Um estudo feito em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil, descobriu que cinco mudanças simples no dia a dia podem ajudar os idosos a manter a memória e o raciocínio por mais tempo. A pesquisa mostrou que praticar exercícios físicos, ter uma alimentação saudável, controlar a pressão e o colesterol, fazer atividades para o cérebro e conviver com outras pessoas, tudo junto, funciona melhor do que apenas dar conselhos gerais de saúde.
Uma combinação de cinco mudanças no estilo de vida conseguiu retardar a perda de memória e de raciocínio em idosos com maior risco de demência. É o que mostra um estudo inédito feito em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil. Publicado nesta segunda-feira (13) na revista científica The Lancet, o estudo revelou que a estratégia melhorou a capacidade mental dos participantes 55% mais do que apenas dar orientações gerais de saúde.
- O estudo acompanhou 1.065 pessoas entre 60 e 77 anos por dois anos
- Os participantes tinham fatores de risco para demência e desempenho mental abaixo do esperado
- Foram testadas cinco mudanças juntas: atividade física, alimentação saudável, controle de problemas do coração, treino do cérebro e convívio social
- O grupo que seguiu o programa completo teve uma melhora três vezes maior do que em estudos parecidos em outros países
- A pesquisa mostra que a prevenção pode ser feita até mesmo em lugares com menos recursos, como o Brasil
O ensaio clínico, chamado de Latam-Fingers, acompanhou, durante dois anos, 1.065 pessoas com idade entre 60 e 77 anos que tinham fatores de risco para demência e um desempenho mental abaixo do esperado para a idade.
Foram recrutados participantes da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai.
Como o estudo foi feito
Os voluntários foram divididos em dois grupos. Um deles participou de um programa completo que combinava atividade física, alimentação saudável, controle rigoroso dos fatores de risco para o coração, treinamento do cérebro e atividades de convívio social. O outro grupo recebeu apenas orientações gerais sobre hábitos saudáveis.
No final do acompanhamento, os dois grupos melhoraram a capacidade mental, mas o grupo que seguiu o programa completo evoluiu muito mais.
O que a ciência descobriu
Os ganhos foram observados tanto na capacidade mental geral quanto em habilidades específicas, como memória, atenção e capacidade de planejamento e organização.
Os pesquisadores afirmam que esta é a primeira comprovação, em larga escala, de que um programa de prevenção adaptado à realidade da América Latina consegue retardar a perda de memória em uma população que quase nunca é incluída em estudos sobre prevenção da demência.
"Não se trata de recomendar apenas que a pessoa faça exercício ou tenha uma alimentação melhor. O que mostramos é que o efeito aparece quando os cinco pilares são trabalhados ao mesmo tempo", afirma o neurologista Paulo Caramelli, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e um dos coordenadores brasileiros do estudo.
Segundo ele, isso é muito importante porque a demência geralmente é causada por uma combinação de diferentes problemas no corpo.
"Mesmo que no futuro exista um remédio capaz de curar o Alzheimer, o problema da demência continuará existindo, porque muitos idosos têm mais de uma causa para a perda de memória. A prevenção age justamente sobre vários mecanismos ao mesmo tempo", diz.
Por que isso é importante para o Brasil
O estudo adapta para a América Latina um modelo criado originalmente na Finlândia, que é considerado um marco na prevenção da demência.
A principal novidade, segundo os autores, é mostrar que a estratégia também funciona em países de renda média, que têm mais desigualdade social, menos acesso à prevenção e muitos casos de pressão alta, diabetes e colesterol alto sem tratamento adequado.
"Aqui partimos de uma realidade diferente da de países desenvolvidos. Temos mais fatores de risco para o coração mal controlados e menos acesso a programas de promoção da saúde. Isso faz com que nossa chance de prevenir seja enorme", afirma Caramelli.
As adaptações incluíram até mesmo as recomendações de alimentação. Em Belo Horizonte, por exemplo, os pesquisadores ajustaram as orientações nutricionais aos hábitos locais, que têm mais consumo de carnes e gorduras e dificuldade de acesso a alguns alimentos, como peixes.
As atividades físicas em grupo e as ações de convívio social tiveram boa aceitação entre os participantes brasileiros.
Resultados surpreendentes
A geriatra Claudia Kimie Suemoto, professora da Faculdade de Medicina da USP e integrante do comitê executivo do estudo, afirma que a equipe ficou surpresa com o tamanho do benefício.
"O efeito observado foi quase três vezes maior do que o encontrado em estudos semelhantes realizados em outros países."
A pesquisa também mostrou que a estratégia é possível de ser aplicada na região. Mais de 82% dos participantes completaram os dois anos de acompanhamento, e aqueles que seguiram o programa completo cumpriram, em média, 72% das atividades propostas.
Embora tenham sido registrados alguns problemas, principalmente dores musculares e nos ossos por causa dos exercícios, nenhum caso grave ou morte foi causado pelo programa.
O que isso significa na prática
Os autores lembram que os resultados não significam que seja possível impedir completamente o aparecimento da demência, mas reforçam que mudanças mantidas no estilo de vida podem retardar a perda de memória e reduzir o risco de a doença avançar.
Hoje, estima-se que 2,46 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivam com algum tipo de demência. Esse número deve quase triplicar até 2050 por causa do rápido envelhecimento da população.
O problema é agravado pela falta de diagnóstico. Cerca de 80% das pessoas com demência no país não recebem diagnóstico formal, segundo pesquisas coordenadas por Caramelli.
"Muitas famílias ainda confundem os primeiros sintomas com o envelhecimento normal e só procuram atendimento quando a doença já está em estágio moderado ou avançado", afirma o neurologista.
Ele também aponta dificuldades no acesso ao diagnóstico, principalmente fora dos grandes centros, e avalia que a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, aprovada em 2024, ainda avança lentamente.
O futuro da prevenção
Para os autores, os resultados reforçam que a prevenção da demência deve fazer parte das ações de rotina dos postos de saúde, assim como já acontece com a pressão alta, o diabetes e a depressão.
"O próximo passo será testar essa estratégia dentro das unidades básicas de saúde para verificar se ela pode ser incorporada ao SUS e transformar os resultados científicos em benefícios concretos para a população", afirma Caramelli.
Os participantes continuarão sendo acompanhados por mais quatro anos para avaliar se os hábitos adquiridos durante o programa são mantidos e se os benefícios mentais continuam após o fim do acompanhamento intensivo dos pesquisadores.

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