Levantamento do MapBiomas mostra que a vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro em 41 anos. Áreas preservadas sofreram menos com eventos extremos como o El Niño.
Em 41 anos, a vegetação nativa do Brasil foi reduzida a 65% do território nacional. É o que mostra a Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, divulgada nesta quarta-feira (12).
Ao longo dessas quatro décadas, as áreas onde as florestas permaneceram foram as menos afetadas pelo fenômeno El Niño que é o aquecimento da superfície do Oceano Pacífico e causa eventos climáticos extremos na América do Sul.
- O Brasil perdeu 14% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2025, passando de 79% para 65% do território.
- A Amazônia foi o bioma mais atingido pela falta de chuva nos três eventos de El Niño mais fortes.
- O Pantanal enfrentou o ano mais seco da sua história em 2024, por causa do El Niño.
- Rondônia foi o estado que mais perdeu vegetação nativa, caindo de 92% para 59% em 41 anos.
- Pela primeira vez, o MapBiomas mapeou as marismas, áreas pantanosas de água salgada, no Pampa.
A nova coleção apresenta os resultados do mapeamento do território nacional, de 1985 até 2025, a partir de 33 classes de cobertura da terra, como biomas, atividades humanas, tipos de vegetação e superfície de água.
Como o El Niño afeta o Brasil
Nesta edição, os dados foram cruzados com os da plataforma MapBiomas Atmosfera, que monitora o clima e a qualidade do ar no país. Os pesquisadores observaram principalmente a ocorrência de secas e temporais no trimestre de setembro a novembro, durante os anos com El Niño em 1997/98, 2015/16 e 2023/24.
Na análise, eles perceberam que, nesses anos em que o fenômeno foi mais intenso, a maior parte dos biomas brasileiros foi afetada por secas e falta de chuva. As exceções foram o Pampa e parte da Mata Atlântica, onde choveu mais.
Amazônia, Pantanal e outros biomas
A Amazônia foi o bioma mais prejudicado pela falta de chuva nos três episódios de El Niño. No último, em 2023/2024, os efeitos mais fortes foram nas áreas de agropecuária. Essas regiões, onde a floresta deu lugar a pastos e plantações, tiveram uma redução de 178 milímetros de chuva em comparação com a média histórica.
O Pantanal foi drasticamente afetado pelo último El Niño, registrando o ano mais seco da série histórica em 2024. No Cerrado e no norte da Mata Atlântica, a seca foi ficando mais intensa a cada novo fenômeno. As áreas de vegetação nativa foram as mais atingidas nesses biomas.
Já no Pampa, as áreas de agropecuária foram as mais afetadas, mas pelo excesso de chuva, principalmente nos dois últimos fenômenos analisados.
Perda de vegetação nativa
Em 1985, a vegetação nativa ocupava 79% do território brasileiro. Em 2025, esse número caiu para 65%. Durante esses 41 anos, as florestas foram o tipo de vegetação que mais perdeu área por causa da ação humana: foram menos 65 milhões de hectares. Em seguida, vieram as formações savânicas, com menos 46 milhões de hectares, e os campos alagados, que perderam 6,3 milhões de hectares.
"Embora a perda tenha sido maior em florestas, proporcionalmente a perda maior foi das formações savânicas, que perderam 30% de toda a sua área nesse período", diz o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo.
Em todo o período estudado, 557 milhões de hectares mantiveram a mesma classe de cobertura ou uso da terra. Desse total, a maioria, 335 milhões de hectares, foram florestas mantidas em pé.
Como o ser humano ocupa o território
A agropecuária é a atividade que mais ocupa área no país. Em 2025, ela representava 32% do território brasileiro, enquanto em 1985 estava presente em apenas 18%.
A pastagem cresceu em 61,6 milhões de hectares ao longo do período, enquanto a agricultura cresceu sobre 48 milhões de hectares.
Essas atividades ocuparam áreas que antes eram de vegetação nativa nos seis biomas brasileiros, mas de forma desigual. A Amazônia e o Cerrado foram os que mais perderam em tamanho de área, com reduções de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente.
Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal perderam, respectivamente, 10,1; 4,9; 4 e 1,9 milhões de hectares.
"A Mata Atlântica perdeu menos porque já tinha perdido anteriormente e também porque está em uma trajetória, nos últimos 20 anos, que estabilizou e, em alguns lugares, cresceu a área de vegetação nativa, especialmente florestas", explica Tasso Azevedo.
Proporcionalmente, Cerrado e Pampa apresentam as maiores reduções, com perdas de 34% e 32%, respectivamente.
Estados e Distrito Federal
No recorte por estados, entre 1985 e 2025, 25 dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção, após recuperar 1% da cobertura verde.
Os estados que mais perderam vegetação nativa proporcionalmente aos seus territórios foram Rondônia, que caiu de 92% para 59%; Maranhão, que passou de 91% para 61%; Mato Grosso e Tocantins, ambos com redução de 90% para 61%.
Novidade: marismas
As marismas, áreas pantanosas sob influência de água salobra, foram mapeadas pela primeira vez no estudo do MapBiomas, ainda em versão beta. Em 2025, foram mapeados 6,9 mil hectares de marismas, apenas no bioma Pampa.
As principais vegetações presentes nas marismas são herbáceas, formadas por gramíneas e juncos adaptados à água salgada. Esses ecossistemas ocorrem nas margens dos estuários e recebem tanto água doce de rios ou lagunas quanto água do mar.
As que entraram no estudo estão localizadas nas zonas estuarinas das lagoas Tramandaí-Armazém, Lagoa do Peixe, Laguna dos Patos e na foz do Arroio Chuí.

© Fernando Frazão/Agência Brasil



