11 de julho de 2026

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Governo vigia riscos do 'Super El Niño' para a agricultura

Geral Clima 11/07/2026 15:30 Estadão Conteúdo jovempan.com.br

O governo federal está monitorando os possíveis danos que o fenômeno climático 'Super El Niño' pode causar na agricultura. A previsão é de ondas de calor, secas e chuvas fortes que podem atrapalhar o plantio e a colheita da nova safra.

O governo federal está monitorando, com mais atenção, os possíveis impactos do fenômeno climático El Niño na agricultura. O trabalho está focado em duas frentes: ajudar os produtores com medidas para se prevenir e reduzir possíveis aumentos nos preços dos alimentos. A estratégia também deve incluir a revisão do dinheiro disponível para o seguro rural.

O movimento do governo, liderado pela equipe agrícola do Executivo, acontece em meio à expectativa de um 'Super El Niño', que ameaça a produção brasileira de grãos na safra 2026/27. A previsão do tempo é de que ele se torne um 'episódio forte' entre julho e setembro, o que aumenta a chance de ondas de calor, secas e chuvas fortes que podem prejudicar a produtividade das lavouras da nova safra, que começa a ser plantada em setembro.

  • O governo criou um grupo de trabalho para estudar os impactos do El Niño na agricultura, com a participação do Inmet e da Embrapa.
  • O seguro rural, que ajuda produtores em caso de perdas, teve seu orçamento cortado em mais de 53% e pode ser reforçado.
  • O fenômeno pode aumentar o preço dos alimentos, e o governo está preocupado com a inflação, que já acumula alta de 3,45% em 2026.
  • Para a agricultura familiar, a ideia é formar brigadas de incêndio em assentamentos, principalmente na região Norte, com dinheiro do Fundo Amazônia.
  • O Ministério da Fazenda já considera os efeitos do 'Super El Niño' nas previsões econômicas e revisou a expectativa de inflação para 2027 de 3% para 3,5%.

Na semana passada, o Ministério da Agricultura criou, por meio de uma portaria publicada no Diário Oficial da União, um grupo de trabalho para avaliar os impactos do El Niño. Entre as funções da equipe, estão mapear as vulnerabilidades de cada região e setor e propor estratégias para reduzir os danos e proteger o produtor rural. A avaliação deverá considerar os impactos por região geográfica e nas principais culturas, como soja, trigo, milho, feijão, cana-de-açúcar, café e mandioca.

O grupo também deverá criar propostas sobre os efeitos do El Niño na produção e produtividade da agricultura brasileira e preparar um relatório com estratégias de adaptação e redução de danos. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) participam do grupo.

O colegiado deverá funcionar como uma espécie de 'comitê de crise' para ajudar nas ações do ministério e, se necessário, orientar sobre a necessidade de mais dinheiro ou remanejamentos no orçamento para enfrentar o fenômeno. 'A avaliação preliminar é a de que instrumentos de gestão e redução de risco, como o seguro rural, precisarão ser fortalecidos com urgência', disse uma fonte.

No seguro rural, a intenção é incluir a discussão nos debates sobre estratégias para reduzir os danos do El Niño. O orçamento do seguro rural foi cortado em mais de 53% pelo governo no último mês, com os recursos para o prêmio caindo para R$ 473,8 milhões neste ano. A partir das análises do colegiado, técnicos da equipe agrícola veem espaço para recompor o orçamento do seguro rural, segundo fontes.

O governo optou por não incluir anúncios sobre o seguro rural no lançamento do Plano Safra e tratá-lo dentro da análise ampla dos impactos do El Niño, disse o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos. 'A ideia foi tratar o Plano Safra na área do financiamento e deixar o seguro rural para ser tratado dentro do esforço do governo sobre o potencial dos impactos do El Niño, em uma análise mais ampla e interministerial', continuou. 'A ideia é pensar não apenas no resultado final do El Niño, mas no potencial impacto inflacionário, na segurança do produtor rural para ter vontade de plantar a safra, em meio ao endividamento, aos preços baixos das commodities e à insegurança climática', explicou. 'O seguro rural diminui o efeito limitador da questão climática sobre a safra', afirmou.

Campos destaca também o aspecto inflacionário de um possível impacto do El Niño na safra. 'Dois componentes preocupam: o El Niño sobre a safra 2026/27 e o aumento do custo de produção, com a alta dos fertilizantes por causa do conflito no Oriente Médio. Há um canal de repasse direto para a inflação dos alimentos e os instrumentos para controlá-la não estão sendo eficazes como esperado', disse, mencionando o peso do agronegócio para a economia, já que ele responde por mais de 25% do Produto Interno Bruto (PIB).

Na inflação, antes mesmo dos efeitos do El Niño, o grupo de alimentação e bebidas vem contribuindo para a aceleração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA 15), que acumula alta de 3,45% neste ano até junho. 'Há uma preocupação latente com o aumento do custo dos alimentos', reforçou Campos.

No segmento da agricultura familiar, o Ministério do Desenvolvimento e Agricultura Familiar busca recursos, no âmbito do grupo que estuda os impactos do El Niño, para formar brigadas de incêndio em assentamentos da reforma agrária, assim como acontece em territórios indígenas, principalmente na Região Norte do País, no Estado do Amazonas. A intenção é de que a formação das brigadas seja financiada pelo Fundo Amazônia, disse a ministra do MDA, Fernanda Machiaveli, em uma coletiva de imprensa.

Outro tema em debate pelo MDA é a necessidade de aumentar a formação de estoques de produtos agropecuários para enfrentar oscilações de preço. Hoje, no entanto, não é possível legalmente destinar recursos extraordinários para estoques de forma preventiva, apenas em emergências. 'Ao longo dos últimos anos, compramos 800 mil toneladas de alimentos que estão armazenados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)', disse Machiaveli, citando também a discussão com o Ministério do Planejamento e Orçamento sobre a construção de contratos de opções para a safra.

Os impactos do El Niño também são acompanhados pelo MDA no âmbito do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). Em anos de adversidades climáticas, é comum as indenizações do Proagro dispararem. No momento, o MDA descarta a possibilidade de 'estouro' do orçamento do programa, previsto em R$ 6,6 bilhões para indenizações neste ano. 'O Proagro foi aperfeiçoado. Ainda há espaço confortável, mas precisamos monitorar. Todas as evidências científicas apontam que o El Niño será grave e continuaremos monitorando', disse o diretor de Financiamento, Proteção e Apoio à Inclusão Produtiva Familiar do MDA, José Henrique Silva.

O Proagro é uma espécie de seguro rural usado para socorrer pequenos e médios produtores em caso de eventos climáticos extremos, pragas ou doenças. Nessas situações, o beneficiário fica isento de pagar os financiamentos contratados com bancos ou cooperativas, e o custo é assumido pela União. O programa, que tem participação do Tesouro e é uma despesa obrigatória, vem sendo alvo de análise pelo Banco Central e pelo Executivo, depois que o orçamento do programa quintuplicou e aumentaram as denúncias de fraudes relacionadas ao Proagro. O programa é obrigatório na contratação de financiamentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

O tema também envolve a equipe econômica do Executivo, que já considera os efeitos de um 'Super El Niño' nas projeções econômicas do próximo ano. No seu último Boletim Macrofiscal, o Ministério da Fazenda apontou que a maior probabilidade de El Niño neste segundo semestre e o prolongamento do choque nos preços de fertilizantes são fatores que podem afetar ainda mais a safra de 2027 e pressionar a inflação de alimentos, com alguma antecipação ainda para este ano. A expectativa de inflação da pasta foi revisada de 3% para 3,5% em 2027.