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Ibitinga: a cidade que vive e respira o bordado

Geral Bordado 30/07/2026 12:27 Alan Viana, da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo

Ibitinga, conhecida como a Capital Nacional do Bordado, tem no artesanato sua principal fonte de renda e turismo. Conheça as histórias emocionantes de Valdecir e Nereide, artesãos que transformaram suas vidas e a cidade através da arte de bordar.

Paciência, afeto, dedicação e tempo. Esses são quatro fatores fundamentais na vida e que se encaixam perfeitamente em uma atividade: o bordado. Como arte que surgiu há muitos anos, pesquisas apontam que o primeiro registro foi o ponto cruz, na era pré-histórica. Esse ponto era utilizado nas roupas feitas com peles de animais e acredita-se que, já nesse período, o ser humano o usava para enfeitar e diferenciar suas vestimentas.

Os anos passaram e o bordado tornou-se presente em diversas épocas e culturas, com a contribuição de inúmeros povos, como chineses, egípcios, gregos, ingleses, indígenas, persas e romanos, entre outros. É importante destacar que o trabalho detalhado de bordar desenhos ou padrões nas roupas era muito valioso; portanto, apenas os ricos e poderosos tinham acesso e usavam tecidos bordados para demonstrar status social.

  • O bordado existe desde a pré-história, quando era usado para enfeitar roupas feitas de peles de animais.
  • Ibitinga, no interior de São Paulo, é conhecida como a Capital Nacional do Bordado.
  • A cidade recebe milhares de turistas todos os anos, atraídos pelas feiras e pelo artesanato local.
  • O bordado ajudou artesãos da cidade a conquistarem reconhecimento profissional e melhores condições de trabalho.
  • Além de ser uma fonte de renda, o bordado é considerado uma atividade terapêutica, que relaxa e traz concentração.

O bordado foi passado de geração em geração e popularizou-se mundo afora, inclusive no Brasil e em São Paulo. Em 2011, foi criado oficialmente o Dia Mundial do Bordado por iniciativa da Täcklebo Broderiakademin (Academia de Bordado de Täcklebo), em Vismarlöv, na Suécia. A data, celebrada anualmente em 30 de julho, surgiu do desejo de unir pessoas de diferentes países com o mesmo interesse e celebrar o bordado como um ato de criatividade.

Neste Dia Mundial do Bordado, a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP) apresenta a cidade de Ibitinga. Conhecida como a Capital Nacional do Bordado, a estância turística localiza-se a 343 km da capital, no centro geográfico do estado de São Paulo. A cidade leva o título pelos bordados produzidos tanto em lojas de fábrica e no Centro Comercial, quanto artesanalmente, carregando história e tradição.

Reconhecida como referência no turismo de compras do estado, Ibitinga recebe anualmente milhares de turistas, atraídos pelas peças expostas na Feirinha do Artesanato que acontece aos sábados com aproximadamente 600 barracas e pela Feira do Bordado, que ocorre no mês de julho, reunindo 150 expositores, a maioria de empresas de bordados. Com esse movimento gerado pelo turismo, também há impacto direto na vida dos moradores. Conheça as histórias de Valdecir da Silva e Nereide Branco Trofino, dois artesãos e moradores de Ibitinga que tiveram suas vidas transformadas pelo turismo e pelo bordado.

De motorista de ambulância a turismólogo, guia de turismo, hoteleiro e, sempre, bordador...

Valdecir da Silva é natural de Ibitinga e tem 57 anos. "Val", como é carinhosamente chamado pelos amigos e familiares, é turismólogo, guia de turismo e bordador profissão que começou a exercer quando tinha entre 12 e 13 anos de idade.

"Foi um despertar natural. Em casa, viemos de uma família humilde e a minha mãe sempre ensinou que tínhamos de merecer o que ganhávamos. Desde pequeno, ela colocou em nossas mãos a responsabilidade de ajudar a pagar as contas, mas não era um trabalho árduo ou penoso. Não, não. Minha mãe sempre foi muito sensata; ela queria que estudássemos também. Então, íamos para a escola no período matutino e, quando chegávamos, fazíamos as tarefas e ajudávamos em casa", conta.

