Um novo relatório da ONU mostra que o número de pessoas com fome no mundo caiu pelo terceiro ano seguido, chegando a 645 milhões em 2025. A África é o continente mais afetado, com 1 em cada 5 pessoas passando fome. O custo de uma alimentação saudável ainda é muito alto para bilhões de pessoas.
A população mundial que passa fome diminuiu pelo terceiro ano seguido. Em 2025, 645 milhões de pessoas estavam nessa situação, o que representa 14 milhões a menos do que em 2024 e 43 milhões a menos do que em 2022.
- A fome no mundo caiu pelo terceiro ano seguido, mas ainda atinge 645 milhões de pessoas.
- A África é o continente mais critico: 1 em cada 5 pessoas (20%) passa fome por lá.
- Mais de 2,6 bilhões de pessoas não têm dinheiro para comprar uma comida saudável todos os dias.
- A fome afeta mais as mulheres e as pessoas que moram no campo.
- O custo de uma dieta saudável subiu e já é de 4,28 dólares por pessoa por dia.
Essas informações estão no relatório 'O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026' (SOFI). Ele foi feito por cinco organizações: a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o FIDA (Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola), a OMS (Organização Mundial da Saúde), o PMA (Programa Mundial de Alimentos) e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).
A avaliação global da fome mostra que 7,8% da população mundial passou fome em 2025. Em 2023, esse número era de 8,6%. Em 2024, caiu para 8,1%.
Os dados foram divulgados em uma terça-feira, dia 21, na sede da FAO, em Roma, na Itália, durante a 30ª Sessão do Comitê de Agricultura da organização.
Para as pessoas que estavam no evento, o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, disse que é preciso agir mais rápido.
"Acabar com a fome e tornar as dietas saudáveis acessíveis exige compromisso político, investimento contínuo e políticas que facilitem esse processo."
Em um discurso no mesmo evento, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil, Fernanda Machiaveli, disse que a fome pode ser evitada. "Quando os governos colocam como prioridade o combate à fome, à pobreza e à desigualdade, é possível ter resultados concretos."
Insegurança alimentar no mundo
O relatório global de 2026 também mostra que houve uma melhora no número de pessoas que vivem em situação de insegurança alimentar moderada ou grave.
Essa situação de extrema dificuldade acontece quando as pessoas não comem quantidade suficiente de alimentos para uma vida saudável ou comem alimentos de baixa qualidade nutricional.
A FAO estima que 25,8% da população mundial (cerca de 2,1 bilhões de pessoas) vivia em situação de insegurança alimentar moderada ou grave até 2025. Esse número é menor do que os 27,1% de 2024 e os 28,7% de 2020. Isso significa 86 milhões de pessoas a menos do que em 2024 e 135 milhões a menos do que em 2020, mas ainda é maior do que os números antes da pandemia.
Diferenças entre os continentes
Apesar da queda contínua nos números da fome, a recuperação não é igual em todos os lugares. O principal relatório anual sobre fome no mundo mostra que, enquanto a Ásia, a América Latina e o Caribe estão melhorando aos poucos nos últimos três anos, a África é o continente com o maior número absoluto de pessoas com fome. Isso acontece em um momento de crescimento rápido da população, segundo a FAO. Estima-se que uma em cada cinco pessoas na África, ou seja, 20% da população, passou fome em 2025. Isso corresponde a cerca de 309 milhões de pessoas. Em 2024, esse número foi um pouco maior: 20,3% da população.
Quando se olha para a insegurança alimentar moderada ou grave, em 2025, mais da metade da população africana (56,6%) vivia nessa situação. Esse número é de 22,9% na América Latina e Caribe, 8,7% na América do Norte e Europa e 20,3% na Ásia.
Quem são os mais afetados
A insegurança alimentar também é maior nas áreas rurais do que nas áreas urbanas e nas periferias. As mulheres continuam sendo as mais afetadas, embora a diferença entre homens e mulheres tenha diminuído um pouco em 2025.
No mundo todo, apenas 62,7% das mulheres entre 15 e 49 anos tiveram uma alimentação com a diversidade mínima para uma vida saudável entre 2021 e 2025. Isso significa que cerca de uma em cada três mulheres no planeta não conseguiu isso.
Na África, o número de mulheres que não têm uma alimentação variada é o pior: 43%. Na Ásia, esse número é de 65%, e na América Latina e Caribe, 77,5%.
O melhor índice de diversidade alimentar entre mulheres foi registrado na América do Norte e Europa, com 79,8%.
