A violência vicária acontece quando o agressor usa os filhos para machucar a mãe emocionalmente. Em 2025, o Brasil registrou mais de 7 mil denúncias desse tipo de abuso, que pode continuar mesmo após a separação do casal.
A violência contra a mulher nem sempre termina com o fim do relacionamento. Em muitos casos, mesmo depois da separação, o agressor usa os filhos para manter o controle, causar sofrimento e continuar a dinâmica de poder. Essa prática é chamada de violência vicária, e acontece quando crianças e adolescentes são usados como ferramenta para atingir emocionalmente a mãe.
Dados do Ligue 180, canal de atendimento às mulheres em situação de violência, mostram a gravidade do problema no Brasil. Em 2025, foram registradas 7.064 denúncias de violência vicária, o que representa 4,55% do total de denúncias de violência contra mulheres recebidas pelo serviço. Já nos primeiros três meses de 2026, foram 3.552 denúncias desse tipo, subindo para 7,77% dos registros de violência contra mulheres.
- A violência vicária usa os filhos para machucar a mãe emocionalmente, mesmo após a separação.
- Em 2025, o Brasil teve mais de 7 mil denúncias desse tipo de violência.
- 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar, segundo pesquisa de 2025.
- Em 70% dos casos de violência, as crianças estavam presentes e testemunharam as agressões.
- A psicóloga Leila Tibiriçá alerta que os filhos não podem ser usados como instrumento de vingança ou controle.
Esse cenário se soma a um quadro maior de violência doméstica no Brasil. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo DataSenado em 2025, mostrou que 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar causada por um homem. O levantamento também revelou que, entre as agressões dos últimos 12 meses, 71% aconteceram na frente de outras pessoas. Em cerca de 70% desses casos, havia crianças como testemunhas, muitas vezes filhos das vítimas, mostrando como a violência contra a mulher afeta diretamente o desenvolvimento emocional dos filhos.
O que é a violência vicária
Para a psicóloga clínica e jurídica Leila Tibiriçá de Carvalho, a violência vicária precisa ser vista como parte de um ciclo de controle e dominação que pode continuar mesmo depois do fim do relacionamento.
Com mais de 20 anos de experiência, Leila Tibiriçá de Carvalho trabalha na interface entre Psicologia, Direito e relações familiares. Ela é mestre em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador, palestrante e especialista em Psicologia Jurídica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e tem uma trajetória em projetos sociais voltados à prevenção e proteção de mulheres, crianças e adolescentes.
Como identificar a violência vicária
A especialista explica que, nesses casos, os filhos deixam de ser vistos como pessoas que precisam de proteção e passam a ser usados dentro do conflito dos adultos. Algumas situações que podem caracterizar esse tipo de violência incluem ameaças envolvendo a guarda dos filhos, tentativas de afastar a mãe das crianças, manipulação emocional dos filhos, desqualificação da figura materna e uso de disputas judiciais como forma de perseguição.
"Quando a criança é colocada no centro de uma disputa entre os adultos, ela também sofre as consequências emocionais desse conflito. Filhos são seres humanos únicos, que precisam ser considerados nas suas características específicas, fase de desenvolvimento, necessidades e tempos distintos. Os filhos não devem ser instrumentos de vingança ou controle", afirma Leila.
Impactos na saúde mental das crianças
Segundo a psicóloga, um dos desafios é identificar essa forma de violência, já que muitas situações aparecem inicialmente como conflitos familiares comuns, especialmente após separações. A diferença está na intenção de causar sofrimento, manter poder sobre a mulher ou prejudicar sua relação com os filhos.
A exposição contínua a esse ambiente pode causar impactos emocionais em crianças e adolescentes, como insegurança, ansiedade, medo, dificuldades de relacionamento e problemas na construção de vínculos afetivos no futuro. Para Leila, proteger os filhos significa tirar crianças e adolescentes do papel de mediadores de conflitos dos adultos.
"Separações podem ser dolorosas, mas os adultos precisam manter a responsabilidade que têm como pais. O fim do relacionamento conjugal não pode significar o fim do cuidado e da proteção com os filhos", destaca.

Psicóloga Leila Tibiriçá


