15 de agosto de 2026

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Rainforest Alliance quer expandir certificação de café e cacau no Brasil

Geral Sustentabilidade 15/08/2026 14:40 Gustavo Lustosa, AgFeed agfeed.com.br

Em entrevista exclusiva ao AgFeed, Santiago Gowland, CEO global da organização que já certifica 244 mil hectares de café, vê o País no centro de sua atuação para os próximos anos e prevê 50 mil hectares em transição para agricultura regenerativa.

O Brasil está no centro da estratégia da Rainforest Alliance para os próximos anos.

Isso porque o País combina, na visão da ONG, duas características pouco comuns: é uma potência na produção e exportação de alimentos e, ao mesmo tempo, um mercado relevante para produtos como café e chocolate.

Resumo da notícia

  • A Rainforest Alliance já certifica 244 mil hectares de café no Brasil, em cerca de 1,5 mil fazendas.
  • A organização espera ter 50 mil hectares de café em transição para agricultura regenerativa até o fim da safra.
  • O prêmio pago aos produtores por saca de café certificado varia de R$ 30 (arábica) a R$ 100 (conilon).
  • O Brasil é visto como um mercado estratégico, combinando produção e consumo de café e chocolate.
  • A ONG também certifica mais de 35 mil hectares de laranjas no Brasil.

Para Santiago Gowland, CEO global da Rainforest Alliance, essa combinação transforma o Brasil em um dos principais mercados para a próxima etapa da organização, que pretende acelerar a transição da agricultura certificada para modelos regenerativos, com foco especial nos cafeicultores.

Gowland esteve no Brasil nesta semana para uma série de reuniões com executivos de grandes empresas, incluindo encontros com CEOs que, por enquanto, prefere não identificar.

Argentino, o executivo está à frente da Rainforest Alliance desde 2021 e construiu boa parte da carreira em grandes empresas e organizações ligadas a consumo e sustentabilidade. Foi vice-presidente da Unilever, gerente-geral de sustentabilidade da Nike, vice-presidente sênior da Estée Lauder e vice-presidente executivo global da The Nature Conservancy.

Em entrevista exclusiva ao AgFeed, ao lado do brasileiro Yuri Feres, diretor da Rainforest Alliance no País, Gowland falou sobre a expansão da organização, a estratégia para a agricultura regenerativa e o papel que pretende desempenhar na relação entre produtores, grandes marcas e consumidores.

Feres está na organização desde 2022 e também traz experiência em grandes empresas: foi gerente de sustentabilidade do Walmart, executivo da Disney, presidente da Fundação Cargill e diretor da própria Cargill.

A Rainforest Alliance já certifica 244 mil hectares de café no Brasil, distribuídos por cerca de 1,5 mil fazendas, e afirma responder por 8,8 milhões de sacas certificadas, equivalentes a cerca de 20% da produção nacional.

A organização também contabiliza 590 mil hectares de áreas protegidas associadas aos seus programas. A atuação, concentrada hoje em regiões como Cerrado Mineiro, Alta Mogiana e Sul de Minas, começa a avançar para o café conilon no Espírito Santo.

Mas é na agricultura regenerativa que Gowland enxerga a principal avenida de crescimento. O padrão específico para café foi desenvolvido ao longo de três anos de testes com a Nespresso e entrou agora em seu primeiro ciclo de aplicação em larga escala no Brasil.

A expectativa é chegar ao fim da safra com pelo menos 50 mil hectares de café em transição para o modelo regenerativo e cerca de 1 milhão de sacas certificadas nessa categoria. Segundo Feres, o volume pode dobrar no próximo ciclo.

A estratégia não se limita ao café. A Rainforest Alliance já certifica mais de 35 mil hectares de laranjas no Brasil, área equivalente a cerca de um terço da oferta global de suco de laranja, segundo Feres. Globalmente, a organização afirma estar presente em 72 países e ter certificação associada a 20% do café e 50% do cacau produzidos no mundo.

A conversa também passou pelo prêmio pago aos produtores, pela demanda das multinacionais por segurança de abastecimento, pela imagem do agro brasileiro no exterior e pela ambição de transformar o País em uma espécie de "farol" para a transição regenerativa em outros grandes produtores, como Vietnã e Colômbia.

Para Gowland, a lógica que sustentou as cadeias de commodities por décadas - baseada na externalização dos custos ambientais e sociais - começa a perder espaço para uma equação em que produtividade, resiliência e conservação passam a fazer parte do próprio modelo de negócio.

Leia a entrevista com os executivos:

Como o Brasil se insere na estratégia global da Rainforest Alliance

Santiago Gowland: Estamos presentes em 72 países, mas o Brasil tem uma característica muito específica para a Rainforest Alliance, pois é um fornecedor de elite de café e cacau.

E, ao olhar para o Brasil ou para a América Latina, vemos que é o maior exportador líquido de alimentos do planeta. Mas também é um dos nossos maiores mercados em termos de demanda dos consumidores.

Os brasileiros consomem muito café, é o segundo maior mercado do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Temos, portanto, essa combinação perfeita de oferta e demanda. E por que essa combinação é tão boa Porque o que tentamos fazer é agregar valor a um modelo de negócios baseado na regeneração.

