O HPV, vírus conhecido por causar câncer de colo do útero, agora também está por trás de um aumento nos casos de câncer de garganta. Antes, essa doença era mais comum em homens mais velhos que fumavam e bebiam muito. Hoje, pessoas mais jovens, que nunca fumaram, também estão sendo diagnosticadas. A notícia explica essa mudança, os sintomas para ficar de olho e a importância da vacinação e do diagnóstico precoce para aumentar as chances de cura.
Durante décadas, os cânceres de boca, garganta e laringe estavam associados a um perfil típico: homens acima dos 50 anos, fumantes e consumidores frequentes de bebidas alcoólicas. Mas essa realidade tem mudado e cada vez mais especialistas diagnosticam pacientes sem histórico de tabagismo ou consumo exagerado de álcool.
Por trás dessa transformação está um personagem já conhecido da Saúde Pública: o Papilomavírus Humano (HPV). Tradicionalmente associado ao câncer do colo do útero, o vírus também tem sido apontado como fator de risco para o desenvolvimento de tumores na região da boca e da garganta, especialmente na orofaringe, por meio da infecção causada por subtipos específicos.
- O HPV está causando um novo tipo de câncer de garganta, diferente do que víamos antes.
- Agora, pessoas mais jovens, na faixa dos 40 anos e que nunca fumaram, também estão tendo a doença.
- O principal sintoma é um caroço no pescoço que não dói, mas pode ser confundido com um resfriado.
- O diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento, que pode ser só com radioterapia.
- A vacina contra o HPV, disponível pelo SUS para jovens de 9 a 14 anos, é a melhor forma de prevenção.
"Quando falamos em câncer de orofaringe estamos nos referindo a tumores que surgem em uma região da garganta localizada logo após a cavidade oral, incluindo as amígdalas, a base da língua e o palato mole. E embora ainda predominem os casos relacionados ao tabagismo e ao consumo de álcool, temos acompanhado pacientes em que a infecção pelo HPV aparece como único fator desencadeador associado ao desenvolvimento do tumor. Geralmente são indivíduos mais jovens, com predomínio do sexo masculino, na faixa dos 40 anos, e sem déficits nutricionais", explica Dra. Beatriz Godoi Cavalheiro, cirurgiã de cabeça e pescoço do IBCC Oncologia.
Um estudo publicado este ano na revista BMC Cancer corrobora a análise da especialista. Ele identificou que os tumores de cabeça e pescoço associados ao HPV estão concentrados principalmente na orofaringe e fazem parte de um cenário em transformação, que vem sendo estudado em diferentes populações ao redor do mundo.
"No Brasil, a pesquisa da associação dessa infecção com os tumores de cabeça e pescoço ainda não é rotineira porque demanda investimento adicional e nem sempre é realizada, o que implica em subnotificações de casos", aponta a médica.
Quando a doença não apresenta o perfil esperado
Segundo a especialista do IBCC Oncologia, essa mudança no perfil dos pacientes também ajuda a explicar por que muitos casos ainda demoram a ser diagnosticados. Como não se enxergam dentro do grupo de risco tradicional, muitas pessoas acabam ignorando sinais de alerta ou atribuindo os sintomas a problemas menos graves.
"Existe a falsa sensação de segurança em quem nunca fumou. Muitas pessoas acreditam que não têm os fatores de risco para o desenvolvimento desse tipo de câncer e acabam postergando a investigação de sintomas persistentes", alerta Cavalheiro.
A experiência do médico anestesiologista Patrick Laporte, de 47 anos, ilustra essa mudança de perfil. Diagnosticado com câncer de orofaringe em janeiro de 2025, ele não fumava e apenas consumia bebida alcoólica socialmente. O único sintoma que apresentou foi dificuldade para engolir, o que o fez procurar um cirurgião de cabeça e pescoço.
"Achei que fosse um cálculo na amígdala, nunca imaginei que pudesse ser um câncer. Como não me encaixava no perfil que a gente sempre ouviu falar, o tumor realmente não passou pela minha cabeça. Hoje vejo como reconhecer os sinais precocemente fez toda a diferença", contou.
A investigação confirmou que o tumor de Patrick estava associado ao HPV. Graças ao diagnóstico precoce, ele foi tratado exclusivamente com radioterapia, sem necessidade de cirurgia, e hoje segue apenas em acompanhamento médico.
