O Fies Empreendedor é um novo programa que oferece crédito facilitado para estudantes que concluíram o ensino superior com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e mantiveram as parcelas em dia. O objetivo é ajudar esses formandos a abrir o próprio negócio, unindo a formação acadêmica com o empreendedorismo. O programa tem juros baixos e prazos alongados, e começa a ser contratado em agosto de 2026.
O Brasil tem uma vocação empreendedora que impressiona. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, feito pela Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (Anegepe) com o Sebrae, mostram que 31,6% dos adultos estão envolvidos em alguma atividade empreendedora e que 42,5 milhões de pessoas pretendiam abrir um negócio nos três anos seguintes. Isso coloca o país em segundo lugar no mundo em número de empreendedores potenciais, atrás apenas da Índia.
Além disso, as micro e pequenas empresas representam 95% dos negócios no Brasil, são responsáveis por 26,5% do PIB e geraram 8 em cada 10 novas contratações formais em 2025. Somos, sem exagero, uma nação que empreende. No entanto, ainda falta uma cultura sólida que conecte a formação acadêmica ao ato de empreender de forma estruturada.
- 31,6% dos adultos brasileiros estão envolvidos em empreendedorismo.
- 42,5 milhões de pessoas querem abrir um negócio nos próximos três anos.
- Micro e pequenas empresas geram 26,5% do PIB brasileiro.
- O Fies Empreendedor oferece juros de cerca de 11% ao ano.
- As contratações começam em 10 de agosto de 2026 pelo Banco do Brasil e Caixa.
O que é o Fies Empreendedor
É nesse cenário que a criação do Fies Empreendedor, formalizada pela Medida Provisória nº 1.373, de 29 de junho de 2026, e regulamentada pela Resolução CMN nº 5.325/2026, ganha um significado estratégico. Mais do que uma nova linha de crédito, trata-se do primeiro passo para reconhecer que o diploma pode ser o ponto de partida para um negócio de sucesso. A proposta é simples e transformadora: estudantes que usaram o Fies e mantiveram as últimas 36 parcelas em dia, sem renegociação, podem acessar uma linha de crédito especial para empreender.
Vantagens do programa
Entre as vantagens, destacam-se os juros baixos, cerca de 11% ao ano, e prazos longos para pagamento. Os critérios finais de elegibilidade ainda serão definidos pelo Ministério da Fazenda, mas a previsão é que as contratações comecem em 10 de agosto, pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal. Na prática, o país oferece ao jovem que se formou e honrou seus compromissos uma segunda chance: transformar seu conhecimento em um negócio próprio.
Mudança de mentalidade
O mais importante não é apenas o desenho financeiro, mas a mudança de mentalidade que essa política pública inaugura. Historicamente, o financiamento estudantil era visto como um instrumento de acesso, que terminava na formatura. Agora, o Fies passa a olhar também para o depois. Reconhece que o ex-aluno é um ativo econômico e que sua trajetória merece apoio contínuo. Empreender é uma forma legítima de transformar conhecimento em impacto social, geração de emprego e desenvolvimento regional.
Desafios do empreendedorismo no Brasil
Essa mudança conversa diretamente com um dado preocupante: segundo o IBGE, seis em cada dez empresas brasileiras não completam cinco anos de atividade. As causas são conhecidas: falta de planejamento financeiro, gestão amadora, dificuldade de acesso a crédito e ausência de conhecimentos de administração. Países com empreendedorismo mais forte são aqueles que integram universidades e empresas, formando profissionais preparados para gerir, inovar e arriscar com método.
Papel das instituições de ensino
O Fies Empreendedor também cria uma responsabilidade para as instituições de ensino superior privadas. Se o ex-aluno terá acesso facilitado a crédito, cabe a elas garantir que ele chegue à formatura preparado para usar bem esse recurso. Isso significa fortalecer a educação empreendedora ao longo de toda a graduação, com programas de mentoria, incubadoras acadêmicas, aceleradoras e parcerias com o setor produtivo. Formar vai além de entregar um diploma: é entregar autonomia e capacidade de construir o próprio caminho.
Experiência e propósito
Minha convicção é absoluta. A experiência de fundar e desenvolver instituições de ensino, ao longo de mais de três décadas, me ensinou que a educação transforma quando encontra propósito, e o empreendedorismo é um dos propósitos mais poderosos. Cada jovem que abre seu próprio negócio carrega consigo o conhecimento técnico e a chance de gerar empregos, fortalecer sua comunidade e transformar sua vida e a de sua família.
Simbolismo da iniciativa
Também é preciso reconhecer o simbolismo da iniciativa. Ao vincular o crédito à adimplência, o Estado envia uma mensagem clara sobre valores como responsabilidade, planejamento e cumprimento de compromissos. Quem honrou sua parte no contrato tem direito a novas oportunidades. Em um país onde a cultura de responsabilidade financeira precisa ser fortalecida, isso é um avanço positivo, tanto econômico quanto educacional.
Limitações e futuro
O Fies Empreendedor não vai resolver sozinho todos os desafios do empreendedorismo brasileiro. Precisamos de um ambiente regulatório mais simples, de uma reforma tributária favorável ao pequeno negócio, de educação financeira desde a escola básica e de incentivo à inovação. Mas o programa tem o mérito raro de conectar, em uma única política pública, três agendas fundamentais: educação, financiamento e desenvolvimento econômico. E faz isso sem inventar novas burocracias, apenas ressignificando um instrumento que já existe.
Agora, cabe às instituições de ensino superior compreenderem esse movimento como um chamado. Cabe aos estudantes enxergarem, desde o primeiro semestre, que o futuro profissional pode incluir a construção de um negócio próprio. Porque, no fim do dia, formar profissionalmente e formar para o empreendedorismo são, cada vez mais, faces de um mesmo compromisso: construir um Brasil que estuda, trabalha e empreende.

Janguiê Diniz - Diretor-presidente da ABMES


