11 de julho de 2026

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Mulheres com mais de 60 anos estão cada vez mais viajando sozinhas

Geral Viagem 11/07/2026 07:12 Bia Leão - Extra extra.globo.com

Especialistas explicam que viajar sozinha depois dos 60 anos traz benefícios para a autonomia e o bem-estar, mas é importante planejar bem a viagem para garantir a segurança.

Envelhecer também significa ampliar possibilidades. Viajar sozinha depois dos 60 anos tem se tornado, para muitas mulheres, mais do que uma forma de lazer: é uma forma de mostrar autonomia, liberdade e bem-estar. Em um país que envelhece rapidamente, esse movimento mostra uma nova maneira de viver a maturidade.

  • O Brasil terá mais de 58 milhões de pessoas com 60 anos ou mais até 2060, segundo o IBGE.
  • Viajar sozinha ajuda a fortalecer a independência e a criar novas experiências.
  • Especialistas dizem que a idade não deve ser um obstáculo para viajar, desde que haja planejamento.
  • Luciana, de 71 anos, viaja sozinha desde jovem e diz que a idade nunca foi um problema.
  • O segredo para viajar sozinha depois dos 60 anos é o planejamento, e não a coragem.

O fenômeno acompanha a mudança no perfil da população brasileira. Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil terá mais de 58 milhões de pessoas com 60 anos ou mais até 2060. Para especialistas, viajar sozinho pode ajudar no bem-estar físico e emocional, estimular a autonomia e aumentar a participação social, desde que haja planejamento compatível com as necessidades de cada pessoa.

Benefícios para a saúde e a autonomia

Para a fisioterapeuta especialista em Gerontologia e diretora administrativa do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Renata Marinho, viajar sozinha é uma oportunidade de fortalecer a independência e construir novas vivências, especialmente em uma fase marcada por mudanças, como a aposentadoria ou a saída dos filhos de casa.

O envelhecimento saudável não é definido apenas pela ausência de doenças, mas pela capacidade de continuar fazendo escolhas, construindo experiências significativas e mantendo o protagonismo da própria vida. Viajar sozinha pode ser uma expressão poderosa dessa liberdade, afirma.

Segundo a especialista, os benefícios também se refletem na saúde física e mental. Caminhadas, passeios e outras atividades ajudam a manter a capacidade funcional, enquanto o contato com novos lugares, culturas e pessoas favorece sentimentos de prazer, liberdade, autoconfiança e satisfação com a vida. Além disso, estimula a aprendizagem, a adaptação a novas situações e amplia as redes de relacionamento.

Esses desafios positivos promovem um senso de pertencimento e conexão social, aspectos fundamentais para o bem-estar durante o envelhecimento, explica.

Na avaliação de Renata, esse movimento acompanha uma transformação na forma de envelhecer. Com maior expectativa de vida, melhores condições de saúde e independência financeira, um número crescente de mulheres tem optado por viajar sozinhas e investir em projetos pessoais.

"O maior problema é quando a mala fica guardada no quarto"

Para a geriatra Maisa Kairalla, a idade, por si só, não deve ser um fator limitante para quem deseja viajar. O mais importante é avaliar a funcionalidade e manter a saúde em dia, e não estabelecer uma idade como referência para decidir se alguém pode ou não embarcar em uma viagem.

Pessoas com alterações cognitivas, doenças degenerativas, limitações de mobilidade ou maior risco de quedas exigem mais planejamento, principalmente em viagens longas ou internacionais. Ainda assim, essas condições não significam, necessariamente, que a viagem deva ser descartada.

A geriatra ressalta que não existe um check-up específico para quem pretende viajar. A orientação é manter consultas médicas regulares, exames preventivos, vacinação atualizada e levar os medicamentos de uso contínuo durante todo o período da viagem.

Para a médica, porém, o maior obstáculo costuma ser outro. O maior problema não é o que vai na mala. O maior problema é quando a mala fica guardada no quarto porque a pessoa acha que não pode mais viajar, pontua.

