18 de agosto de 2026

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Quatro em cada dez mulheres brasileiras já apostaram ou apostam online

Geral Apostas 18/08/2026 08:16 Daniella Almeida | Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

Pesquisa mostra que 42% das mulheres brasileiras já fizeram apostas online, e muitas usam as apostas como forma de complementar a renda. O estudo também revela que a maioria das apostadoras tem filhos e que o impacto das bets vai além do financeiro, afetando a estrutura familiar.

Quatro em cada dez mulheres brasileiras (42%) já fizeram ou ainda fazem apostas online. Dessas, 20% apostam atualmente, com diferentes frequências, e 22% já apostaram, mas pararam.

Entre as 58% que nunca apostaram, 12% sofrem influência de parentes ou amigos que apostam. No total, mais da metade das mulheres (54%) sente diretamente os efeitos das apostas, seja apostando ou não.

  • 42% das mulheres brasileiras já fizeram apostas online.
  • 20% apostam atualmente, e 22% já apostaram.
  • 72% das apostadoras têm filhos, e elas apostam 1,6 vez mais do que as sem filhos.
  • 49% das apostadoras preferem cassinos online, como o Tigrinho.
  • 62% das mulheres defendem a proibição das apostas online.

Os números são de uma pesquisa chamada 'Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias', feita pelos institutos Clarice, Estratégia Latina e Ideia, divulgada nesta segunda-feira (17).

Beatriz Della Costa, fundadora do estúdio Clarice, diz que esta é a primeira pesquisa sobre o impacto das apostas que considera não só a visão de quem aposta, mas também de quem convive com os apostadores.

Ela ressalta que juntar esses dois lados ajuda a entender melhor a crise. "O impacto das apostas vai além da crise financeira e afeta a estrutura das famílias. Essa análise mostra que é possível pensar não só em conter a crise, mas em preveni-la."

Perfil de apostadores

O levantamento mostra que mulheres com filhos apostam 1,6 vez mais do que as sem filhos, e 72% das apostadoras têm filhos.

Entre as mulheres pardas, 45% apostam ou já apostaram; entre as brancas, 39%; e entre as pretas, 37%.

A pesquisa também mostra diferenças de gênero: os homens com filhos são julgados com menos rigor, mas as mulheres com filhos são mais criticadas e questionadas como provedoras.

Para a cientista social Beatriz Della Costa, isso é reflexo dos papéis sociais que a sociedade impõe a homens e mulheres.

O homem é visto como alguém que tenta sustentar a família, o que é considerado honroso e acaba o redimindo. A mulher, por outro lado, sofre mais cobranças por ser a responsável pelo lar, e é julgada com muito mais rigor quando não cumpre esse papel.

As apostadoras contam que jogam sozinhas e escondem isso da família por vergonha.

O segredo gera culpa e prejudica as relações. Entre as mulheres, 30% jogam mais à noite ou de madrugada, enquanto entre os homens são 20%.

15% dos brasileiros acham que alguém da casa faz apostas online, escondido, acumulando dívidas sem contar para ninguém.

Motivação

Para muitas mulheres, apostar não é lazer, mas uma forma de tentar pagar contas, comprar comida ou dar o sustento aos filhos.

Della Costa explica que elas não buscam luxo.

Elas querem viver com dignidade: poder levar os filhos ao cinema, pedir comida em casa e pagar o material escolar sem preocupação.

As apostas online entraram nas casas das brasileiras com a promessa de renda fácil. As plataformas usam duas estratégias: seduzem com a ideia de uma vida digna, com contas pagas e presentes para os filhos, e também exploram o papel social da mulher como cuidadora.

O desejo de cuidar da família é o que as empresas de apostas mais exploram.

Crianças e adolescentes

Embora as apostas sejam proibidas para menores de 18 anos, muitas crianças e adolescentes começam a apostar influenciados por amigos, escola, redes sociais ou até pelas próprias mães, que veem nisso uma forma de companhia.

A pesquisa descobriu que muitos jovens usam o CPF de um adulto da casa para burlar a proibição, com ou sem o conhecimento dessa pessoa.

