A campanha Seguras para Decidir, lançada por Católicas pelo Direito de Decidir, reúne relatos anônimos de mulheres que realizaram aborto, destacando as barreiras enfrentadas no acesso a serviços de saúde, informação e acolhimento.
O aborto já é uma realidade no Brasil. A possibilidade de decidir e atravessar essa experiência com informação, acolhimento e segurança, no entanto, ainda não é garantida a todas as mulheres. Barreiras no acesso aos serviços de saúde, falta de informações confiáveis, desigualdades econômicas, raciais e territoriais, medo de julgamento e risco de punição tornam o procedimento inseguro, inclusive em situações nas quais ele é permitido pela legislação brasileira.
É a partir dessa realidade que Católicas pelo Direito de Decidir lança nesta segunda-feira (10) a campanha Seguras para Decidir. A iniciativa coloca no ar o site segurasparadecidir.org e o perfil @segurasparadecidir no Instagram, reunindo dados, informações e relatos reais sobre o aborto no Brasil. São depoimentos de mulheres comuns, cujas experiências muitas vezes permanecem em silêncio, embora façam parte da vida de famílias, círculos de amizade, ambientes de trabalho e comunidades em todo o país. As histórias são publicadas com consentimento e preservação do anonimato, e outras mulheres também podem enviar seus relatos de forma segura pelo site da campanha.
- Uma em cada sete mulheres brasileiras já interrompeu uma gravidez.
- Cerca de 500 mil mulheres realizam aborto no Brasil todos os anos.
- Mulheres negras representam quase 60% das mortes maternas relacionadas ao aborto.
- O aborto é permitido em casos de estupro, risco à vida da gestante e anencefalia fetal.
- 72% das mulheres concordam que prender não é solução para o aborto.
O aborto já faz parte da vida das mulheres brasileiras, mas continua sendo vivido no silêncio. Cada história carrega decisões, contextos e sentimentos complexos, que se estendem para além do momento da escolha. Para muitas mulheres, o estigma e o medo da punição permanecem com elas pela vida inteira. Falar sobre aborto é reconhecer uma realidade que já existe. E que afeta a vida de milhares de famílias no país, afirma Denise Mascarenha, coordenadora executiva de Católicas pelo Direito de Decidir.
Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, uma em cada sete mulheres brasileiras já interrompeu uma gravidez. Todos os anos, cerca de 500 mil mulheres realizam o procedimento no país. Embora revelem que o aborto faz parte da vida de muitas brasileiras, esses números também expõem uma realidade marcada por profundas desigualdades.
O mesmo levantamento indica que mulheres negras, de baixa renda e que vivem em contextos de maior vulnerabilidade enfrentam mais barreiras e estão mais expostas às consequências dos abortos inseguros: mulheres negras têm maior probabilidade de realizar um aborto do que mulheres brancas, representam quase 60% das mortes maternas relacionadas ao procedimento e apresentam uma razão de mortalidade materna por aborto 39% maior.
No Brasil, o aborto é permitido quando a gravidez resulta de estupro, quando representa risco à vida da pessoa gestante ou quando há diagnóstico de anencefalia fetal. Nessas situações, o procedimento deve ser oferecido de forma segura e gratuita pelo Sistema Único de Saúde. Ainda assim, o acesso ao aborto legal pode ser atravessado por demora, desinformação, recusa de atendimento e judicialização. Uma das histórias reunidas pela campanha evidencia essas barreiras ao relatar a trajetória de uma mulher que, mesmo diante de risco à própria vida e com indicação médica, precisou recorrer à Justiça antes de conseguir interromper a gestação e iniciar o tratamento contra o câncer.
Fora dessas três situações, tanto quem realiza o aborto quanto outras pessoas envolvidas no procedimento podem responder criminalmente. De acordo com uma pesquisa do Instituto Update de 2025, 72% das mulheres, independentemente de opiniões pessoais sobre o aborto, concordam que prender não é solução. O dado mostra que apoio e acolhimento são caminhos mais valorizados do que a criminalização.
As violações e perseguições contra quem realiza um aborto são uma forma de violência de gênero. A legislação atual não atende às demandas concretas das mulheres e cria um cenário de medo e insegurança tanto para quem busca o procedimento quanto para os profissionais que o realizam, diz Denise Mascarenha.
Somente a descriminalização pode promover espaços seguros para decidir pela interrupção de uma gestação e garantir direitos constitucionais e reprodutivos. Precisamos criar condições para que esse debate seja feito com informação, respeito e cuidado, porque são mulheres reais que vivem essas experiências todos os dias, completa.
Sobre a campanha
Seguras para Decidir é uma campanha que busca ampliar o debate público sobre aborto no Brasil por meio de histórias reais, informação qualificada e espaços de participação. A iniciativa convida mulheres a compartilharem suas experiências de forma segura e anônima, contribuindo para uma conversa mais aberta, acolhedora e conectada à realidade de milhões de brasileiras. A campanha é realizada por Católicas pelo Direito de Decidir (CDD).
Sobre Católicas pelo Direito de Decidir
Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) é uma organização social brasileira fundada no Dia Internacional da Mulher de 1993. O grupo é composto por católicas feministas que, há mais de 30 anos, lutam pelos direitos sexuais e direitos reprodutivos das meninas, mulheres e pessoas que gestam no Brasil, sempre apoiadas na prática da teologia feminista para promover mudanças sociais, sobretudo nos padrões culturais e religiosos.

Campanha Seguras para Decidir





