Após a crise, o mais difícil é manter o foco e planejar o futuro. A governança para adaptação climática é essencial para evitar novos desastres.
Eventos climáticos extremos deixaram de ser uma hipótese distante para se tornarem uma realidade frequente. E a maior fragilidade das sociedades diante disso nem sempre é a falta de recursos, tecnologia ou conhecimento técnico. Muitas vezes, é a dificuldade de transformar a experiência da crise em capacidade permanente de adaptação. Eventos extremos não são desastres; desastre é não estarmos preparados para eles.
Essa é, antes de tudo, uma questão de governança.
- Governança é a forma como decidimos e coordenamos ações entre diferentes grupos.
- Governança climática busca criar regras e estruturas para lidar com mudanças do clima.
- A CoalizãoRS é um grupo que trabalha pela resiliência no Rio Grande do Sul.
- A Carta pela Resiliência tem 15 prioridades para adaptação climática.
- Eventos extremos podem virar desastres se não houver preparo.
Durante décadas, a adaptação às mudanças climáticas foi vista principalmente como um problema de infraestrutura, engenharia e dinheiro. Esses pontos continuam essenciais. Mas, como os eventos extremos ficam mais frequentes e seus impactos mais graves, fica claro que obras sozinhas não criam resiliência.
Resiliência depende da capacidade de coordenar instituições, manter decisões de longo prazo e criar mecanismos que sobrevivam às trocas de governo, às brigas políticas e ao fim do senso de urgência que acompanha as grandes tragédias. Ela depende, claro, de sistemas físicos de proteção contra enchentes e secas, mas também de infraestrutura econômica e social que garanta sobrevivência digna e desenvolvimento sustentável.
É justamente nesse ponto que a governança passa a ter papel central.
Essa visão ganhou forma durante a Semana de Ação Climática de Porto Alegre, com o lançamento da Carta pela Resiliência e Ação Climática Da emergência à transformação: um compromisso com um futuro resiliente para o Rio Grande do Sul. Ela foi feita em parceria entre a CoalizãoRS, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, o Tecnopuc, o Instituto Caldeira e o Pacto Alegre. O documento reúne quinze prioridades para uma agenda permanente de adaptação climática. Mais que um conjunto de recomendações, a Carta propõe uma mudança de paradigma: transformar a resiliência climática em política de Estado e fortalecer mecanismos de governança que integrem diferentes atores na construção de respostas duradouras para desafios que nenhuma instituição enfrenta sozinha.
Na mesma linha, a CoalizãoRS entregou aos pré-candidatos ao Governo do Estado uma Carta de Compromisso com a Agenda de Resiliência Climática, convidando-os a assumir essa agenda como prioridade. Organizadas em três eixos governança e transparência, planejamento e financiamento, e prevenção e resposta a eventos climáticos , as propostas buscam garantir que a resiliência seja incluída nos programas de governo e nas decisões do próximo ciclo político. Ao pedir o compromisso dos futuros governantes antes das eleições, a iniciativa coloca em prática um princípio essencial da governança climática: políticas que protegem vidas e territórios precisam nascer com vocação de permanência e atravessar governos, mandatos e disputas partidárias.
A relevância dessa agenda vai muito além do Rio Grande do Sul.
Mudanças climáticas são um exemplo claro do que chamamos de desafio sistêmico: seus impactos atravessam setores, fronteiras administrativas e mandatos políticos. Nenhuma organização, empresa ou governo tem, sozinho, os recursos, as competências ou a legitimidade para responder a esse tipo de problema.
Essa constatação exige uma mudança importante na própria ideia de governança.
Tradicionalmente, governança significava criar mecanismos para orientar decisões dentro das organizações. Hoje, desafios dessa natureza exigem algo diferente: modelos capazes de coordenar decisões entre organizações.
É nesse contexto que a governança multistakeholder ganha relevância. Mais do que ampliar espaços de participação, ela busca construir estruturas permanentes de cooperação entre atores que têm responsabilidades, incentivos e perspectivas diferentes. Seu objetivo não é eliminar conflitos, algo impossível em sociedades democráticas, mas criar condições para que interesses diversos possam convergir em torno de objetivos públicos de longo prazo.
Na prática, isso significa reconhecer que adaptação climática depende tanto da qualidade das instituições quanto da qualidade das obras que elas fazem.
Esse talvez seja um dos aspectos menos discutidos da agenda climática.
Costumamos imaginar que o principal desafio está na falta de recursos ou de soluções tecnológicas. No entanto, como diz a Carta pela Resiliência, "o conhecimento existe", "os recursos existem", "as experiências existem" e o desafio agora é conectá-los.
Sob a perspectiva das ciências comportamentais, essa dificuldade não surpreende.
Seres humanos respondem com muito mais intensidade ao risco imediato do que às ameaças futuras. Depois que a emergência passa, nossa atenção tende a migrar para novas prioridades. Instituições não são imunes a esse comportamento. Também elas sofrem os efeitos da descontinuidade, dos ciclos políticos e da perda gradual da memória coletiva.
É justamente por isso que a governança importa.
Sua função não é apenas organizar estruturas ou distribuir responsabilidades. É criar mecanismos capazes de proteger decisões estratégicas da volatilidade do curto prazo, preservando compromissos coletivos mesmo quando a urgência deixa de ocupar as manchetes.
O verdadeiro teste da reconstrução do Rio Grande do Sul não será medido apenas pelo número de obras concluídas ou pelos recursos investidos. Será medido pela capacidade de transformar uma tragédia sem precedentes em aprendizado institucional permanente.
Porque os desastres climáticos continuarão acontecendo.
A pergunta que permanecerá é outra: estaremos reconstruindo apenas aquilo que foi perdido ou construindo instituições capazes de reduzir nossa instabilidade diante do que ainda está por vir

Claudia Pitta, Diretora jurídica e de governança da CoalizãoRS



