Com os juros caros, o brasileiro mudou a forma de comer fora de casa: agora sai menos, pesquisa preços, divide pratos e corta sobremesas para economizar. Essa nova realidade tem pressionado os restaurantes, que buscam formas de manter as margens e atrair clientes em um cenário econômico difícil.
Os juros altos e a perda de poder de compra das famílias estão mudando a rotina dos brasileiros que gostam de comer fora de casa. As pessoas estão saindo menos, comparando preços, dividindo pratos, deixando de pedir sobremesas e bebidas e escolhendo restaurantes que ofereçam uma sensação de custo-benefício. Ao mesmo tempo, bares e restaurantes enfrentam o desafio de manter suas margens em um período de custos altos.
Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), divulgada em março de 2026, mostra que 23% das empresas do setor tiveram prejuízo em janeiro, enquanto apenas 41% conseguiram ter lucro. Isso é um reflexo da combinação de juros altos, consumo mais fraco e a dificuldade de repassar o aumento dos custos para os preços finais.
- O consumidor está mais seletivo e analisa cada gasto antes de decidir onde comer.
- Dividir pratos e cortar sobremesas e bebidas virou uma tendência para economizar.
- Os restaurantes precisam criar estratégias para atrair clientes sem necessariamente aumentar os preços.
- A percepção de valor é fundamental: o cliente aceita pagar se entender claramente o que está recebendo.
- Mesmo com a melhora da economia, a tendência é que o consumidor continue mais consciente e pesquisador.
Marcelo Marani, professor e CEO da escola Donos de Restaurantes, explica que os juros altos mudaram a forma de comer fora. "Hoje o cliente analisa cada gasto, compara preços e quer sentir que fez uma boa escolha. O restaurante que insiste no mesmo modelo comercial corre o risco de perder clientes, mesmo que a comida continue boa."
Consumidor mais racional
Embora comer fora ainda faça parte da rotina, a forma de consumo está mais seletiva. Segundo o IBGE, a inflação dos alimentos pressiona o orçamento das famílias, e os restaurantes estão segurando os reajustes para não perder clientes, mesmo que isso reduza suas margens de lucro.
As pessoas estão compartilhando porções, trocando refeições completas por lanches, evitando pedidos adicionais e escolhendo lugares onde percebem uma melhor relação entre preço, experiência e qualidade. "Antes bastava oferecer um bom prato. Hoje é preciso entregar valor percebido. O cliente aceita pagar quando entende o que está recebendo. Se ele não vê essa diferença, troca de restaurante ou reduz o consumo", explica Marani.
Ticket médio não é o único indicador
Muitos empresários ainda tentam aumentar o faturamento apenas elevando o ticket médio, o que pode ter o efeito contrário quando o consumidor está mais sensível ao preço. O foco agora deve ser aumentar a frequência das visitas e facilitar a decisão de compra com um mix de produtos mais inteligente.
"Nem sempre vender o prato mais caro é a melhor estratégia. Muitas vezes faz mais sentido criar opções de entrada, combos, menus executivos ou produtos de menor custo para manter o cliente frequentando o restaurante", diz o especialista. Revisar o cardápio é estratégico: pratos pouco rentáveis, excesso de itens e ofertas sem diferenciação dificultam a operação e confundem o consumidor.
Percepção de valor é chave
O preço deixou de ser o único fator competitivo. Atendimento, agilidade, ambiente, conveniência e programas de fidelidade pesam cada vez mais na escolha de onde comer. Os empresários que conhecem o comportamento dos clientes conseguem ajustar melhor suas estratégias.
"Quem acompanha dados percebe rapidamente quando um produto perde saída, quando o cliente reduz o consumo ou quando determinados horários têm menos movimento. Essas informações permitem adaptar promoções, horários e ofertas antes que a queda de faturamento apareça", complementa.
Mudança veio para ficar
Mesmo quando o crédito voltar a ficar mais barato, Marani acredita que parte desse comportamento vai permanecer. "O consumidor aprendeu a comparar mais, pesquisar mais e gastar melhor. Essa mudança dificilmente será revertida completamente. Os restaurantes que entenderem esse novo padrão estarão mais preparados para crescer, independentemente do ciclo econômico."
O novo momento do setor exige gestão eficiente, estratégia comercial e compreensão do comportamento do consumidor. "O restaurante deixou de competir apenas pela comida. Hoje ele disputa espaço dentro do orçamento das famílias e precisa mostrar que entende essa nova realidade para se manter relevante e lucrativo."

Economia Imagem gerada por IA