E como se agrega valor a um modelo de negócios de regeneração Como convencer empresas e agricultores a abandonar práticas degradantes e investir esforços para se tornarem regenerativos

Santiago Gowland: Há dois fatores que realmente impulsionam o mercado. O primeiro, sob a perspectiva do agricultor, é o aumento da produtividade, o que gera mais renda e maior resiliência a secas e chuvas excessivas. Além disso, cria-se um acesso mais sólido ao mercado.

No Brasil, dos 30% de café que certificamos, 95% dos agricultores vendem esse produto como certificado. Eles realmente aderiram ao modelo. O segundo ponto é que eles recebem um prêmio dos compradores por se tratar de um café diferenciado.

Marcas como a Nestlé podem exibir o selo de certificação, o que valoriza a marca no nível da demanda. Isso cria um ciclo virtuoso de geração de valor. Nosso modelo foca em tornar irresistível para os agricultores a transição para uma agricultura mais amigável ao clima e, ao mesmo tempo, tornar irresistível para as marcas a compra de produtos certificados.

Olhando para o café, qual o número de produtores e hectares certificados hoje

Santiago Gowland: Estamos certificando 244 mil hectares apenas de café, o que corresponde a 1,5 mil fazendas. Produzimos 8,8 milhões de sacas de café certificado no Brasil, o que representa 20% do volume total de produção no país.

Além disso, temos 590 mil hectares de área protegida, o que inclui a floresta preservada e a conexão de corredores ecológicos, esse é o nosso impacto climático e de biodiversidade sendo gerado. As principais regiões onde atuamos são o Cerrado Mineiro, Alta Mogiana e Sul de Minas. E também estamos entrando no café conilon no Espírito Santo.

Quais as oportunidades para o programa crescer

Santiago Gowland: A maior oportunidade é acelerar a transição para a agricultura regenerativa. É um padrão muito robusto que impulsiona a renda, a resiliência e a produtividade.

O "Coffee Barometer" prevê que, até 2050, 50% das terras destinadas ao café podem desaparecer devido ao aquecimento global. É preciso abordar a resiliência e a adaptação agora, focando na saúde do solo, nas agroflorestas e no cultivo consorciado. Tudo o que fazemos prepara esses agricultores para o longo prazo.

Outro ponto é a construção da marca no Brasil. Quando eu estava na Unilever, o Brasil era o nosso maior mercado na América Latina. Fiz muitas pesquisas com a Nike na época das Olimpíadas do Rio e sempre tive uma ligação forte com o País.

Percebo que os brasileiros têm uma conexão melhor com a sustentabilidade do que em outros lugares. O Brasil combina esse potencial de oferta com consumidores sofisticados em café e chocolate. Fortalecer nossa marca criará um círculo virtuoso de crescimento.

E quanto ao consumidor no exterior Muita gente no agronegócio diz que o setor brasileiro tem uma imagem negativa lá fora. Como isso funciona para vocês

Santiago Gowland: Não certificamos a origem brasileira em si, mas acredito que as origens representam uma grande oportunidade se o Brasil avançar na adoção de práticas regenerativas. À medida que os dados surgem, as marcas podem optar por destacar isso.

Yuri Feres: Hoje, a maior parte do café que certificamos vai para o mercado externo pois garantimos aspectos como a EUDR, oferecendo às marcas a segurança de uma boa cadeia de suprimentos.

O mercado interno também é um motor de crescimento, assim como a transição para a agricultura regenerativa de grupos já certificados e a expansão no Espírito Santo para o café conilon, que é um mercado menos maduro.

Falando especificamente de café: para um cafeicultor que atende aos requisitos, existe benefício financeiro Qual é o valor do prêmio por saca

Yuri Feres: O mercado tem um preço de referência que depende do comprador e da oferta. Hoje gira em torno de R$ 30 por saca para o arábica, mas no ano passado, para o conilon, chegou a R$ 100 por saca.

O caso do Brasil é interessante porque os produtores são de grande porte. Então, às vezes o prêmio não faz sentido em termos de renda local, mas eles valorizam muito o sistema de gestão. Eles dizem que dá trabalho conseguir o prêmio por saca, mas valorizam o cultivo e sistema de gestão.

Já ouvi que "o prêmio é ótimo, mas organizar a fazenda já compensa. Mesmo se eu não recebesse nada ficaria satisfeito".

E como é a relação das multinacionais de alimentos com essa lógica

Santiago Gowland: Por vezes, as pessoas veem as multinacionais e os mercados como um problema porque as 'commodities' sempre se basearam na externalização de custos - mão de obra barata e natureza gratuita, sem consequências para desmatamento.

De repente, as empresas estão percebendo que esse modelo é perigoso, e assim começam a questionar a lógica de extração. A forma como operavam já não faz sentido, agora elas precisam investir na natureza para garantir maior adaptação e resiliência.

O que fazemos na Rainforest é chegar para as multinacionais e dizer para redirecionarem investimentos para solos mais saudáveis, adaptáveis e resilientes, além de pagar o produtor de forma justa. Isso garantirá o fornecimento de matéria-prima e a qualidade dos grãos.