Ele comenta que, no fim da tarde, sua mãe preparava carrinhos de mão que ele chamava de carriola com pacotes de legumes e frutas do terreno da família, para que Valdecir oferecesse no bairro. Nesse período, seu pai era padeiro e entregava pão de porta em porta com um carrinho parecido com uma carroça, porém fechado. "A renda da família era pouca, mas nos virávamos dessa forma".

A paixão de Valdecir pelo bordado começou pela mãe, que era desfiadeira. "O desfiado que ela fazia era um trabalho artesanal de tirar fio por fio de um tecido de linho, que futuramente seria crivado dentro de um desenho, um formato preparado antigamente, e depois bordado. Era um processo de desfiar, crivar e bordar", explica. Primeiro, ele aprendeu a desfiar, depois a crivar um pouco, mas o que queria mesmo era a agilidade da máquina de bordar. "A máquina era mais rápida. Apesar de ser um trabalho manual, utilizava-se esse equipamento. E foi assim, dos 12 para os 13 anos, que aprendi a bordar", comenta.

Val conta que foi um processo lindo, pois aprendeu na escolinha de bordado em Ibitinga. "Minha professora foi uma senhora chamada Rosa Martins Coelho, se não me engano. Ela já não está mais entre nós, infelizmente, mas eu a conheci até a fase adulta e tivemos uma amizade". A loja vendia os equipamentos e as pessoas aprendiam a manuseá-los no local. Já encantado pela arte, Val passou a prestar serviço para donos de salões de bordado, entrando com a mão de obra.

Ao ser perguntado sobre como o bordado mudou sua vida, Valdecir comenta que sempre teve curiosidade de saber como as coisas eram feitas. Além disso, destaca o fator terapêutico do bordado. "Chega a ser algo incrível. É emocionante falar que, muitas vezes, com problemas sérios para resolver ou preocupações, nós nos sentamos para fazer aquele trabalho manual e aquilo, de certa forma, nos relaxa. Faz com que tenhamos concentração e um despertar até para a solução de problemas enquanto realizamos trabalhos manuais", pontua.

Além disso, a arte transformou a vida dos bordadeiros da cidade, que até a década de 80 não eram reconhecidos como categoria profissional. "Eu estava com 17 para 18 anos quando criamos a Associação de Bordadeiras, porque queríamos melhoria de vida. Trabalhávamos nas fábricas que não eram chamadas de fábricas, mas de salões de bordado. Nesses locais, simplesmente fazíamos o bordado para o proprietário. Não tínhamos reconhecimento de funcionários".

Ele conta que recebiam salário mensal ou por peça produzida. "Eu tirava ali o mínimo. Na época, nem se falava em salário-mínimo. Mas, de 1985 até 1988, houve um movimento em Ibitinga que levou à criação da Associação das Bordadeiras, e eu fiz parte desse processo".

"Com 18 anos completos, pude fazer parte da diretoria. Essa associação, um ou dois anos depois, conseguiu a carta sindical, e aí a nossa vida mudou. O Ministério do Trabalho veio a Ibitinga e catalogou as profissões, atribuindo um código para cada função: o riscador, o cortador, a bordadeira, a desfiadeira, a crivadeira. Cada um passou a ser profissional e poderia ser registrado em carteira", relata.

Com a profissionalização, Valdecir e outros moradores passaram a ser funcionários formais. Os salões se tornaram empresas, com a necessidade de abrir um CNPJ, o que transformou a cidade. "Essa arte, que começou no seio familiar há muitos anos, transformou a vida das pessoas e trouxe reconhecimento profissional". Val trabalhou bordando até os 21 anos. Depois, tornou-se funcionário público na área da saúde como motorista de ambulância, mas a paixão pelo bordado permaneceu.

