O ensino superior no Brasil ultrapassou 10 milhões de alunos pela primeira vez, mas a evasão nos cursos a distância chega a 41,6%. Entenda como a Geração Z está forçando as faculdades a se adaptarem com aulas mais práticas, flexíveis e conectadas ao mercado de trabalho.
O ensino superior brasileiro ultrapassou pela primeira vez a marca de 10 milhões de estudantes em 2024, segundo o Inep. A educação a distância (EAD) passou a representar 50,7% das matrículas de graduação no país. Esse avanço ampliou o acesso, mas também expôs um problema que pressiona universidades, edtechs e grupos educacionais: a evasão nos cursos EAD chegou a 41,6% no mesmo ano, de acordo com o Mapa do Ensino Superior 2026, do Instituto Semesp.
- O número de alunos no ensino superior passou de 10 milhões pela primeira vez em 2024.
- Metade das matrículas são em cursos a distância, mas 41,6% dos alunos desistem.
- A Geração Z quer aulas práticas, flexíveis e que ajudem a conseguir emprego.
- 74% dos jovens já usam inteligência artificial no trabalho, segundo pesquisa da Deloitte.
- Instituições que não se adaptarem podem perder alunos e ter problemas de reputação.
Para Tiago Zanolla, professor com mais de 15 anos de atuação no ensino e fundador da UFEM Educacional, os números indicam que o setor venceu parte da barreira de entrada, mas ainda precisa resolver a permanência do aluno.
O novo perfil de estudante, especialmente entre jovens da Geração Z, passou a cobrar formações mais objetivas, flexíveis e conectadas à rotina profissional. A decisão por um curso agora considera tempo disponível, custo total, possibilidade de estudar sem deslocamento, retorno para a carreira e clareza sobre a aplicação do conteúdo. Nesse contexto, modelos muito teóricos, pouco interativos ou distantes das demandas do trabalho tendem a perder força.
"No comportamento da Geração Z, o problema não é o estudo, mas a sensação de investir tempo em conteúdos sem conexão com a vida prática. Para esse aluno, precisa estar claro por que aquela disciplina importa, onde ela será aplicada e de que forma pode ampliar sua empregabilidade", afirma Zanolla.
A transformação ocorre no mesmo momento em que o mercado de trabalho exige atualização mais rápida. Pesquisa global da Deloitte com jovens da Geração Z e millennials, divulgada em 2026, mostra que 74% dos entrevistados já usam inteligência artificial em algum grau no dia a dia profissional. O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das habilidades essenciais dos trabalhadores devem mudar até 2030. Para a educação, isso significa que a formação precisa acompanhar ciclos mais curtos de aprendizagem, revisão e aplicação.
Quando bem estruturada, essa mudança traz vantagens diretas para os alunos. A flexibilidade permite conciliar estudo, trabalho e renda. A personalização ajuda a identificar lacunas de aprendizagem. O uso de tecnologia pode apoiar revisões, simulados, planos de estudo e explicações alternativas. A atualização constante, por sua vez, reduz o risco de concluir uma formação desconectada das exigências profissionais.
"Mais do que assistir a aulas, esse estudante busca rota, método e acompanhamento. Quando a instituição mostra o caminho, mede a evolução e conecta o conteúdo ao desempenho, aumentam as chances de permanência até a conclusão", diz.
A escolha entre EAD e presencial também passou a exigir mais critério. Na avaliação de Zanolla, o primeiro ponto é entender o perfil do aluno. Pessoas com autonomia, rotina apertada, disciplina para estudar sozinhas e necessidade de reduzir deslocamentos tendem a se beneficiar mais do ensino a distância. Já estudantes que precisam de convivência diária, prática supervisionada frequente ou cobrança externa mais intensa podem encontrar no presencial um ambiente mais adequado.
O custo deve entrar nessa conta de forma ampla. Além da mensalidade, a decisão precisa considerar transporte, alimentação fora de casa, materiais, tempo de deslocamento e impacto na rotina de trabalho. No EAD, a economia pode ser relevante, mas só faz sentido quando existe organização. Sem agenda, ambiente adequado e constância, a flexibilidade pode virar acúmulo de aulas, atraso em atividades e desistência.
"Não existe uma modalidade melhor para todo mundo. Existe a modalidade mais compatível com a rotina, o objetivo e o grau de autonomia de cada estudante. O erro é escolher apenas pelo preço ou pela promessa de facilidade", afirma Zanolla.
Para estudar online com mais resultado, o especialista recomenda transformar liberdade em método. Horários fixos durante a semana, local adequado, metas por disciplina, revisões curtas e acompanhamento da evolução ajudam a reduzir a sensação de isolamento. Ferramentas de inteligência artificial podem ser usadas para criar resumos, testar conhecimento e explicar conteúdos de formas diferentes, mas não substituem disciplina, curadoria nem orientação pedagógica.
O alerta para as instituições é econômico e educacional. A captação de alunos exige investimento em marketing, tecnologia e relacionamento. Quando uma parcela relevante abandona o curso, a perda não se limita à mensalidade. Há impacto sobre reputação, previsibilidade de receita e percepção de qualidade. Instituições que ignorarem a mudança de comportamento podem continuar atraindo matrículas, mas terão mais dificuldade para reter, formar e gerar resultado percebido pelo estudante.
Na avaliação de Zanolla, inovação não pode ser tratada apenas como adoção de plataformas ou ferramentas digitais. Aulas longas, pouco feedback, jornadas confusas e excesso de teoria podem continuar gerando abandono, mesmo em ambientes online. A revisão precisa alcançar linguagem, formato, acompanhamento e conexão com empregabilidade.
"O conteúdo precisa continuar sério, mas não precisa ser distante. Existe uma diferença entre profundidade e linguagem inacessível. A educação que conseguir unir rigor, aplicabilidade e boa experiência terá mais chance de manter o aluno até o fim", diz.
Com cerca de 15 anos de atuação como professor de concursos públicos, Zanolla afirma que a mudança já aparece também nos cursos preparatórios, técnicos e de qualificação profissional. O estudante quer saber o que estudar primeiro, onde está errando, como medir avanço e de que forma transformar informação em desempenho.
Para os alunos, a transformação pode significar menos desperdício de tempo, mais autonomia e formação alinhada às exigências profissionais. Para as instituições, representa uma linha divisória entre crescimento sustentável e aumento da evasão.
"A grande fronteira da educação brasileira não será só colocar mais gente dentro da plataforma ou da sala de aula. Será fazer com que essas pessoas permaneçam, aprendam e consigam usar esse conhecimento no trabalho e na vida", afirma Zanolla.

Tiago Zanolla, especialista em educação




