23 de julho de 2026

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Por que ainda achamos normal viver com dor?

Geral Dor 23/07/2026 08:46 Mariana Schamas (cinesiologista e autora)

A cinesiologista Mariana Schamas explica por que tantas pessoas ignoram a dor e a tratam como algo normal, em vez de buscar ajuda. Ela mostra como fatores emocionais, sociais e culturais influenciam a forma como sentimos e lidamos com o desconforto, e como isso pode piorar a saúde.

Vivemos em uma cultura que valoriza o "aguente firme". Resistir ao sofrimento muitas vezes é visto como sinal de força, enquanto pedir ajuda pode ser interpretado como fraqueza. Essa forma de pensar atrasa a prevenção e o tratamento da dor crônica. Muitas pessoas convivem com a dor por anos até buscar ajuda, e, quando ignorada, ela pode deixar de ser apenas um sintoma para se tornar uma doença. Segundo pesquisa da Vital Strategies e Umane, em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), 62% da população deixa de procurar atendimento médico quando precisa. A reflexão aqui é entender por que isso acontece.

  • 62% das pessoas deixam de ir ao médico quando sentem dor, segundo uma pesquisa.
  • A dor é um alerta do corpo, mas muitas vezes a ignoramos e achamos que é normal.
  • Fatores emocionais, como estresse e ansiedade, podem piorar a sensação de dor.
  • A cultura do "aguente firme" faz com que a gente esconda o sofrimento para não parecer fraco.
  • Mudar hábitos e buscar ajuda pode criar novos caminhos no cérebro para aliviar a dor.

O ser humano frequentemente busca soluções rápidas sem refletir sobre por que chegou a adoecer, e se por algum motivo sabe a resposta, acaba normalizando a situação. Diz a si mesmo: "Estou assim porque trabalho muito, estou dolorido porque fiquei muito em pé ou minha cadeira no trabalho é ruim". O desconforto vem e as pessoas querem eliminar a dor o mais rápido possível para voltar a fazer exatamente o que as adoeceu.

O que realmente causa a dor

A dor é um alerta do organismo de que algo precisa de atenção. No entanto, aprendemos desde cedo a dar significados diferentes a ela. Em alguns contextos, a dor representa coragem, superação ou mérito; em outros, é motivo de vergonha ou fraqueza. Nossa forma de sentir e reagir à dor é influenciada pelas experiências de vida, pelas crenças familiares, pela cultura e pela sociedade.

Dor: um problema de corpo e mente

Hoje sabemos que a dor é um fenômeno biopsicossocial. Ela resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Não é apenas uma resposta do corpo, mas também da maneira como interpretamos nossas experiências e do ambiente em que vivemos.

Quantas vezes você já sentiu dor nas costas e pensou: "É normal, fiquei muito tempo sentado" ou "Carreguei peso demais" Em vez de refletirmos sobre o que precisa mudar, costumamos aceitar a dor como parte inevitável da rotina. Repetimos os mesmos hábitos e, com eles, o sofrimento.

Como o ambiente influencia a dor

O contexto também modifica nossa resposta à dor. Muitas pessoas escondem o desconforto no trabalho para não parecerem frágeis, mas em casa expressam livremente o que sentem. Outras fazem exatamente o contrário. Isso mostra que a dor não depende apenas do corpo, mas também dos significados que atribuímos a ela e das relações que construímos ao longo da vida.

Isso não significa que toda dor deva ser evitada. Existem dores associadas ao crescimento, ao aprendizado e à superação. O problema é transformar o sofrimento persistente em algo "normal" e deixar de ouvir os sinais do corpo.

Como mudar essa relação com a dor

Mudar essa relação exige consciência. Nosso cérebro tende a repetir comportamentos familiares, mesmo quando eles nos fazem mal. Mas ele também é capaz de aprender novos caminhos. Ao questionarmos crenças, modificarmos hábitos e buscarmos ajuda quando necessário, criamos novas conexões neurais e ampliamos nossa capacidade de cuidar de nós mesmos. Talvez a verdadeira força não esteja em suportar a dor em silêncio, mas em reconhecer quando ela deixou de ser um desafio passageiro e passou a ser um convite para a mudança.