força e novas tecnologias aplicadas à segurança. Entre elas está o Smart Sampa, sistema de videomonitoramento utilizado pela Prefeitura de São Paulo no atendimento de ocorrências em tempo real. Ao colocar em discussão iniciativas como essa, ao lado de questões relacionadas à atuação policial e aos direitos da população, o projeto busca apresentar diferentes perspectivas sobre os caminhos para tornar a cidade mais segura, oferecendo aos participantes elementos para avaliar argumentos, fazer perguntas e construir suas próprias recomendações.
Para Izabela Dornelas, Secretária-Geral Adjunta da OAB Poá e integrante do grupo de conteúdo do projeto, discutir segurança pública exige reconhecer a complexidade do problema e a necessidade de diferentes atores na construção de respostas.
Antes de mais nada, [é preciso] enxergar a segurança pública e a violência como aquilo que ela é: a violência é um problema social complexo, multifatorial, antigo na nossa sociedade. E a segurança pública, como um dever do Estado, que a gente tem que exigir, que está na nossa Constituição, mas também como uma responsabilidade compartilhada entre todos nós.
Informação antes da decisão
O Minipúblico reuniu jovens selecionados por sorteio para discutir um tema de interesse público, e durante o processo todos têm acesso às mesmas informações, ouvem diferentes especialistas e contam com uma equipe de facilitação para garantir que o diálogo aconteça de maneira equilibrada e organizada.
No caso de São Paulo, os participantes foram informados sobre diferentes aspectos da segurança pública e da atuação policial, terão contato com especialistas e pessoas com experiências diversas e, a partir dessas informações e de suas próprias vivências, participarão de atividades de deliberação e construção coletiva.
A proposta é que o grupo não apenas apresente percepções sobre o problema, mas avance para a construção de recomendações concretas. Ao longo da deliberação, os participantes analisam informações, confrontam diferentes pontos de vista e buscam identificar consensos possíveis sobre as propostas discutidas, sem apagar eventuais divergências. Ao final, esse processo dará origem a uma Carta de Recomendações, construída coletivamente e validada pelos próprios jovens. O documento será encaminhado a representantes do poder público, instituições relacionadas à segurança pública, organizações da sociedade civil e outros atores envolvidos no tema.
O Minipúblico realizado em São Paulo integra uma pesquisa internacional desenvolvida também em países como Inglaterra, África do Sul e Índia, que investiga formas de fortalecer a qualidade da democracia a partir de experiências participativas com jovens. No Brasil, a iniciativa é financiada pela FAPESP e realizada pelo CEBRAP, Delibera Brasil e Rede Conhecimento Social, com apoio da FIA Business School.
Para José Veríssimo, cientista político, pesquisador do Núcleo Democracia e Ação Coletiva do Cebrap e responsável pela pesquisa no Brasil, a metodologia permite colocar os jovens diante de um tema complexo e criar condições para que eles avancem da identificação de problemas para a construção de propostas.
Escolhemos o Minipúblico como uma ferramenta de participação capaz de colocar os jovens diante de um tema difícil e permitir que eles não apenas apresentem demandas, mas construam recomendações e proposições concretas. A atuação da polícia é um tema que atravessa todas as agendas e está cada vez mais presente no nosso cotidiano, seja na televisão, nos programas dos candidatos à eleição ou nas redes sociais. Por isso, escolhemos trazer essa discussão para os jovens, porque acreditamos que eles podem contribuir decisivamente para o debate e para a construção de soluções concretas para um tema tão complexo.
Jovens no centro da discussão sobre segurança
A participação da juventude também é um dos elementos centrais da iniciativa. O próprio material preparado para o Minipúblico destaca que os jovens ainda ocupam pouco espaço nos debates sobre segurança pública e aponta a importância de reconhecê-los como protagonistas na formulação de propostas.
Para Danielle Tsuchida, do Instituto Sou da Paz e integrante do grupo de conteúdo, colocar os jovens no centro dessa discussão significa reconhecer que eles são diretamente afetados pelas políticas de segurança, mas também podem contribuir para pensar caminhos de solução.
É importante que os jovens estejam no centro do debate sobre segurança pública porque a juventude não é só afetada por ela, mas também é, às vezes, colocada como força motriz da violência. Por isso, é fundamental que os jovens não apenas olhem para esse problema, mas também pensem em como ser parte da solução, sem se deixarem colocar nesse lugar que a sociedade às vezes quer lhes atribuir.
O Minipúblico será realizado ao longo de quatro encontros, entre agosto e a primeira semana de setembro. A iniciativa integra uma pesquisa internacional realizada em conjunto com equipes de outros países, incluindo Inglaterra, África do Sul e Índia, e, no Brasil, é financiada pela FAPESP (Processo nº 23/15272-8). A realização reúne Delibera Brasil, Rede Conhecimento Social e CEBRAP, com apoio da FIA Business School.

Fotos: Brendo Hoshington - Delibera Brasil