Além da disfagia, ou seja, a dificuldade para engolir, os principais sinais de alerta incluem o aumento dos linfonodos no pescoço, feridas na boca que não cicatrizam, dor para engolir, rouquidão persistente, alteração no timbre da voz e sensação de corpo estranho na garganta.
A médica explica que os tumores associados ao HPV também podem se manifestar de maneira diferente dos casos tradicionalmente relacionados ao tabagismo e ao álcool. "Em muitos pacientes, o primeiro sinal é o aumento de um gânglio na lateral do pescoço, sem dor e, muitas vezes, sem sintomas na boca ou na garganta, como dificuldade para engolir. Em alguns casos, essas metástases são císticas e podem ser confundidas com linfonodos aumentados por infecções comuns, como resfriado. Isso pode retardar a investigação adequada", explica.
Independentemente da causa do tumor, o tratamento segue os mesmos princípios oncológicos. "Os tumores desencadeados exclusivamente pela infecção pelo HPV podem estar associados ao prognóstico mais favorável, desde que sejam diagnosticados precocemente e tratados de forma adequada", explica a Dra. Beatriz Godoi Cavalheiro.
O que a Ciência está descobrindo sobre essa transformação
A mudança observada nos consultórios acompanha o que a Ciência vem registrando ao redor do mundo. Uma revisão sistemática publicada na ScienceDirect neste ano analisou 183 estudos realizados em 35 países, reunindo dados de mais de 34 mil pacientes com câncer de orofaringe. Os resultados confirmam que o HPV16 continua sendo o principal subtipo viral associado à doença e mostram que o perfil dos vírus envolvidos nesses tumores vem se modificando ao longo do tempo, reforçando a importância da vacinação e do monitoramento epidemiológico.
Outra revisão científica publicada este ano, no PubMed, destaca que os tumores de orofaringe relacionados ao HPV já apresentam características diferentes daqueles tradicionalmente associados ao cigarro e ao consumo de álcool. Além de diferenças biológicas, esses casos possuem comportamento clínico e prognóstico próprios, o que tem levado especialistas a ampliar a discussão sobre diagnóstico precoce, prevenção e identificação da infecção pelo HPV como parte da investigação desses pacientes.
Para os especialistas, a principal lição é que o câncer de cabeça e pescoço não pode mais ser visto apenas como consequência de hábitos ligados ao consumo de tabaco e à ingestão de álcool. "Os fatores de risco tradicionais se mantêm relevantes, mas hoje sabemos que eles não contam toda a história. O HPV modificou parte do cenário epidemiológico desses tumores e trouxe a necessidade de ampliar o olhar sobre prevenção, vacinação e diagnóstico precoce", afirma a médica.
Além dos hábitos conhecidos e recomendados que incluem não fumar, ingestão moderada de bebidas alcoólicas, cuidados com a higiene e saúde bucais e ingestão de frutas e vegetais, recomenda-se o sexo oral com proteção (camisinha) mas, especialmente, a imunização contra os sorotipos do HPV associados tanto ao câncer genital, como ao do território de cabeça e pescoço.
Vacinação e informação serão fundamentais nos próximos anos
A vacinação contra o HPV ganha ainda mais relevância diante da mudança no perfil dos pacientes. Disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças e adolescentes nas faixas etárias de 9 a 14 anos, ela é considerada uma das principais estratégias para prevenir infecções pelo vírus e, consequentemente, reduzir a incidência de diversos tipos de câncer associados ao HPV. Na rede privada, a imunização pode ser indicada para outras faixas etárias, conforme avaliação médica.
Embora os benefícios da vacinação sejam esperados principalmente a longo prazo, especialistas alertam que o diagnóstico precoce continua sendo a principal ferramenta para aumentar as chances de cura. Neste Julho Verde, campanha de conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço, o recado é claro: a população precisa estar atenta aos sinais da doença, mesmo na ausência dos fatores de risco tradicionais.
"O tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas continuam sendo importantes fatores de risco para o câncer de cabeça e pescoço. No entanto, o crescimento da prevalência dos tumores associados ao HPV mostra que já não podemos limitar a percepção de risco apenas a esse perfil. Quanto mais as pessoas conhecerem os sinais de alerta e entenderem que a doença também pode atingir quem nunca fumou, maiores serão as chances de um diagnóstico precoce e do tratamento bem-sucedido", destaca a cirurgiã de cabeça e pescoço do IBCC Oncologia.

HPV Imagem gerada por IA


