06 de agosto de 2026

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Matemática forte, país mais inovador

Geral Matemática 06/08/2026 16:23 Gabriela Canaveira Monteiro, Renata Tomoyose e Anna Luisa Volpato (Mira Comunicação)

Especialista explica como uma boa base em matemática pode ajudar o Brasil a inovar e preparar jovens para carreiras em ciência e tecnologia.

O domínio da matemática e o desenvolvimento do raciocínio lógico são estratégicos para o avanço científico, tecnológico e econômico de um país. Engenharia, inteligência artificial, ciência de dados, automação, finanças e diferentes segmentos da indústria dependem de profissionais capazes de interpretar informações, construir modelos e resolver problemas complexos. Nesse cenário, a qualidade da formação matemática oferecida nas escolas desempenha um papel importante na preparação dos jovens para percursos acadêmicos e profissionais nessas áreas. O desafio é evidenciado pelos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2022. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em matemática, considerado o patamar básico pela avaliação. A média dos países da OCDE foi de 69%. O resultado indica que uma parcela expressiva dos jovens brasileiros ainda encontra dificuldades para aplicar conhecimentos matemáticos em situações relativamente simples.


Jalman Lima, mestre em Matemática e gerente da CASIO Educação, avalia que fortalecer essa formação é uma das condições para ampliar a base de talentos do Brasil. "O domínio da matemática e do raciocínio lógico está ligado à capacidade de interpretar dados, produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e enfrentar problemas complexos. Quando mais estudantes têm acesso a essa formação, o país também aumenta seu potencial de inovação", afirma.


Os resultados mais recentes disponíveis são referentes à edição de 2022. Os resultados preliminares da aplicação realizada em 2025 estão previstos para 2026 e deverão oferecer um diagnóstico atualizado sobre a aprendizagem. Até essa divulgação, os dados de 2022 permanecem como a principal referência internacional para analisar o desempenho dos estudantes brasileiros.


  • No PISA 2022, só 27% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico em matemática, enquanto a média dos países ricos foi de 69%.
  • O ensino de matemática no Brasil ainda foca muito na memorização de fórmulas, e não no raciocínio.
  • A abordagem STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) pode ajudar a conectar a matemática com situações reais.
  • Professores que usam métodos investigativos e tecnologias educacionais podem melhorar a aprendizagem.
  • Fortalecer a matemática é essencial para o país ter mais inovação e menos dependência tecnológica.


Educação STEM potencializa preparo acadêmico e profissional


STEM é a sigla, em inglês, para Science, Technology, Engineering and Mathematics, ou ciência, tecnologia, engenharia e matemática, em português. A educação STEM busca articular conhecimentos dessas áreas na investigação de problemas, na criação de soluções e no desenvolvimento de projetos. Essa articulação pode envolver diferentes combinações entre as quatro áreas, conforme o objetivo pedagógico.


Essa abordagem é apontada por Jalman como caminho para aproximar o conhecimento escolar de problemas reais. "Ao participar de atividades de investigação, experimentação, análise de dados e resolução de problemas, o estudante tem a oportunidade de desenvolver competências relevantes para diferentes contextos acadêmicos e profissionais, como pensamento crítico, criatividade, colaboração e tomada de decisões baseada em evidências", explica.


Lacunas na formação limitam o acesso a áreas científicas e tecnológicas


O especialista avalia que existem gargalos na aprendizagem de conceitos fundamentais, como frações, proporcionalidade, porcentagem, álgebra e interpretação de problemas. Como muitos conhecimentos matemáticos se apoiam em aprendizagens anteriores, dificuldades nesses conceitos podem afetar a compreensão de conteúdos mais avançados, entre eles funções, estatística, geometria analítica, física e programação.


Segundo Jalman, o problema vai além do conteúdo. A maior distância está entre executar procedimentos e compreender conceitos. "Muitos estudantes memorizam fórmulas, mas têm dificuldade para explicar o raciocínio, interpretar situações reais ou escolher estratégias de resolução", diz. Para o especialista, essas lacunas podem dificultar o avanço dos estudantes em formações científicas e tecnológicas e reduzir a base potencial de talentos para setores estratégicos da economia.


Ensino deve valorizar o processo, e não apenas o resultado


Para reduzir essa distância, Jalman defende práticas que coloquem o estudante em posição ativa diante do conhecimento, como aprendizagem baseada em problemas, projetos interdisciplinares, investigação matemática e discussão de diferentes estratégias de resolução. "É importante que o professor incentive os alunos a explicar seus caminhos, comparar métodos, justificar escolhas e revisar hipóteses. Dentro da abordagem STEM, o erro deve ser entendido como parte do processo investigativo, e não apenas como sinal de fracasso", orienta.


Esse tipo de ensino, que prioriza o processo e não apenas o resultado, torna a aprendizagem mais sólida e aplicável fora da sala de aula. "No mundo real, os problemas raramente aparecem organizados como em um exercício escolar. Por isso, compreender o processo é fundamental para analisar cenários, tomar decisões e resolver desafios de forma autônoma", afirma Jalman.


A mesma lógica vale para tecnologias educacionais e ferramentas digitais, como a calculadora científica, quando utilizadas com intencionalidade pedagógica. "A calculadora não deve ser vista como um atalho para evitar o raciocínio, mas como uma ferramenta para investigar ideias matemáticas", diz Jalman. Com ela, os estudantes podem comparar resultados, testar hipóteses, analisar tabelas, identificar padrões e observar como mudanças nos dados afetam uma solução. "A ferramenta não elimina a necessidade de compreender o procedimento. Ela pode reduzir o tempo dedicado a operações repetitivas e ampliar o espaço para análise, interpretação e discussão dos resultados", acrescenta.


Caminhos para fortalecer a formação matemática no Brasil


Para o gerente da CASIO Educação, o primeiro passo é garantir uma base matemática sólida desde os anos iniciais, com atenção à compreensão numérica, à proporcionalidade, à resolução de problemas e ao raciocínio lógico. Ele defende ainda investimento na formação continuada de professores, com apoio para o uso de metodologias investigativas e tecnologias educacionais alinhadas à proposta STEM.


"As escolas podem ampliar projetos interdisciplinares, atividades práticas, uso de dados reais e situações conectadas ao cotidiano dos estudantes. Já as políticas públicas podem contribuir com currículos consistentes, materiais de qualidade, infraestrutura tecnológica e programas que valorizem a matemática como área estratégica", afirma Jalman. "Fortalecer essa formação amplia as condições para que mais jovens compreendam, criem e apliquem tecnologia, em vez de apenas consumi-la. Esse é um passo importante para formar talentos e aumentar a capacidade de inovação do país", conclui.