26 de julho de 2026

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Escritora Nathacha Appanah é um dos destaques internacionais da Flip

Geral Literatura 26/07/2026 08:10 Camila Boehm - Repórter da Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

A autora franco-mauriciana participou da Festa Literária de Paraty e falou sobre seu livro 'Noite no coração', que conta a história de três mulheres que sofrem violência doméstica.

A Festa Literária de Paraty (Flip), na sua 24ª edição, teve uma escolha importante para aumentar a diversidade de lugares e culturas dos convidados, reunindo escritores de diferentes países e histórias de vida.

  • Nathacha Appanah escreveu sobre três mulheres que sofreram violência doméstica.
  • O livro é baseado em histórias reais, incluindo a da própria autora.
  • Duas das personagens foram mortas por seus companheiros.
  • A autora cresceu em uma família de imigrantes, o que influencia sua escrita.
  • A obra mistura relato, romance e reflexão sobre o tempo e a violência.

Um dos destaques é a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah, cujo livro mais recente conta a história de três mulheres que sofrem violência doméstica. A convidada participou de uma mesa do programa principal da Flip nesta sexta-feira (24).

Com uma obra que investiga as violências íntimas e sociais, a escritora define Noite no coração (Bazar do Tempo), traduzido e publicado em mais de 15 países, como uma tentativa de quebrar o silêncio.

As personagens têm origem em histórias reais, sendo uma delas a própria autora. As outras duas foram assassinadas por seus companheiros.

Ela contou que o livro tem elementos não só de um relato, mas também de romance e reflexão.

Tudo isso estava contido neste livro e, sobretudo, havia nele a tentativa de uma escritora de colocar para frente a linguagem e sua própria condição, disse durante o evento.

A autora também contou que, no início da produção da obra, há mais de cinco anos, sabia que se tratava de um livro sobre o tempo.

Eu tinha a impressão de que a única coisa que eu poderia fazer como objetivo literário seria contrair o tempo, fazer com que três mulheres que jamais se encontraram ou conheceram existissem no mesmo lugar, trazer essas três existências para dentro do livro.

Infância e influências

Nascida nas Ilhas Maurício, em uma família de imigrantes indianos que se mudou para a França, Nathacha explicou como a ideia de deslocamento e migração marca sua vida e sua escrita.

O que eu aprendi antes dos deslocamentos, antes do que é deslocamento, é que nenhuma língua é superior às outras. Havia a língua do coração, da intimidade, da escola. Havia a língua que falamos com um vizinho específico, uma língua de sedução, disse.

E todas essas línguas na minha casa, na minha vida, formavam uma espécie de existência. As Ilhas Maurício ficam muito longe de tudo, e nessa casa estranha eu digo estranha, mas era muito bonita eu tinha a impressão de ter o mundo ao meu alcance, concluiu.

A escritora mencionou que morava com seus pais e avós, duas gerações que já tinham diferenças importantes entre elas e que marcaram sua vivência.

Meus avós eram pessoas que nasceram e viveram em uma plantação de cana-de-açúcar na era colonial. Eles falavam uma língua indiana, que é minha língua materna.

E, ao lado dos meus pais, que eram pessoas instruídas, que frequentavam a escola, que trabalhavam, eu tinha a impressão de viver como em um fio que se estendia entre um passado que eu jamais havia conhecido, mas cujas histórias chegavam até mim porque minha avó contava muitas coisas, ela me falava em várias línguas. Por outro lado, havia meus pais que viviam em uma modernidade voltada para o exterior, para fora, acrescentou.

Na mesma mesa, estava também a brasileira Bethânia Pires Amaro, que em Ressalga (Record) traz o tema da violência de gênero, em uma narrativa sobre três gerações de mulheres na Bahia.

Para contar a vida das personagens, a escritora disse que uma das ferramentas é usar o realismo mágico.

O realismo mágico acaba trazendo um olhar muito rico e muito particular que permite uma aproximação um pouco mais indireta. E que vai brincar um pouco também com essa imaginação do leitor, vai mostrar, por exemplo, essas mulheres não reduzidas àquelas violências, mas como seres que realmente estão florescendo, disse.