Estudo com adultos iranianos descobriu que o uso problemático de aplicativos de namoro e pornografia está ligado a uma visão menos profunda e mais superficial do amor.
Já faz mais de uma década que os aplicativos de namoro como Tinder e Bumble começaram a se popularizar no Brasil. Antes, ainda existiam sites como OkCupid com sua interface de "arrastar pra direita ou pra esquerda". Para milhões de pessoas, namoros e até casamentos começaram a partir dessas plataformas.
Só que, para um grupo de pesquisadores, uma questão pairou no ar: como o uso desses aplicativos alterou a nossa relação com o amor romântico
O estudo resultante da questão, publicado na revista BMC Psychology no último mês, mostrou que quanto mais problemático era o uso de aplicativos de namoro e de pornografia (que também foi analisado), menor tendia a ser a reflexão dos participantes sobre o significado existencial do amor. Esses comportamentos, descobriram os cientistas, também estavam associados a uma visão mais pragmática das relações e a uma tendência maior de se apaixonar rápida e frequentemente.
- O estudo envolveu mais de 600 adultos iranianos.
- Uso problemático de apps de namoro e pornografia está ligado a menos reflexão sobre o amor.
- Pessoas com uso problemático veem o amor como algo mais "transacional".
- Experiências comuns nos apps incluem excesso de opções, rejeições rápidas e conversas superficiais.
- Os pesquisadores alertam que o estudo não prova causa e efeito.
O que são considerados comportamentos "problemáticos"
Para descobrir a relação dos mais de 600 adultos que participaram do estudo, os pesquisadores pediram que os participantes respondessem a seis afirmações, como: "Fico inquieto quando não consigo usar aplicativos de namoro." Também foram avaliadas tentativas frustradas de reduzir o uso e possíveis conflitos provocados pelo uso dos aplicativos.
Quanto ao consumo de pornografia, o questionário avaliou perda de controle e prejuízos causados pelo consumo, incluindo situações como abandonar outras atividades de lazer para assistir a pornografia.
E, finalmente, para ver a relação da pessoa com o "significado existencial do amor", os pesquisadores avaliaram os seguintes pontos:
- se a pessoa costuma refletir sobre a filosofia e o propósito do amor;
- se considera que o amor dá sentido à vida e à existência;
- se tem uma visão mais pragmática, econômica ou utilitária das relações;
- se tende a se apaixonar rapidamente, frequentemente e com pouca seletividade.
Uso problemático está ligado a menor senso de significado existencial no amor romântico
Os pesquisadores conseguiram criar uma associação entre padrões compulsivos de uso de aplicativos de namoro e de pornografia e menor nível de reflexão dos participantes sobre o significado existencial do amor.
Isso significa que padrões compulsivos de uso dessas plataformas podem estar ligados não apenas à ansiedade, à solidão ou à satisfação sexual, mas também às ideias que uma pessoa desenvolve sobre intimidade, compromisso e significado das relações.
Segundo a interpretação dos autores, experiências comuns nos aplicativos excesso de opções, rejeições rápidas, conversas superficiais e avaliação de pessoas com base em fotos e informações materiais poderiam favorecer a impressão de que parceiros podem ser "facilmente trocados".
Para a pesquisa, então, essas pessoas viam o amor como uma relação mais "transacional" do que as que usavam os aplicativos de forma mais consciente, sabendo e refletindo sobre os males que eles podem provocar.
Já o consumo de pornografia de forma problemática, os pesquisadores acreditam que pode enfraquecer a sensação de que um amor comprometido e significativo seja desejável ou realista.
Os pesquisadores alertam, no entanto, que o estudo não pode comprovar causa e efeito por conta, principalmente, de sua pequena amostra.
Não é possível saber, por exemplo, se o uso problemático tornou o amor menos significativo ou se pessoas que já acreditavam menos no amor desenvolveram maior envolvimento compulsivo com aplicativos e pornografia.

Como os aplicativos de namoro podem estar destruindo o amor romântico Foto: Reprodução


