Pesquisa mostra que mulheres negras, pardas e indígenas têm menos chances de completar todas as consultas de pré-natal. Especialista da FEBRASGO explica que o racismo, a pobreza e a falta de informação são os principais motivos para essa diferença.
Apesar dos avanços no acesso ao pré-natal no Brasil, mulheres negras ainda enfrentam grandes dificuldades para começar e continuar o acompanhamento da gravidez. Diferenças no acesso aos serviços de saúde, desigualdades sociais e o racismo são os principais motivos que afetam a qualidade do atendimento e aumentam os riscos para a mãe e o bebê.
Uma pesquisa publicada na revista científica International Journal for Equity in Health analisou mais de 2,5 milhões de nascimentos no Brasil em 2023. O estudo mostrou que 99,4% das gestantes fizeram pelo menos uma consulta de pré-natal, mas apenas 67,4% conseguiram completar oito ou mais consultas, que é o número recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso mostra que o maior problema não é começar o pré-natal, mas sim continuar até o fim.
- Mulheres pretas têm 33,9% de chance de abandonar o pré-natal antes de oito consultas, enquanto as brancas têm 24,9%.
- Quanto menor a escolaridade da mulher, menor a chance de completar o pré-natal.
- Adolescentes descobrem a gravidez mais tarde e, por isso, fazem menos consultas.
- Mulheres negras têm 23% menos chances de receber orientações sobre o parto.
- O racismo institucional é uma barreira importante para o acesso à saúde.
As desigualdades foram maiores entre mulheres negras, pardas, indígenas, adolescentes, com baixa escolaridade e que moram na Região Norte. A taxa de abandono do pré-natal foi de 33,9% entre mulheres pretas, 35,4% entre pardas e 24,9% entre brancas. A pesquisa também mostrou que quanto maior o nível de estudo, maior a chance de fazer todas as consultas.
Segundo a Dra. Lilian de Paiva Rodrigues Hsu, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da FEBRASGO, essas diferenças são causadas por fatores sociais, econômicos e estruturais. Ela explica que cerca de 80% das mulheres negras dependem exclusivamente do SUS, têm menos estudo e vivem em condições de maior vulnerabilidade. Além disso, o racismo institucional ainda atrapalha o acesso e a continuidade do atendimento durante a gravidez.
A especialista destaca que as diferenças também aparecem na qualidade das informações recebidas. Mulheres negras têm 23% menos chances de receber orientações sobre o trabalho de parto, 22% menos chances de serem informadas sobre sinais de risco e 33% menos chances de receber orientações sobre amamentação. Isso prejudica a segurança e a autonomia delas durante a gestação.
"O atendimento humanizado é essencial para reduzir essas desigualdades. A gestante precisa ser acolhida, respeitada e receber informações claras sobre a gravidez, seus direitos e os sinais de alerta. Garantir informação de qualidade também significa promover segurança e reduzir riscos para a mãe e o bebê", afirma a médica.
Para a Dra. Lilian, é preciso ações coordenadas em vários níveis do sistema de saúde. Entre as medidas prioritárias estão: seguir as diretrizes do Programa de Humanização do Pré-natal e Nascimento, ampliar o acesso nas regiões mais vulneráveis, fortalecer a atenção básica, garantir todos os exames recomendados e combater o racismo institucional.
"Reduzir as desigualdades raciais no pré-natal exige políticas públicas direcionadas, capacitação das equipes de saúde e estratégias específicas para combater as diferenças de raça e cor. Toda gestante tem o direito de receber um atendimento seguro, acolhedor e humanizado, independentemente da cor ou condição social", conclui.

Saúde Imagem gerada por IA


