Uma grande pesquisa publicada na revista The Lancet mostrou que muitos procedimentos usados na fertilização in vitro (FIV) não têm comprovação científica de que realmente ajudam a ter um bebê. O estudo analisou dez técnicas comuns e descobriu que apenas algumas têm efeito comprovado. Isso significa que muitos tratamentos podem ser desnecessários e que os médicos precisam ser mais cuidadosos ao indicá-los.
Oi, tudo bem Um dos maiores estudos já publicados sobre fertilização in vitro, divulgado na revista científica The Lancet, colocou em xeque diversos procedimentos amplamente utilizados para aumentar as chances de gravidez. A revisão concluiu que muitas dessas intervenções ainda não possuem evidências científicas consistentes de que aumentem as taxas de nascimento de bebês quando indicadas de forma rotineira.
Tenho como fonte o médico especialista em reprodução assistida João Guilherme Grassi, que pode explicar quais técnicas realmente têm comprovação científica, quais ainda são experimentais e o que muda na prática para casais que estão passando por tratamentos de fertilidade.
- O estudo da The Lancet analisou dez procedimentos usados na fertilização in vitro e descobriu que a maioria não tem comprovação científica de que realmente ajuda a ter um bebê.
- O teste de receptividade endometrial (ERA), que identifica o melhor momento para transferir o embrião, não mostrou benefício comprovado quando usado de forma rotineira.
- Acupuntura, corticoides e infusões de Intralipid também não tiveram efeito comprovado nas taxas de nascimento de bebês.
- O scratching endometrial (arranhão no útero) foi a única técnica que mostrou um pequeno benefício, mas ainda não é recomendado para todas as pacientes.
- Técnicas mais recentes, como o plasma rico em plaquetas (PRP), ainda são consideradas experimentais por falta de estudos de alta qualidade.
Os procedimentos complementares estão na rotina de clínicas de reprodução assistida há vários anos, com a promessa de aumentar as chances de sucesso da fertilização in vitro (FIV). Testes para identificar o melhor momento da transferência do embrião, medicamentos imunológicos, acupuntura, plasma rico em plaquetas e diferentes técnicas laboratoriais passaram a integrar o tratamento de milhares de pacientes ao redor do mundo.
Agora, uma das análises científicas mais abrangentes já realizadas sobre o tema revê essas práticas. Publicada na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health, a revisão avaliou as evidências disponíveis sobre dez dos principais procedimentos utilizados durante a fertilização in vitro e concluiu que, na maior parte dos casos, ainda não existem provas consistentes de que essas intervenções aumentem as taxas de nascimento de bebês quando utilizadas de forma rotineira.
Um dos aspectos mais relevantes da revisão foi a adoção de critérios rigorosos para avaliar a confiabilidade dos estudos. Dos 157 ensaios clínicos inicialmente identificados, 72 foram excluídos por limitações metodológicas ou dúvidas sobre sua integridade científica.
Para o médico especialista em reprodução assistida, João Guilherme Grassi, o estudo representa um momento importante para a medicina reprodutiva, porque as mudanças já vinham ocorrendo nos principais centros internacionais, que é a busca por tratamentos baseados em evidências mais sólidas.
"Durante muito tempo diversos procedimentos foram incorporados à prática clínica porque existia uma hipótese biológica interessante ou porque pequenos estudos sugeriam algum benefício. Hoje a exigência é diferente. Precisamos demonstrar, com pesquisas de boa qualidade, que essas intervenções realmente aumentam a chance de nascimento de um bebê."
Segundo o especialista, a revisão não significa que essas técnicas deixem de ter utilidade, mas mostra que elas não devem ser indicadas automaticamente para todas as pacientes.
"Hoje sabemos muito mais sobre o que funciona, principalmente sobre o que não faz diferença e, a reprodução assistida, caminha para uma medicina mais personalizada. Muitos conceitos que aprendemos há 20 ou 30 anos continuam válidos em determinadas situações, mas hoje entendemos que dificilmente existe uma única estratégia ideal para todos os casais."
Entre os procedimentos analisados está o teste de receptividade endometrial (ERA), utilizado para tentar identificar o melhor momento para realizar a transferência do embrião. A revisão concluiu que seu uso rotineiro não aumenta as taxas de nascimento de bebês.
Resultado semelhante foi encontrado para procedimentos como a acupuntura, o uso de corticoides e as infusões de Intralipid.
O scratching endometrial foi a única intervenção que apresentou um pequeno possível benefício nas taxas de nascimento de bebês. Apesar disso, o efeito foi discreto e ainda não justifica sua utilização de forma rotineira em todas as pacientes.
No caso do EmbryoGlue, os resultados permanecem inconclusivos. Embora algumas análises tenham sugerido um possível benefício, a análise principal não demonstrou aumento das taxas de nascimento, não havendo evidências suficientes para recomendar seu uso rotineiro.
No caso do PGT-A e do PICSI, as evidências ainda não permitem recomendar essas estratégias para uso universal, embora possam ter indicação em situações clínicas específicas.
Já procedimentos mais recentes, como a aplicação de plasma rico em plaquetas (PRP) nos ovários ou no útero, permanecem classificados como experimentais, principalmente pela escassez de estudos clínicos de alta qualidade.
Na avaliação de João Grassi, uma das principais contribuições da revisão é estimular uma conversa mais transparente entre médicos e pacientes sobre o real potencial de cada intervenção.
"A expectativa de quem busca um tratamento de fertilidade é enorme. Naturalmente, qualquer procedimento que prometa aumentar as chances desperta interesse. O papel da medicina baseada em evidências é justamente mostrar o que já possui comprovação científica, o que ainda está em investigação e quais recursos devem ser reservados para situações muito específicas."
O especialista lembra que a fertilização in vitro continua apresentando avanços importantes, principalmente na qualidade dos laboratórios, dos meios de cultivo embrionário, da seleção dos embriões e da individualização dos protocolos clínicos.
"Os resultados da reprodução assistida continuam evoluindo. O que muda é a forma como incorporamos novas tecnologias. Hoje elas precisam demonstrar benefício real antes de passarem a fazer parte da rotina."
Para os autores da revisão, o futuro da reprodução assistida dependerá cada vez mais de estudos clínicos rigorosos capazes de identificar quais pacientes realmente podem se beneficiar de cada estratégia, evitando intervenções desnecessárias e tornando os tratamentos mais seguros, eficientes.

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