Na avaliação de Maisa, muitas pessoas deixam de realizar planos porque acreditam que envelhecer significa abrir mão de novas experiências. A realidade é justamente o oposto: cada vez mais idosos viajam, seja porque têm mais tempo disponível, seja porque chegam a essa fase da vida com mais autonomia. Minha mensagem é justamente o contrário do que muita gente imagina: a pessoa deve se preparar para viajar ainda mais depois dos 60 anos, aconselha.

A viagem como projeto de vida

Viajar sempre fez parte dos planos de Luciana Gomez. Aos 71 anos, a aposentada continua embarcando sozinha para conhecer novos lugares, culturas e pessoas. Para Lu, como gosta de ser chamada, a decisão de viajar sem companhia não surgiu com a terceira idade, mas como continuidade de um desejo que começou ainda na juventude.

É uma característica que sempre fez parte da minha vida. Meu irmão dizia que eu sempre fui nômade, que essa era a minha essência, porque não consigo ficar muito tempo sem viajar. Foi isso que me motivou a viajar sozinha: o desejo de continuar conhecendo lugares, pessoas e vivendo novas experiências. Ele continua vivo em mim.

Nas viagens, ela costuma conviver com pessoas bem mais jovens e afirma que a idade nunca foi um obstáculo. Pelo contrário, diz que sempre foi acolhida pelos grupos que conheceu ao longo do caminho. Nunca me senti discriminada por ser mais velha. Pelo contrário, sempre me senti muito bem aceita. Acho que isso também acontece porque tenho saúde e consigo acompanhar o ritmo delas nas caminhadas, nos passeios e, às vezes, até nas saídas à noite.

Segundo Luciana, essa convivência fortalece a autoestima e contribui para sua qualidade de vida. Ela acredita que sua disposição para conversar, ajudar e participar das atividades facilita essa integração. Reconhece também que o bem-estar depende, principalmente, da saúde emocional, mas considera que as viagens exercem um papel importante nesse processo. O entrosamento com pessoas de diferentes idades e a sensação de ser aceita fortalecem muito a minha autoestima. Em vez de ficar pensando em doença ou em problemas, eu passo a planejar uma viagem. Direciono minha atenção para algo positivo.

O planejamento também faz parte desse processo. Pensar na passagem, na hospedagem, nos documentos e nos preparativos faz com que concentre sua energia em projetos que considera positivos. Ela afirma que manter a saúde é parte essencial desse estilo de vida. Antes das viagens, faz check-ups médicos e odontológicos, mantém uma alimentação equilibrada, toma corretamente a medicação e procura preservar esses hábitos durante os deslocamentos.

Entre as experiências mais marcantes, Luciana destaca o sobrevoo da Floresta Amazônica durante uma viagem a Manaus. Nascida no Pará, ela conta que aquele momento reforçou o vínculo que mantém com a região desde a infância. Outra lembrança inesquecível foi conhecer a Basílica da Sagrada Família, em Barcelona. Mesmo sem entrar no monumento, permaneceu por muito tempo observando a obra de Antoni Gaudí e refletindo sobre arquitetura e arte.

Nas Astúrias, uma encenação da Guerra Civil Espanhola também a marcou profundamente. A experiência despertou reflexões sobre a capacidade de um povo superar períodos difíceis da história. Em outra ocasião, depois de um susto durante um passeio de carro, viu um grupo de amigos formar uma roda para se abraçar e trocar palavras de incentivo.

Para quem deseja começar a viajar sozinho depois dos 60 anos, Luciana acredita que o segredo está menos na coragem e mais no planejamento. Pesquisar o destino, organizar documentos, conhecer os procedimentos da viagem e contar com uma rede de apoio ajudam a enfrentar os imprevistos. Meu conselho é: prepare-se, tenha um suporte de confiança e tenha coragem de ir. Se for possível viajar acompanhada, ótimo. Se for sozinha, também é uma excelente experiência.