Agentes de inteligência artificial já operam dentro dos grandes bancos do país, mas o próximo passo é ter sistemas que decidem junto com as pessoas. Entenda como essa mudança pode tornar os serviços financeiros mais rápidos, seguros e eficientes para todos.
Existe uma diferença sutil, mas muito importante, entre uma tecnologia que apenas responde e uma que age. Um mapa mostra o caminho; um piloto automático dirige, corrige a rota e freia sozinho diante de um obstáculo. É essa mesma diferença que separa a inteligência artificial (IA) que o setor financeiro já usa (que gera textos e respostas sob comando) dos agentes inteligentes que estão chegando aos bancos. Esses agentes são capazes de planejar, executar e ajustar decisões financeiras de ponta a ponta, com supervisão humana, mas sem precisar de um comando a cada passo.
Não é por acaso que a Febraban Tech 2026 escolheu como tema central Agentes Inteligentes, Liderança Humana. O recado é claro: o próximo capítulo da tecnologia bancária não será escrito por ferramentas que apenas ajudam as pessoas a decidir mais rápido, mas por sistemas que decidem junto com elas. E é sobre essa mudança de natureza, e não apenas de escala, que vale a pena pensar.
- Uso de IA no setor financeiro: saltou de 30% para 75% das organizações em apenas dois anos.
- Resultados: 71% das empresas dizem que a IA atende ou supera as expectativas, mas apenas 23% dizem que supera.
- Bancos na frente: lideram em cinco das seis métricas financeiras medidas pelo estudo.
- Pix no Brasil: tem 183 milhões de usuários ativos, ou seja, 85% da população.
- Investimento: bancos brasileiros devem gastar R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026.
IA agêntica: o que é e por que importa
Os números confirmam essa virada. Segundo um estudo, o uso ativo de IA na função financeira saltou de 30% para 75% das organizações em apenas dois anos. Hoje, mais de três quartos das empresas já aplicam IA em planejamento financeiro, e 71% afirmam que os resultados atendem ou superam as expectativas de retorno sobre investimento. Mas adoção em massa não é sinônimo de desempenho de ponta: quando a pergunta muda de atende às expectativas para supera as expectativas, o percentual cai para 23%. É uma distância que qualquer executivo reconhece de outros ciclos tecnológicos entre comprar uma ferramenta e efetivamente extrair valor dela existe um espaço que só disciplina de execução consegue fechar.
Onde a IA realmente faz diferença
O mais revelador não é onde a IA foi adotada, mas onde ela de fato move o ponteiro. A mesma pesquisa mostra que, no último ano, 70% das organizações relataram melhora na qualidade da tomada de decisão, 71% na velocidade da decisão e 64% na precisão de previsões, justamente os processos que dependem de julgamento humano complexo, e não de tarefas transacionais repetitivas. Quando a IA Agêntica é isolada como categoria específica sistemas capazes de planejar, raciocinar e agir de forma autônoma ou semiautônoma para atingir um objetivo , o efeito se intensifica: organizações que avançaram nesse território reportam desempenho pelo menos 32% mais forte nas principais métricas financeiras, com a vantagem chegando a quase 40 pontos percentuais em precisão de previsões e ROI.
Por que os bancos estão na frente
Não é acaso que os bancos liderem em cinco das seis métricas financeiras medidas pelo estudo: décadas de pressão regulatória por dados limpos, auditáveis e organizados prepararam justamente o terreno que a IA Agêntica precisa para funcionar bem.
Brasil à frente na América Latina
Na América Latina, essa disciplina de dados já começou a se traduzir em resultado tangível, e o Brasil está à frente. O país naturalizou os pagamentos instantâneos: o Pix soma 183 milhões de usuários ativos, o equivalente a 85% da população total e 91% da população adulta, de acordo com um levantamento. A consequência é que a velocidade deixou de ser diferencial: apenas 8% das empresas latino-americanas apontam a rapidez de pagamento como o maior problema relatado por clientes, muito atrás de fraude e segurança (39,8%). O novo gargalo é controle, não processamento. Quando perguntadas o que travaria a operação se a demanda multiplicasse por dez, 45,7% das empresas citam sistemas de fraude e risco, e 27,3% apontam os sistemas centrais de core banking.
Infraestrutura pronta para escalar
É nesse cenário que o Brasil se destaca: 63% das empresas brasileiras acreditam que sua infraestrutura poderia escalar permanentemente em até sete dias, mais que o dobro da média regional de 29,7%, e 25% já testam e lançam novos serviços de forma contínua, quase o dobro do México e cerca de quatro vezes a Colômbia.
O comportamento do consumidor já mudou: 83% das transações bancárias dos brasileiros acontecem hoje por canais digitais, com o mobile respondendo por 78% de um total de 240,8 bilhões de transações realizadas em 2025, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026. Os bancos reagem investindo: o orçamento tecnológico do setor deve alcançar R$ 50,4 bilhões em 2026, alta de 8% sobre o ano anterior e de 58% em cinco anos, com cibersegurança como prioridade absoluta para 100% das instituições, e cloud e IA Generativa empatadas como protagonistas do orçamento, cada uma citada por 84% dos bancos.
O desafio da maturidade
O detalhe que interessa a quem pensa em agentes, porém, está na maturidade: cerca de 60% das instituições ainda estão em fases iniciais de adoção de IA, percentual que sobe ainda mais no caso específico da IA Generativa. O investimento já chegou. A capacidade de operacionalizar agentes em escala, não, pelo menos não por igual, em todas as instituições. É aqui que a liderança humana do tema do Febraban Tech deixa de ser um contraponto retórico à automação e se torna condição de desempenho. O próprio estudo aqui listado mostra que organizações preparadas para auditoria (capazes de explicar e comprovar como uma decisão de IA foi gerada) reduzem erros a uma taxa de três a seis vezes maior que seus pares, e reportam quase o triplo de confiança na própria capacidade de escalar a tecnologia.
Em outras palavras: quanto mais autônomo o agente, mais crítica se torna a governança que o supervisiona. Não se trata de um freio à adoção, e sim da engrenagem que permite acelerá-la com segurança, algo que o setor bancário, treinado por décadas de regulação, tem mais familiaridade para construir do que a maioria dos setores da economia.
Um movimento que já começou
O movimento não é isolado nem recente. Já em 2024, uma pesquisa mostrava que 78% dos bancos ao redor do mundo já implementavam ao menos um projeto de IA para acelerar operações e se relacionar com clientes. O que mudou desde então não foi a intenção, mas o tipo de sistema que essas instituições colocam para trabalhar: não mais um canal que responde perguntas, e sim um conjunto de agentes capazes de conduzir um processo inteiro da análise de crédito à prevenção de fraude, do planejamento financeiro ao atendimento personalizado com autonomia dentro de limites definidos por pessoas.
O banco do futuro
O banco do futuro, portanto, não será definido pela quantidade de IA que consegue anunciar, mas pela qualidade das decisões que consegue delegar com segurança a agentes que agem em seu nome. Essa é a fronteira real da competitividade nos próximos anos: não comprar mais tecnologia, mas construir a disciplina de dados, a governança e a arquitetura de decisão que tornam um agente confiável o suficiente para operar sem depender de um humano em cada etapa.
As instituições que já entenderam isso e o Brasil, com sua base de pagamentos instantâneos e sua ambição de escalar rápido, tem todas as condições de estar entre elas não estão apenas automatizando processos. Estão redesenhando quem, ou o quê, toma a decisão dentro do banco. E essa é uma pergunta que nenhuma instituição financeira pode mais adiar.

Alessandro Buonopane, CEO Brasil e LATAM da GFT Technologies




