Após a Justiça obrigar a Universal Music e Marcelo D2 a darem créditos a Geovana, a cantora de 78 anos se pronunciou. Ela diz que não autorizou e nem foi avisada sobre a regravação de 'Tataruê'. O caso levanta discussões sobre direitos autorais e valorização da cultura popular.
Dias depois de conseguir na Justiça uma liminar obrigando a Universal Music e Marcelo D2 a incluírem seu nome nos créditos da regravação de 'Tataruê', Geovana, de 78 anos, falou publicamente pela primeira vez.
- Geovana, de 78 anos, diz que não autorizou a gravação de sua música 'Tataruê' pelo rapper Marcelo D2.
- Ela descobriu o lançamento da música sem ter sido avisada, depois de ter sido convidada para gravar um dueto que não aconteceu.
- O coletivo que representa a artista tentou um acordo com a Universal Music e a equipe de D2, mas não teve sucesso.
- A Justiça do Rio deu uma liminar obrigando a inclusão do nome de Geovana nos créditos, sob multa de R$ 5 mil por dia.
- O caso vai além da briga por direitos autorais e envolve temas como reconhecimento da cultura popular e respeito aos mestres do samba.
Em nota do Coletivo Sindicato do Samba, que cuida da carreira da cantora, ela afirma que foi pega de surpresa e que nunca autorizou a gravação. A compositora também não foi avisada antes que a música entraria no álbum do rapper.
'Foi com espanto que Geovana tomou conhecimento da gravação recente de sua música 'Tataruê' pelo rapper Marcelo D2, já que não autorizou e nem foi comunicada pela Universal ou pelo intérprete', diz a nota.
Coletivo tentou resolver antes de ir para a Justiça
De acordo com o Sindicato do Samba, o processo só foi aberto depois que as tentativas de acordo com a Universal Music e a equipe de Marcelo D2 não deram certo. O coletivo conta que representantes do rapper chegaram a procurar Geovana para propor um dueto de 'Tataruê', mas a cantora foi surpreendida ao descobrir que uma nova versão da música havia sido lançada sem a participação dela.
'A ação foi protocolada no dia 13 de maio, uma referência à data da abolição da escravatura, e foi a última saída de Geovana, que tentou acordo tanto com a Universal quanto com a equipe de Marcelo D2. Com a equipe do rapper, pasmem, houve contato anterior e convite para gravar a mesma música juntos, em um dueto. Desse modo, evidentemente, Geovana e sua produção foram completamente surpreendidos com o lançamento da nova gravação por parte do cantor. Em nova tentativa de diálogo, a equipe de Marcelo D2 seguiu sem respostas, enquanto a Universal Music não apresentou qualquer proposta real de reparação. Ou seja, Geovana, em nome de toda sua obra e trajetória, não teve outra opção a não ser ajuizar a ação', afirma o comunicado.
'Tataruê' reúne história familiar e ancestralidade
Na nota, o Sindicato do Samba afirma que 'Tataruê', lançada em 1975 no primeiro disco de Geovana, é uma das obras mais pessoais da compositora. A música mistura referências à ancestralidade negra da artista, à religiosidade de matriz africana e à própria história familiar, citando os nomes dos filhos na letra. O coletivo também diz que a versão gravada por Marcelo D2 manteve elementos da gravação original, como arranjos, instrumentação e duração, e ainda errou a letra em um trecho do refrão.
'Para agravar ainda mais a situação, a versão do rapper apresenta interpretação errada na letra, na parte do refrão da canção. Vamos imaginar um caso hipotético para perceber a gravidade de tudo isso: por exemplo, imagine algum cantor regravar 'Odara', de Caetano Veloso, sem sua autorização. E ainda o faça de modo a se valer dos arranjos originais da música e, na hora do refrão, cantasse 'Olara'. No caso de Gil, imagine 'Drão' virar 'Grão'. Não é grave, é gravíssimo', acusam os representantes da cantora.
Debate vai além da disputa judicial
Para o Sindicato do Samba, o caso representa uma discussão maior sobre a valorização dos compositores populares, direitos autorais e preservação da memória do samba. O texto ainda fala sobre a importância de reconhecer os mestres da cultura popular 'em vida' e afirma que o caso envolve questões de negritude, apropriação cultural e respeito às tradições do samba.
'Compreendemos que o samba é um agente, um instrumento poderoso, uma entidade, uma religião, fundamental para promover e catalisar essa transformação de sociedade, integrado à educação pública, com envolvimento dos territórios e comunidades. Os sonhos e desafios são muitos, mas os sambas e 'os mais velhos' certamente ajudam a trilhar o melhor caminho. Queremos sim que o samba vire cartilha, tenha ministério como já cantou Batatinha. Porém, sem passar por cima dos fundamentos e tradições que estão dentro desse universo de beleza chamado samba, cultura e modo de vida que teve seu início oficial na casa da baiana Tia Ciata, na região compreendida como Pequena África no Rio de Janeiro', afirma a nota.
O que dizem Marcelo D2 e Universal
A Elemess Music, responsável pela carreira de Marcelo D2, informou que todas as autorizações necessárias foram dadas pela Universal Publishing, que administra a obra. A empresa disse ainda que os créditos autorais de Geovana estão nas plataformas digitais e que sempre esteve aberta ao diálogo com a artista.
A Justiça do Rio determinou, em decisão liminar, que a Universal Music e Marcelo D2 incluam o nome artístico da sambista nos créditos da música em até dez dias, com multa diária de R$ 5 mil se não cumprirem.

Geovana - Foto: Divulgação


