A obra 'Ela passou rapidinho para deixar um beijinho', da jornalista e escritora Jules de Faria, aborda o luto gestacional com sensibilidade, oferecendo uma linguagem acessível para que famílias possam conversar sobre esse tema ainda cercado por silêncio. Inspirado em uma experiência pessoal, o livro acompanha um menino que tenta entender a morte da irmã antes de ela nascer. Com apoio do Instituto do Luto Parental, a obra também ajuda a quebrar tabus e a valorizar a memória dos 'bebês breves'.
A perda de um bebê durante a gestação ainda é cercada por silêncio e dificuldade de acolhimento. Embora o Brasil tenha dado um passo importante com a sanção da Lei nº 15.139/2025, que instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, famílias que enfrentam perdas gestacionais, óbitos fetais e neonatais ainda relatam a falta de referências para falar sobre o tema, especialmente com as crianças. É nesse contexto que surge o livro Ela passou rapidinho para deixar um beijinho (Editora Quelônio), da jornalista e escritora Jules de Faria, que propõe uma conversa sensível sobre perda, memória e continuidade da vida a partir do olhar de um menino que tenta compreender a morte da irmã antes mesmo de conhecê-la.
O livro é apoiado pelo Instituto do Luto Parental (ILP), organização que participou da construção da Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. Em 2025, o instituto acolheu cerca de 1.300 pessoas por meio de rodas de conversa, grupos de apoio e atendimentos psicológicos. A obra nasce dessa mesma necessidade: oferecer uma linguagem acessível para abordar um tema que costuma ser vivido em silêncio.
Resumo da notícia
- Livro infantil 'Ela passou rapidinho para deixar um beijinho' ajuda famílias a falarem sobre perda gestacional com crianças.
- A obra foi inspirada na experiência da autora, que perdeu sua filha Lila durante a gestação.
- O livro conta a história de um menino que tenta entender a morte da irmã antes de ela nascer, mostrando como o diálogo e a memória podem ajudar no luto.
- A publicação conta com ilustrações de Bruna Ximenes, que usam cores para representar as emoções da família.
- O livro também aborda a importância de incluir outras pessoas, como os pais, no processo de luto e na criação de memórias.
Em vez de narrar o sofrimento dos pais, a autora escolhe acompanhar um menino de cinco anos que aguardava ansiosamente pela chegada da irmã. Quando descobre que ela morreu ainda na gestação, ele tenta compreender por que todos estão tristes, por que cada pessoa sente a perda de um jeito e como é possível continuar vivendo sem esquecer quem partiu. A narrativa se desenvolve por meio do diálogo entre pais e filho, sem respostas prontas, mas abrindo espaço para que sentimentos como tristeza, saudade e confusão possam ser compartilhados.
A história nasceu de uma conversa real que a autora teve com seu filho. "O livro nasceu de uma conversa real, a que eu tive com o Jonas pra explicar o que tinha acontecido com a irmã dele. Peguei essa cena, um menino de 5 anos perguntando, os pais tentando responder, e virou o livro. Digerir o luto levou anos. Escrever o livro, não: foi rápido, em poucos dias. Quando as palavras vieram, vieram todas de uma vez", conta.
Nomear quem partiu também faz parte do luto
Ao longo da narrativa, o menino aprende que existem os chamados "bebês breves", expressão usada para se referir aos bebês que morreram durante a gestação ou logo após o nascimento. A obra mostra que falar sobre eles, preservar suas lembranças e reconhecer seu lugar na história da família pode ser uma forma de atravessar o luto sem apagar a existência de quem passou "rapidinho". Em uma das passagens, a criança descobre que as famílias também podem criar memórias bonitas depois da despedida, encontrando no afeto uma maneira de manter viva essa presença.
Essa perspectiva acompanha a forma como Jules compreende sua própria experiência. "Que depois do fim tem sempre uma continuidade. Não é sobre seguir existindo dentro do sofrimento, é sobre achar um jeito de fazer esse momento valer a pena. E que dá pra chamar pelo nome os bebês que passaram rapidinho e isso ajuda", diz.
A escolha da literatura infantil também foi consciente. Para a autora, a linguagem das crianças permite abordar um tema difícil sem deixar de reconhecer sua complexidade. "A linguagem da criança é acessível, curiosa, direta. Me pareceu um jeito gentil de entrar num assunto tão duro. Cada família acredita numa coisa diferente sobre a morte (...) Mais do que explicar o que vem depois, queria falar do que fica."
As ilustrações de Bruna Ximenes aprofundam essa proposta ao construir uma narrativa visual que acompanha as emoções da família. O azul que inicialmente representa a vida que cresce na barriga da mãe passa a ocupar nuvens, chuva e lágrimas, traduzindo sentimentos que nem sempre encontram palavras. Mais do que ilustrar a história, as imagens ajudam a comunicar a transformação vivida pelos personagens e ampliam as possibilidades de leitura para crianças e adultos.
Embora seja uma obra voltada ao público infantil, o livro também dialoga com mães, pais, familiares, educadores e profissionais da saúde que convivem com o desafio de acolher uma perda gestacional. Para Jules, o silêncio em torno desse tipo de luto não afeta apenas quem perdeu o bebê, mas também quem deseja oferecer apoio e não sabe como agir. Entre os temas que considera fundamentais para discutir está a invisibilidade da dor dos parceiros. "A lacuna enorme que existe em falar de perda gestacional. Nomear os 'bebês breves' como forma de ritual. Como falar de morte com uma criança sem mentir pra ela. A dor do parceiro, que quase nunca é vista. Ninguém perguntou como o Rafael, meu marido, estava, era como se só eu estivesse passando por algo físico", afirma.
O processo de escrita também marcou uma transformação pessoal. Depois da morte de Lila, Jules deixou a rotina intensa que mantinha em São Paulo, reorganizou sua vida e passou a construir um cotidiano mais próximo da família e da natureza. "Esse livro é o registro de uma virada. Eu era workaholic em São Paulo, presidia o Think Olga, fazia parte do Think Eva. Depois da Lila, larguei tudo isso e fui morar no litoral. Reorganizei a vida a partir de um lugar mais autêntico, menos personagem. (...) Às vezes acho que foi ela que me salvou. Escrever fez parte disso. Foi transformar a dor em alguma coisa que pudesse acolher outra pessoa também."
Sem oferecer respostas definitivas sobre a morte, Ela passou rapidinho para deixar um beijinho propõe uma reflexão sobre o direito de viver o luto sem invisibilizar quem partiu. Ao transformar uma experiência íntima em literatura, Jules de Faria amplia uma conversa ainda pouco presente na sociedade e convida leitores de diferentes idades a compreender que a memória, o afeto e a possibilidade de nomear os "bebês breves" também fazem parte da continuidade da vida.

Capa do livro 'Ela passou rapidinho para deixar um beijinho'.



