A cientista social Carol Bonomi lança o livro "Mulher da vida, é preciso falar", que mostra como as trabalhadoras sexuais se organizaram para lutar por direitos e contra o estigma. A obra fala sobre preconceito, feminismo e autonomia das mulheres.
Durante décadas, a prostituição foi vista no Brasil como algo ligado ao escândalo, à marginalidade ou à vitimização. Pouco se fala sobre as mulheres que se uniram para lutar por direitos, criar espaços de representação e mudar a forma como a sociedade enxerga o trabalho sexual. É essa história que a pesquisadora e escritora Carol Bonomi conta no livro "Mulher da vida, é preciso falar: um estudo do movimento brasileiro de trabalhadoras sexuais", publicado pela Editora Telha.
O livro é resultado de uma pesquisa acadêmica que investigou a trajetória do movimento organizado de trabalhadoras sexuais no Brasil e suas formas de mobilização política. A pesquisa, feita no mestrado em Ciência Política da Unicamp, analisou cerca de três décadas de história do movimento, com atenção para suas formas de organização, reivindicações, relações com o Estado e estratégias de ação coletiva. O estudo também coloca as próprias trabalhadoras como protagonistas, em vez de tratá-las apenas como personagens de debates conduzidos por terceiros.
- O livro mostra como as prostitutas se organizaram politicamente para conquistar direitos e combater o preconceito.
- A obra destaca a importância do primeiro Encontro Nacional de Prostitutas, realizado no Rio de Janeiro em 1987.
- Carol Bonomi critica a ideia de uma "vítima ideal" e defende que cada trabalhadora sexual tem uma experiência única.
- O livro aborda temas atuais como violência institucional, políticas públicas, saúde, gênero e liberdade sexual.
- A autora é doutoranda em Ciências Sociais pela Unicamp e pesquisa o tema do trabalho sexual há anos.
O título do livro recupera uma expressão com forte significado histórico. Em 1987, o Rio de Janeiro recebeu o primeiro Encontro Nacional de Prostitutas, organizado por nomes como Gabriela Leite e Lourdes Barreto. O encontro foi um momento decisivo para a organização política das trabalhadoras sexuais brasileiras e ajudou a consolidar uma agenda de reivindicação de direitos. A trajetória iniciada naquele período atravessa questões que continuam atuais: reconhecimento profissional, violência institucional, preconceito, autonomia, políticas públicas, saúde, gênero e liberdade sexual.
A discussão proposta por Carol Bonomi conversa com um dos principais pontos de tensão do debate feminista contemporâneo: como falar sobre prostituição sem reduzir todas as mulheres que exercem o trabalho sexual a uma única condição Em "Mulher da vida, é preciso falar", a autora questiona a ideia de uma "vítima ideal" e chama atenção para a necessidade de reconhecer a diversidade de experiências existentes entre as trabalhadoras sexuais. Para Carol, discutir o tema exige considerar simultaneamente exploração, violência, desigualdade, autonomia e direitos, sem transformar conceitos complexos em respostas simples.
Esse olhar ganha ainda mais relevância diante da permanência de debates sobre sexualidade e comportamento nas redes sociais. Em seus artigos recentes, Bonomi tem abordado temas como feminismos, pornografia, violência sexual, plataformas digitais e os chamados pânicos morais relacionados ao sexo. A autora defende que conceitos distintos não sejam tratados como sinônimos e que o debate público considere as experiências concretas das pessoas envolvidas. "O livro, nesse sentido, oferece uma perspectiva histórica para questões que continuam presentes no cotidiano e ajudam a explicar por que o corpo feminino permanece no centro de tantas disputas sociais e políticas", pontua Carolina.
"Mulher da vida, é preciso falar" traz uma mudança fundamental de perspectiva: ouvir as mulheres que construíram esse movimento e compreender como elas transformaram experiências individuais em ação coletiva. Ao aproximar pesquisa acadêmica, história política e debates sobre gênero e sexualidade, Carol Bonomi recupera personagens e acontecimentos fundamentais para compreender uma parte pouco conhecida da história recente do Brasil.
Sobre a autora
Carolina Bonomi é doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde pesquisa a produção da categoria trabalho sexual e suas transformações contemporâneas. Mestre em Ciência Política pela mesma instituição, investigou os trânsitos políticos do movimento das trabalhadoras sexuais no Brasil. Graduada em Ciências Sociais, dedicou-se a estudos sobre sociologia do trabalho e transexualidade. Integra o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu (CNPq) e participou de projetos da FAPESP sobre precarização e regulação do trabalho. Atualmente, colabora em uma pesquisa internacional sobre o uso da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) na América do Sul, investigando as experiências de acesso, uso e gestão dessa estratégia de prevenção. Atuou também em projetos sociais voltados para populações vulneráveis, como o "Viva Melhor Sabendo", do Ministério da Saúde.
Sobre a Editora Telha
Fundada no final de 2019, no Rio de Janeiro, a Editora Telha nasceu com o desejo de publicar com liberdade e abrir espaço para vozes plurais, muitas vezes fora dos grandes centros editoriais. Interdependente por natureza, acredita que o trabalho editorial se constrói em rede e que a diversidade de experiências amplia os caminhos da literatura. Já em sua estreia, com "Motel Brasil: uma antropologia contemporânea", de Jérôme Souty, alcançou a marca de finalista do Prêmio Jabuti 2020, sinalizando desde o início seu compromisso em valorizar perspectivas que enriquecem o debate cultural.
Serviço
Livro: Mulher da vida, é preciso falar: um estudo do movimento brasileiro de trabalhadoras sexuais
Autor: Camila Bonomi (@carolbonomi_)
Editora: Telha
Páginas: 240
Preço: R$ 67,00
Disponível para compra através do link

Capa do livro "Mulher da vida, é preciso falar", de Carol Bonomi