Ritmo lento de melhora
Os avanços globais na nutrição de mães e crianças são lentos e pequenos. Isso coloca em risco o cumprimento das metas internacionais para 2030.
Apenas 30,8% das crianças entre 6 e 23 meses no mundo comem uma alimentação com a variedade mínima necessária.
Entre os principais sinais de alerta estão:
Desnutrição infantil grave: 150 milhões de crianças menores de 5 anos ainda sofrem com atraso no crescimento.
Anemia em mulheres: a quantidade de mulheres em idade fértil (15 a 49 anos) com anemia está aumentando no mundo todo.
Obesidade em adultos: o número de adultos obesos subiu de 12,1% (em 2012) para 16,2% (em 2024). Isso significa que a meta global de parar esse crescimento até 2025 não foi cumprida.
Entre os poucos pontos positivos, o relatório destaca o aumento da amamentação exclusiva em todas as regiões do mundo com dados disponíveis e a diminuição do atraso no crescimento infantil na África.
O custo de uma alimentação saudável
O relatório mostra que os custos continuam sendo um grande desafio para alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 2, que é acabar com a fome, garantir a segurança alimentar e melhorar a nutrição até 2030.
O número de pessoas que não podem pagar por uma alimentação saudável no mundo caiu de 2,97 bilhões (37,4% da população) em 2021 para 2,69 bilhões (32,7%) em 2025.
A situação é pior na África. Em 2025, 66,6% da população do continente não tinha dinheiro para comprar uma dieta saudável. Esse número é mais do que o dobro do registrado na Ásia, América Latina e Caribe.
Para fazer esse cálculo, a FAO usa a Paridade do Poder de Compra (PPC). Esse método converte o dinheiro de cada país para o dólar, ajustando as diferenças de custo de vida. Também leva em conta o tamanho da população, a renda das pessoas e o custo médio de uma cesta de alimentos saudáveis. Assim, é possível comparar o poder de compra entre os países.
Com essa metodologia, em 2025, o custo médio de uma dieta saudável no mundo subiu para 4,28 dólares por pessoa por dia. Esse valor era de 3,44 dólares em 2021 e de 2,94 dólares em 2017. A América Latina e o Caribe tiveram o maior custo: 4,91 dólares por pessoa por dia.
O relatório destaca que é urgente enfrentar os problemas estruturais que mantêm o custo de uma dieta saudável muito alto.
Para as organizações que fizeram o relatório, reduzir o custo da alimentação saudável exige políticas específicas que aumentem a oferta de alimentos nutritivos e, ao mesmo tempo, diminuam os custos em toda a cadeia de produção da agricultura.
"Isso inclui investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, irrigação e cadeias de frio, além de reformas nos subsídios, facilitação do comércio e marcos regulatórios", diz o texto do relatório.
Para a ministra Fernanda Machiaveli, o trabalho ainda está longe de terminar, mas os governos podem mudar a realidade de quase um terço da humanidade que ainda não tem acesso a uma alimentação saudável.
"O custo dos alimentos saudáveis continua sendo um dos maiores obstáculos para garantir o direito humano à alimentação adequada. A contribuição mais importante desta edição do SOFI é ir além de descrever o problema. O relatório nos ajuda a entender por que as dietas saudáveis continuam caras", disse a ministra.
Fernanda Machiaveli também destacou que a instabilidade dos preços dos alimentos continua sendo uma das maiores ameaças ao acesso à alimentação saudável, especialmente para as populações mais vulneráveis.
O que esperar para o futuro
O relatório anual também faz projeções sobre a fome no mundo para os próximos cinco anos. Ele leva em conta fatores que podem piorar a situação.
Entre os mais importantes estão os efeitos dos conflitos no Oriente Médio e de eventos climáticos extremos, como o El Niño em 2026 e 2027. Esses eventos não são considerados nas projeções e podem aumentar ainda mais os problemas.
Outro ponto levantado foi a redução da ajuda oficial de governos para o desenvolvimento e do financiamento humanitário. Isso pode comprometer o progresso que foi alcançado no combate à fome no mundo nos últimos anos.
O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, disse que é preciso fortalecer os sistemas de produção de alimentos em todas as partes do mundo.
"Crises recentes, desde desastres naturais como a pandemia de covid-19 até desastres causados pelo homem, como a guerra na Ucrânia, a crise de Gaza e a recente interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, mostraram tanto a resistência dos sistemas agroalimentares quanto a necessidade de fortalecê-los ainda mais para atender melhor às pessoas mais vulneráveis do mundo, agricultores e consumidores", concluiu.

Foto: FAO/Albert Gonzalez Farran


