O banco Santander acredita que a JBS está passando por um momento complicado nos Estados Unidos. A falta de gado para abate e a recuperação lenta do mercado de frango levaram o banco a mudar sua recomendação para as ações da empresa. Agora, a recomendação é neutra, ou seja, nem comprar nem vender, e o preço esperado para as ações foi reduzido.
O Santander ficou mais pessimista com o mercado de carne bovina nos Estados Unidos. Por isso, também ficou com menos esperança no desempenho da JBS para o resto de 2026 e decidiu rebaixar sua recomendação e o preço-alvo para as ações da empresa da família Batista.
Em um relatório divulgado nesta quarta-feira, 8 de julho, o analista do banco, Guilherme Palhares, mudou a recomendação de 'outperform' (que significa compra) para neutra. Ele também diminuiu o preço-alvo das ações para o final de 2027, de US$ 17 para US$ 15,20.
- Queda nas ações: As ações da JBS em Nova York caíram mais de 2% nesta tarde, sendo negociadas a cerca de US$ 11,90.
- Falta de gado: O rebanho de gado nos EUA caiu 13% desde 2019, chegando ao menor nível desde os anos 1950, o que encarece a matéria-prima.
- Fechamento de fábricas: A JBS fechou um abatedouro e uma unidade de processamento nos EUA por causa da escassez de gado.
- Problema com frango: A recuperação do mercado de frango, pela Pilgrim's Pride, está demorando mais do que o esperado, com preços 10% menores do que no ano passado.
- Praga de mosca: Um surto de mosca-das-bicheiras na parte sul dos EUA deve piorar a situação, dificultando a recomposição do rebanho.
Segundo Palhares, as ações da JBS não têm 'gatilhos' de curto prazo, mesmo depois de terem sido incluídas nos índices Russell 1000 e 3000 no mês passado.
O Santander afirma que passou a projetar resultados piores para algumas subsidiárias da empresa, como a Pilgrim's Pride, a operação de suínos e a JBS Austrália. O banco também incluiu no cálculo o fechamento recente do abatedouro de carne bovina em Souderton, na Pensilvânia, e uma unidade de processamento em Memphis, no Tennessee, por causa da falta de gado nos EUA.
"Observamos que a maioria dos ciclos está se tornando mais negativa, como o da carne bovina no Brasil e também na Austrália, enquanto a recuperação do segmento de aves nos EUA está levando mais tempo do que o esperado", disse Palhares.
Fechamento de fábricas e a escassez de gado
O Santander estima que a unidade de Souderton seja responsável por 6% da capacidade de carne bovina da JBS na América do Norte. O banco considera o fechamento uma medida positiva, pois mostra uma 'estratégia mais racional para preservar as margens' enquanto o ciclo do gado americano se aproxima de um 'fundo', reduzindo custos e aumentando os abates em regiões com mais gado disponível.
De acordo com o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA), o rebanho americano caiu 13% desde 2019, chegando a 27,9 milhões de animais, o menor nível desde os anos 1950. No ano passado, a produção caiu 4%, enquanto o preço da carne bovina subiu 75%, segundo dados do Federal Reserve.
Além da JBS, a Tyson Foods também fechou duas unidades, uma em Lexington, no Nebraska, e outra em Rome, na Geórgia. A Cargill também encerrou as atividades de sua fábrica em Milwaukee, em Wisconsin.
A praga da mosca-das-bicheiras
O mercado de carne bovina nos EUA ainda enfrenta outro desafio neste ano: o surto de mosca-das-bicheiras, que afeta principalmente a parte sul do país. De acordo com o Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal do USDA, já são mais de 30 casos confirmados.
Palhares avalia que esse cenário deve atrasar ainda mais a recomposição do rebanho. O Santander cita que o risco associado a essa praga está na logística, nos custos com biossegurança, na mortalidade animal, nas zonas de quarentena e nas possíveis restrições à movimentação de animais vivos, especialmente o fluxo de gado de reposição do México.
Diferentemente da febre aftosa, que é mais contagiosa, essa doença não é transmitida pela carne nem pelo contato direto entre animais.
A propagação ocorre quando moscas adultas são atraídas por feridas ou orifícios do corpo e depositam ovos. As larvas se alimentam de tecido vivo antes de caírem no solo e se transformarem em novas moscas, criando um ciclo que pode se amplificar em ambientes de alta densidade, como confinamentos, explicou o banco.
Mercado de frango também enfrenta dificuldades
A operação de frangos também não vive seus melhores dias. A Pilgrim's Pride, que também é listada nos EUA, teve sua recomendação cortada pelo Santander. A mudança foi a mesma, de 'outperform' para neutra, e o preço-alvo caiu de US$ 56 para US$ 37,50.
De acordo com Palhares, a divisão começou 2026 com dificuldades: interrupções na expansão e preços fracos. Nos cálculos do analista, os preços do frango estão 10% menores do que no ano passado.
"A recuperação dos lucros tem sido mais lenta do que o esperado, e a dinâmica de oferta e demanda de aves nos EUA permanece desequilibrada, levando-nos a reduzir nossa estimativa de Ebitda para 2026 em 22%, para US$ 1,5 bilhão", escreveu no relatório.
Olhando para o segundo trimestre, o Ebitda projetado está 16% abaixo do esperado pelo mercado. "Embora esperemos uma retomada do consumo no terceiro trimestre, impulsionada pelos preços recordes da carne bovina, observamos que o estoque de frango congelado tem aumentado mês a mês desde abril, indicando que a oferta provavelmente está crescendo em ritmo superior ao da demanda", continuou.
Projeções para o futuro da JBS
Olhando a empresa de forma global no acumulado de 2026, a projeção do banco é que a JBS registre uma receita de US$ 89 bilhões (cerca de R$ 460 bilhões pela cotação atual). Isso representa um leve aumento em relação a 2025, mas fica abaixo do consenso de analistas, que esperam algo em torno de US$ 93 bilhões.
Para 2027 e 2028, no entanto, o Santander espera uma retração nas vendas: US$ 87,4 bilhões no ano que vem e US$ 86,6 bilhões em 2028.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação), que mostra o lucro operacional e a capacidade da empresa de gerar caixa, deve cair de US$ 6,4 bilhões no ano passado para US$ 5,4 bilhões neste ano, segundo estimativas do Santander.

Unidade da JBS nos Estados Unidos.


