11 de agosto de 2026

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Crise na IA abre chance bilionária para empresas de infraestrutura

Geral Mercado 11/08/2026 17:08 Andrezza Oliveira - Compliance Comunicação

O desmonte de fundos alavancados derrubou as ações de tecnologia, mas criou uma oportunidade de compra para empresas que fornecem energia, redes e data centers para a inteligência artificial. Entenda como isso afeta o mercado e o que esperar nos próximos meses.

O desmonte forçado de posições de fundos de investimento alavancados derrubou os preços das ações nas bolsas globais e abriu uma janela de oportunidade bilionária para comprar empresas que fornecem a estrutura física para a inteligência artificial, como energia, redes elétricas, refrigeração e data centers. Dados da carta de gestão da Hike Capital, referentes a julho de 2026, mostram que a liquidação obrigatória por falta de garantias fez os preços dos ativos caírem, mesmo com a demanda real por capacidade computacional seguindo forte. Isso revela um desequilíbrio entre as empresas que vendem a infraestrutura e as operadoras que estão cheias de dívidas.

Em julho, o índice de semicondutores da Filadélfia caiu 24% em relação ao pico de junho, e o Nasdaq recuou mais de 10%. No mesmo período, as quatro maiores empresas de nuvem (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) aumentaram suas previsões de investimento para 2026 em 77%, totalizando US$ 725 bilhões.

Entenda o que está acontecendo

  • A queda das ações foi causada pela venda forçada de fundos alavancados, não por problemas nas empresas.
  • As companhias de infraestrutura para IA têm contratos de longo prazo e receitas garantidas.
  • Operadoras de data centers, que usam dívida de curto prazo, enfrentam custos maiores para captar dinheiro.
  • As quatro maiores empresas de nuvem aumentaram seus investimentos em 77% para 2026.
  • Analistas preveem que os gastos com IA somarão trilhões de dólares até 2030.

A análise de crédito aponta que as operadoras que usam dívida de curto prazo para construir data centers estão enfrentando custos cada vez maiores para pegar dinheiro emprestado. O spread dos títulos corporativos do setor subiu de 50 para 78 pontos-base em relação aos títulos do Tesouro americano. O contrato de proteção contra calote de cinco anos da Nvidia atingiu um recorde de 82 pontos-base em 27 de julho, contra 42 no fim de junho.

Do outro lado, as fornecedoras de infraestrutura física (sistemas elétricos, rede, refrigeração e terrenos) têm receitas garantidas por contratos de longo prazo. A carteira de pedidos da Vertiv atingiu US$ 15 bilhões, a Comfort Systems reportou US$ 14,06 bilhões (alta de 73,2%) e a Arista Networks aumentou sua meta de receita para equipamentos de IA para US$ 3,5 bilhões em 2026.

"A queda de preços foi provocada pela venda forçada de fundos alavancados para depositar garantias nos bancos, e não por piora operacional. Esse movimento criou uma divergência entre o preço das ações e a demanda real por infraestrutura", afirma Angelo Belitardo Neto, gestor da Hike Capital.

A gestora destaca que os investimentos em infraestrutura de IA até 2030 somarão US$ 5,5 trilhões (JP Morgan) e os aportes em data centers atingirão US$ 1,7 trilhão ao ano (Dell'Oro). A McKinsey estima US$ 7 trilhões em gastos no setor até 2030, sendo US$ 1,3 trilhão destinados a energia e refrigeração.

"A estratégia é investir em fornecedoras que recebem por contrato e financiam o capital de giro com o próprio cliente, evitando tomadores que dependem de dívida de curto prazo em um cenário de juros altos", explica Belitardo. A Hike Capital está comprando gradualmente papéis de fornecedores físicos, prevendo que o ajuste alavancado ainda trará volatilidade nos próximos meses.

Seletividade no mercado

No cenário doméstico, o mês de agosto se desenha como um divisor de águas e exigirá disciplina redobrada na escolha dos ativos. A recuperação parcial de julho quando o Ibovespa subiu 2,98% aos 177.158,86 pontos impulsionado por R$ 4,71 bilhões em capital estrangeiro e pela trégua do IPCA-15 a 0,06% deve ser vista apenas como uma recomposição pontual após meses de perdas, e não como uma tendência de alta consistente. Para os próximos meses, o ambiente local permanece delimitado por sérios riscos fiscais. O déficit primário do governo central atingiu R$ 48,18 bilhões em junho, elevando a dívida pública a R$ 9,268 trilhões. O endividamento em ano eleitoral mantém elevados os prêmios na curva longa de juros, limitando o impacto prático de eventuais cortes na Selic sobre o custo de capital das empresas.

Três fatores centrais devem orientar o mercado em agosto. O primeiro é a comunicação do Copom, que sinalizará a trajetória futura dos juros longos o verdadeiro balizador do valor das ações. O segundo é a temporada de balanços do segundo trimestre, em que o mercado passará a punir companhias que entregam lucro, mas queimam caixa ou investem sem retorno claro, priorizando negócios com previsibilidade de geração de caixa. O terceiro é o cenário internacional, onde a perspectiva de juros altos nos Estados Unidos e as tarifas americanas sobre produtos brasileiros pressionam a moeda. A projeção é que o dólar orbite entre R$ 5,05 e R$ 5,15 em agosto, caminhando rumo a R$ 5,20 no fim do ano.

Diante do aumento da dispersão entre empresas vencedoras e perdedoras, a Hike Capital reforça a seletividade. O fundo evita setores altamente alavancados e sensíveis ao consumo, como commodities, varejo dentre outros de maior grau cíclico ou de margens comprimidas. Na renda fixa, rejeita títulos públicos indexados à inflação (NTN-B/IPCA+) e debêntures incentivadas com prêmios comprimidos, focando em FIC FIDCs com estrutura de risco mais conservadores, com garantias reais e ativos de infraestrutura mais ilíquidos.

Na renda variável, a carteira comprada foca em companhias desalavancadas, ou em ciclos claros de desalavancagem, geradoras de caixa e cronograma de capex futuro em ciclo de diluição, o que elevam as perspectivas de crescimento na geração de fluxo de caixa livre. Nesse sentido, destacam-se Smart Fit, Cury, Tenda, Bemobi, JSL, Pague Menos, RD Saúde, MBRF, Banco Pine, Movida, EcoRodovias, Motiva, Equatorial, Sabesp e Embraer, mantendo também posição comprada em dólar como proteção. "O mercado passou a valorizar quem entrega qualidade, disciplina e caixa recorrente. Em agosto, separar o ruído do fundamento será o diferencial", conclui Belitardo.