O preço do barril de petróleo Brent subiu 6% e ultrapassou os US$ 100, depois que os houthis atacaram navios da Arábia Saudita no Mar Vermelho. O fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb pode aumentar a inflação e afetar o comércio global de combustíveis.
Após ataques dos houthis, do Iêmen, contra navios da Arábia Saudita no Mar Vermelho, o preço do barril de petróleo voltou a disparar, com aumento de 6% do tipo Brent, chegando a ser vendido a US$ 101 no início da tarde desta quinta-feira (23).
- O preço do petróleo Brent subiu 6% e passou de US$ 100 pela primeira vez em meses.
- Os houthis fecharam o Estreito de Bab el-Mandeb para navios sauditas.
- A Arábia Saudita é um dos maiores produtores de petróleo do mundo.
- O bloqueio pode aumentar a inflação e o preço dos combustíveis no mundo todo.
- A guerra no Oriente Médio já dura cinco meses e afeta o comércio global.
A escalada da guerra no Oriente Médio, com o fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb pelos houthis para navios da Arábia Saudita, vem agravando a situação do comércio global de combustíveis, com potencial de repercutir na inflação em todo o mundo.
A alta ocorre no momento em que o mercado de petróleo acumula cinco meses de redução da oferta, após o início da agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro. As tensões levaram ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transitavam 20% do comércio marítimo de combustíveis.
Após a assinatura do memorando de entendimento entre Irã e EUA, em 17 de junho, o preço do barril de petróleo começou a cair até chegar ao valor mínimo de US$ 70, no dia 1º de julho, menor preço desde o início da guerra. Desde então, o preço do Brent aumentou 42%.
Impacto da guerra no preço do petróleo
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Ticiana Álvares, explicou à Agência Brasil que o fechamento da via do Mar Vermelho para Arábia Saudita tem um impacto muito relevante.
Ela disse que a alternativa da Arábia Saudita para escoar o petróleo com as restrições do Estreito de Ormuz vinha sendo por oleoduto até o Mar Vermelho. Com o fechamento de Bab el-Mandeb, isso não é mais possível.
A especialista lembrou que a Arábia Saudita é um dos maiores produtores globais de petróleo e que o bloqueio ao país árabe deve afetar a oferta do produto para os EUA, que usam o petróleo saudita para fazer combustíveis, como gasolina e diesel.
Ela concluiu que o fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb vai afetar a Europa em cheio, porque a Ásia envia seus produtos para a Europa pelo Mar Vermelho, aumentando muito o preço do frete.
Estima-se que cerca de 10% do comércio marítimo de petróleo passe pelo Estreito de Bab el-Mandeb e pelo Mar Vermelho, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).
Consequências econômicas
O diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), Rodolfo Queiroz Laterza, destacou que a Arábia Saudita deve ter perdas econômicas substanciais.
Ele disse que isso vai agravar as cadeias logísticas de abastecimento no mundo e afetar inúmeras economias de vários países, principalmente aqueles dependentes da importação de petróleo e derivados.
Nova etapa da guerra
O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas, Danny Zahreddine, avalia que a guerra entre Irã e EUA entra em nova etapa com o fechamento da passagem de Bab el-Mandeb pelos houthis.
Ele disse que estamos vivendo um impasse em que, quando os americanos apertam os iranianos, eles vão apertar mais ainda os EUA e seus aliados, e que o fechamento do estreito vai gerar um choque ainda maior na distribuição do petróleo.
Os houthis têm uma aliança com o Irã, enquanto a Arábia Saudita é uma aliada histórica dos EUA, além de ser uma rival regional de Teerã.
O professor Zahreddine acrescentou que não só a Arábia Saudita deve ser afetada, mas todo e qualquer transporte que venha da Europa ou dos EUA e que passe pelo Mar Vermelho e Canal de Suez, ou da China, Ásia, Malásia, Indonésia e Singapura para a Europa ou EUA, porque a rota pelo Bab el-Mandeb é muito mais curta.
Iêmen entra na guerra
Para o historiador Laterza, a guerra de Israel e EUA contra o Irã teve desdobramentos em conflitos até então congelados, como a guerra no Iêmen, cujas hostilidades foram encerradas em um acordo frágil em 2022 intermediado pela China. Os ataques aéreos sauditas ao porto de Sanaa dias atrás levaram a esta resposta firme dos houthis, que possuem plena capacidade de negar o uso do Mar Vermelho e de restringir a navegação no Estreito de Bab el-Mandeb.
Ainda segundo o especialista do GSEC, os houthis têm comprovada capacidade militar no uso de mísseis antinavio, mísseis balísticos, hipersônicos e drones kamikaze.
Ele concluiu que a realidade é bastante desfavorável para a estabilidade dos preços mundiais dos hidrocarbonetos e os impasses estratégicos para os EUA com o envolvimento militar dos houthis vão se agravar.

Reuters/Stringer/Proibida reprodução