Ele ressalta que o bordado é o grande atrativo para os turistas. "Ibitinga não vive mais sem turismo. Enquanto cidadão ibitinguense, enxergo o turismo como essencial e propulsor dessa máquina. Como artesão, o turismo é a válvula que impulsiona a criatividade desta cidade".

"A presença do turista é indispensável para a manutenção do título de estância turística, para o reconhecimento como Capital Nacional do Bordado e do Enxoval, e, principalmente, para a sobrevivência do nosso povo. O turista que vem até Ibitinga para fazer compras, para revender ou para passear; que vem conhecer o trabalho dos nossos artesãos, comprar um enxoval ou um presente, é o nosso diamante. É a pedra preciosa que Ibitinga deve cativar", destaca.

Nesse sentido, Valdecir ressalta que a cidade realizou a 50ª Feira do Bordado de Ibitinga, iniciada em 1974. Esta edição, de acordo com a Câmara Produtiva do Bordado (CPL) de Ibitinga, atraiu um público de aproximadamente 180 mil pessoas ao Pavilhão Permanente de Exposições. Durante os dez dias de evento, a movimentação financeira alcançou a marca de cerca de R$ 100 milhões, movimentando os setores de turismo, hotelaria, gastronomia e comércio regional, de acordo com a Prefeitura de Ibitinga.

Sobre o turismo de experiência, Valdecir comenta que é um setor com grande potencial. "Quem vem para Ibitinga sai satisfeito e querendo voltar, porque a variedade de produtos vai muito além das vitrines digitais. O turista vem pela experiência de conhecer o bordado. Muitas vezes, o contato pessoal com o vendedor faz com que ele leve mais do que pretendia inicialmente".

Uma história toda bordada pela arte

Nereide Branco Trofino tem 84 anos e é natural de Ibitinga. Sua história com o bordado começou na infância. "Tive a oportunidade de estudar por dois anos na Escola Artesanal de Ibitinga, onde aprendi a arte do bordado à mão e dei os primeiros passos em uma paixão que levaria para toda a vida".

"Depois de um período bordando à mão, aos 13 anos comecei a usar a máquina da minha mãe. Esse mesmo equipamento me acompanha até hoje", explica D. Nereide, conhecida como a bordadeira mais tradicional de Ibitinga. Ela conta que é uma máquina simples, de pedal, sem motor, que, mesmo com o passar dos anos, continua sendo a fiel companheira de seu trabalho.

"Cada ponto bordado carrega um pouco da minha história, da dedicação e do amor por esse ofício. Mais do que uma profissão, o bordado tornou-se parte da minha identidade, unindo tradição, perseverança e paixão em cada peça que produzo", comenta.

Quando questionada sobre como essa arte mudou sua vida, ela lembra que, ainda muito jovem, aos 13 anos, já conseguia se sustentar e ajudar os pais nas despesas da casa. "Depois que me casei, o bordado continuou sendo uma importante fonte de renda. Com o passar dos anos, ampliei meu trabalho, adquiri máquinas industriais e contei com outras bordadeiras trabalhando comigo. Assim, atuei como empresária por muitos anos", destaca.

Para ela, a maior contribuição do bordado foi a oportunidade de voltar a estudar aos 28 anos. "Graças a essa profissão, concluí o ensino fundamental e o ensino médio, e realizei o sonho de cursar a universidade. Mais do que uma profissão, o bordado abriu caminhos, proporcionou independência financeira e tornou possíveis conquistas que marcaram toda a minha trajetória".

Atualmente, muitas pessoas, inclusive jovens, estão procurando atividades manuais como o bordado. Para quem quer começar, D. Nereide explica que o bordado é muito mais do que uma técnica; é uma arte que ensina paciência, dedicação e amor pelos detalhes. "Para os iniciantes, minha mensagem é: não desistam diante das dificuldades. Todo bordado bonito começou com os primeiros pontos. Com prática, perseverança e vontade de aprender, cada pessoa desenvolve seu próprio estilo. Além de proporcionar satisfação pessoal, o bordado pode se transformar em uma profissão e em uma importante fonte de renda, como aconteceu comigo. É uma arte que preserva tradições", finaliza.