O mercado pode corrigir essa situação

Santiago Gowland: Acho fascinante, pois muitas pessoas de ONGs detestam empresas multinacionais ou o mercado, mas acredito que chegamos a um ponto em que apenas o mercado pode impulsionar a solução para os problemas de degradação ambiental, como carbono e biodiversidade, na velocidade e na escala necessárias.

E é por isso que, para mim, a Rainforest Alliance desempenha um papel fundamental na transformação da agricultura em nosso mundo atual.

Yuri Feres: Quero apenas destacar dois números: já certificamos 20% do café e 50% do cacau produzidos globalmente. Somos uma ONG, então não lucramos com nada disso, mas digamos que essa visão também tenha escala para realmente fazer a diferença. Nossa marca está presente em 42 mil embalagens.

A sazonalidade afeta a relação com os prêmios O preço alto das commodities afeta o quanto as marcas conseguem pagar

Santiago Gowland: Quando o preço está baixo, o prêmio faz mais diferença e há maior interesse na certificação. Quando os preços estão muito altos, o interesse pode oscilar.

Atualmente, os CEOs estão preocupados com a segurança do abastecimento. Eles querem programas que permitam dobrar o rendimento e a produtividade. Talvez eu seja otimista, mas acredito que os astros estejam se alinhando para começarmos a repensar o caminho da natureza e das pessoas na agricultura.

Yuri Feres: Do lado do produtor, a situação muda com a alta demanda. No conilon, triplicamos nosso programa no Brasil em um ano. Quem já aderiu não desiste. Do lado da demanda, o comprador que coloca o selo na embalagem assume um compromisso de longo prazo e tem que comprar.

Quero ouvir sobre a parte da agricultura regenerativa, pois essa é uma discussão mais recente dentro do agro. Como esse tema chegou para vocês

Santiago Gowland: Nosso padrão para café foi desenvolvido ao longo de três anos em testes com a Nespresso para ser sob medida para a cultura e o local.

Comparando com outros padrões de agricultura regenerativa, o nosso é, de longe, o mais robusto em termos de práticas. Essas práticas tem a resiliência como elemento-chave e a produtividade como impulsionador. O foco está em dois aspectos: o primeiro é dar mais atenção à restauração do solo e acelerar as agroflorestas e manejo das árvores num momento em que o aquecimento global se torna uma ameaça cada vez maior.

Por outro lado, trata-se de um selo mais diferenciado, que conecta consumidores a uma nova discussão.

Que discussão nova é essa

Santiago Gowland: Antes, grande parte da pauta girava em torno de questões trabalhistas e, sabe, de reduzir danos. Agora, trata-se de uma agenda que chamo talvez seja um termo técnico demais de "impacto líquido positivo".

É um no qual a agricultura entrega mais do que retira das pessoas e das paisagens. Ou seja, ao investir na regeneração desse sistema, você beneficia a si mesmo e também a natureza. Esse é o conceito que queremos estabelecer ao avançarmos pelos próximos 40 anos com essa nova estratégia voltada para a regeneração.

Yuri Feres: Lançamos esse padrão no ano passado, e no Brasil este é o primeiro ano e safra que a Rainforest Alliance está realmente aplicando e certificando a produção em larga escala. Não esperávamos números tão expressivos pois é uma primeira rodada com os produtores ainda não totalmente familiarizados. Para a nossa surpresa, os números são muito, muito maiores do que esperávamos.

Como está essa aderência

Yuri Feres: Até o final desta safra, já que o processo de certificação está ocorrendo agora, teremos pelo menos 50 mil hectares em transição para o modelo regenerativo (especificamente no café) e cerca de 1 milhão de sacas de café certificado como proveniente de agricultura regenerativa.

Existe a possibilidade de dobrar esse volume pensando no próximo ano. Estamos falando de uma transição de 10% por parte dos produtores brasileiros logo no primeiro ano. É uma notícia muito boa.

Qual é o tamanho mediano dos cafeicultores que obtêm a certificação e como o Brasil se posiciona nesse movimento

Santiago Gowland: No Brasil temos desde propriedades de 50 hectares até fazendas de 10 mil hectares engajadas conosco. Os produtores muito pequenos podem se agrupar para a certificação. O Brasil está em posição de liderar a transição para a agricultura regenerativa porque é um país extremamente sofisticado, com um sistema legislativo que funciona. O Brasil é um mercado estratégico e nosso trabalho é ajudá-lo a se transformar em um farol para que outros países produtores, como Vietnã e Colômbia, sigam esse caminho.

Além do café e cacau, quais outras culturas vocês trabalham no Brasil

Santiago Gowland: O principal produto são as laranjas. Porque essa é outra particularidade do Brasil, que é o maior fornecedor individual de laranjas do mundo. Desenvolvemos aqui um programa de agricultura sustentável e somos líderes em certificação de laranjais. Estamos falando de 35 ml hectares certificados.

Mas há outra questão que trabalhamos com as paisagens, não só da certificação, mas também de corredores ecológicos e bacias hidrográficas. Isso nos leva à silvicultura também.