Ilusão

Muitas mulheres veem o jogo como um investimento, e algumas até o encaram como trabalho, de tão envolvidas que ficam.

O estudo mostrou que as empresas de apostas criam a ilusão de que existem truques para ganhar, mesmo em jogos de azar.

Essa ideia faz com que 25% das mulheres, e 40% das apostadoras frequentes, acreditem que é preciso habilidade para ganhar, e por isso tentam se especializar.

Della Costa defende que é preciso limitar a publicidade das apostas para acabar com essa ilusão.

Cursos e influenciadores que vendem dicas precisam ser banidos. Também é preciso avaliar a proibição dos cassinos online, que vendem a ideia de habilidade e atraem muitas mulheres.

Impacto social

Para 67% das mulheres entrevistadas, as apostas estão destruindo as famílias brasileiras (entre os homens, são 59%).

Além do prejuízo financeiro, as apostas geram brigas, violência e problemas de saúde mental. 23% dos brasileiros já viram ou conhecem casos de violência doméstica causada por apostas.

As mulheres que têm um parente apostador relatam mais violência: agressões, xingamentos e perda de controle quando o parceiro perde.

Algumas também contam que os filhos ficam endividados com agiotas, gerando insegurança na família. Os principais efeitos citados foram:

  • 24% conflitos familiares
  • 24% perda de confiança
  • 21% desgaste emocional
  • 12% mudança na qualidade de vida

40% dos impactados acreditam que as apostas afetam a capacidade de trabalhar e gerar renda (36% das mulheres e 45% dos homens).

Empréstimo

7% das mulheres apostadoras disseram que já pegaram dinheiro emprestado com agiotas para apostar.

8% das mulheres impactadas disseram que elas ou alguém próximo, como um filho, precisou recorrer a agiotas, aumentando a insegurança em casa.

Perfil dos jogos

Metade das apostadoras (49%) prefere cassinos online, como o Tigrinho. 29% jogam em jogos de sorte tipo Aviator ou raspadinhas, e 26% apostam em futebol.

Apresentação das apostas

As empresas de apostas atraem as mulheres de três formas:

  • Rede de confiança: um amigo ou parente envia o link da aposta, e a plataforma dá bônus e comissões para quem indica.
  • Influenciadores locais: pessoas do bairro, da igreja ou da cidade, com menos seguidores, mas em quem se confia.
  • Grandes influenciadores e publicidade em massa.

72% das mulheres acham que a publicidade faz as pessoas apostarem mais do que deveriam.

79% das mulheres disseram que as redes sociais passaram a mostrar mais conteúdo de apostas depois que elas acessaram essas plataformas. Quem aposta com frequência percebe mais (82,2%) do que quem aposta raramente (73,2%).

Quanto maior a classe social, maior a percepção do aumento desse conteúdo.

Conter o avanço

A maioria dos brasileiros apoia a proibição das apostas. Entre as mulheres, 62% defendem a proibição, ante 50% dos homens. Essa opinião não muda conforme a posição política.

"Isso mostra aos políticos que a população apoia medidas para combater as apostas", diz a coordenadora.

A pesquisa sugere três caminhos para combater o problema:

  • Fortalecer os serviços de saúde para cuidar de quem aposta e de suas famílias.
  • Prevenir que novas pessoas comecem a apostar, com restrições à publicidade.
  • Restringir gradualmente as modalidades de apostas, começando pelos cassinos online.

45% dos entrevistados defendem o bloqueio do Pix para quem recebe benefícios sociais, e 32% querem um canal anônimo de apoio. Entre quem aposta com frequência, esse número sobe para 57%.

41% das mulheres acham que as casas de apostas podem funcionar, mas sem publicidade. Entre os homens, o índice é de 47%.

Pesquisa

O relatório foi feito com pesquisas qualitativas e quantitativas, realizadas em junho e agosto de 2026.

Foram ouvidas 60 pessoas, principalmente mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, de vários estados do país.

Na parte quantitativa, foram ouvidos 2.008 homens e mulheres de todo o país, seguindo critérios do IBGE.