07 de julho de 2026

?? ºC São Paulo - SP
?? ºC Salvador - BA
?? ºC Cuiabá - MT

O segredo da alimentação de Haaland: como o DNA influencia sua dieta

Geral Nutrição 07/07/2026 07:56 Especialistas consultados pelo Instituto Nutrindo Ideais

O atacante norueguês Erling Haaland, um dos maiores jogadores de futebol do mundo, chama a atenção não só pelos gols, mas também por sua dieta incomum. Ele come coração de boi, fígado e leite cru, sem usar suplementos. Especialistas explicam como essa alimentação, chamada de 'dieta ancestral baseada em animais', pode se conectar com o DNA e trazer benefícios para o desempenho esportivo, mas também alertam para os riscos e a necessidade de acompanhamento profissional. A reportagem mostra o que a ciência diz sobre essa estratégia alimentar.

A famosa frase "você é o que você come" é explicada por especialistas.

No último domingo (5), a seleção brasileira enfrentou a Noruega em um dos jogos mais aguardados da Copa e acabou sendo eliminada por um jogador que é considerado 99% mais saudável que os outros. O que o DNA tem a ver com isso

  • Haaland come alimentos como coração de boi, fígado, leite cru e mel orgânico, sem usar whey protein ou suplementos sintéticos.
  • Sua dieta é chamada de "ancestral baseada em animais" e se baseia na ideia de que nosso corpo responde melhor a alimentos que nossos antepassados consumiam.
  • Essa dieta pode influenciar a expressão dos genes (epigenética), ajudando no metabolismo e na recuperação muscular.
  • Especialistas alertam que a dieta de Haaland é feita sob medida para ele, com acompanhamento profissional, e não deve ser copiada sem orientação.
  • O leite cru, um dos alimentos que Haaland consome, é proibido no Brasil por causa do risco de doenças graves.

Do outro lado do campo estava Erling Haaland, o centroavante que, além de fazer os dois gols noruegueses e ser uma das maiores forças do futebol mundial, virou assunto fora dos gramados por um hábito incomum: ele come coração de boi, fígado, leite cru e mel orgânico, sem usar whey protein ou suplementos sintéticos.

O que é a dieta ancestral baseada em animais

A abordagem tem nome: dieta ancestral baseada em animais, ou animal-based. E tem uma explicação biológica que responde diretamente ao DNA. Vai muito além das modas alimentares. Especialistas decifram o que há de ciência, de risco e de lição nessa estratégia.

O que acontece com o DNA quando o corpo recebe esse tipo de alimento

A explicação de por que o organismo responde tão bem à alimentação ancestral não está apenas na composição dos alimentos, mas em como eles interagem com o genoma reconhecendo o alimento. Alexandre Lucidi, geneticista, mestre em Neurologia e superintendente de clínica médica do hospital municipal Ronaldo Gazolla no RJ, explica que a alimentação influencia a expressão gênica por mecanismos epigenéticos, sem alterar a sequência do DNA. Nutrientes como ácidos graxos, vitaminas e minerais atuam como sinais moleculares que regulam o metabolismo, a inflamação e a homeostase energética.

A premissa da medicina evolutiva, de que o genoma humano foi moldado no paleolítico e permanece praticamente o mesmo, tem respaldo parcial na ciência. Para Lucidi, o genoma humano é de fato conservado, e o descompasso entre mecanismos metabólicos ancestrais e os padrões alimentares modernos pode contribuir para o aumento de doenças cardiometabólicas. No entanto, o geneticista pondera que as evidências científicas atuais não sustentam que óleos vegetais refinados sejam inerentemente pró-inflamatórios por si sós.

O que a maior parte dos estudos aponta como culpado pela inflamação crônica é o consumo de ultraprocessados, com seus efeitos de disrupção da microbiota intestinal, alta densidade energética e ausência de compostos bioativos, independentemente da origem animal ou vegetal dos ingredientes.

Sobre o desempenho de Haaland especificamente, Lucidi é preciso: "O desempenho atlético de elite resulta da interação entre predisposição genética, treinamento, nutrição, recuperação e outros fatores ambientais. A alimentação potencializa, mas não determina o sucesso esportivo".

Como a dieta ancestral se diferencia das outras

A confusão é comum: dieta ancestral não é a mesma coisa que low carb, nem que a paleo clássica. Segundo Luís Guilhermo, nutricionista funcional integrativo e esportivo do Instituto Nutrindo Ideais, especialista em performance humana, o que separa essas abordagens é o grau de restrição vegetal.

A low carb apenas reduz carboidratos, mas mantém vegetais, oleaginosas e às vezes frutas. A paleo clássica vai além, restringindo ultraprocessados e grãos, mas preservando tubérculos, frutas e castanhas como pilares. Já a animal-based remove completamente fibras, fitoquímicos e carboidratos vegetais, sustentando-se exclusivamente em carnes, vísceras, ovos, peixes e laticínios. "É o grau de restrição vegetal, não a presença de proteína animal, que separa essas abordagens", explica.

Para Thomáz Baêsso, médico atuante em nutrologia e endocrinologia, afiliado do Instituto Nutrindo Ideais/SP, a lógica tem base evolutiva sólida: durante praticamente toda a história da espécie, alimentos de origem animal tiveram papel importante na alimentação humana. Carnes, ovos, peixes e vísceras oferecem proteínas de alto valor biológico e nutrientes de alta biodisponibilidade, como vitamina B12, ferro, zinco e creatina. "Isso não significa que exista uma única alimentação correta para todos", pondera o médico. "Mas a personalização é a chave para a melhor saúde".

Hormônios, sprints e a vantagem de treinar como Haaland treina

A dieta de Haaland não funciona isolada. Ela é parte de um sistema que inclui um tipo muito específico de treino: sprints de explosão, não corridas longas. E essa escolha tem impacto hormonal direto, segundo o professor doutor Guilherme Renke, médico do esporte, endocrinologista, sócio fundador do Instituto Nutrindo Ideais e vice-presidente da SBMP. A ingestão de proteínas de alto valor biológico e gorduras poli-insaturadas estimula fortemente o eixo GH/IGF-1, responsável pelo efeito anabólico muscular e pelo potencial regenerativo. Já o aumento da testosterona é sensível à maior ingestão de proteína e à restrição de carboidratos, embora essa resposta varie conforme a genética individual.

Treinos prolongados de longa distância, por outro lado, podem ter impacto negativo na produção de testosterona por redução da atividade do eixo LH/FSH, condição conhecida como hipogonadismo funcional do atleta. O treino de sprint, além de preservar esse equilíbrio hormonal, tem maior capacidade de estimular o eixo GH/IGF-1, favorecendo a hipertrofia, e apresenta comprovadamente maior efeito no aumento do VO2 máximo. "Por isso atletas de alto rendimento possuem esse tipo de treino em sua rotina", afirma Renke.

O que há dentro das vísceras que sustenta 6.000 calorias

Fígado e coração de boi são parte da rotina alimentar de Haaland, e não por acidente. Luís Guilhermo detalha o que esses cortes oferecem em termos de performance: no fígado, a vitamina A já na forma ativa (retinol, mais bem aproveitada do que o betacaroteno de vegetais), B12, folato, ferro heme e cobre. No coração, coenzima Q10 em alta concentração, taurina, ferro e selênio. Na prática, esses nutrientes atuam diretamente na cadeia respiratória mitocondrial, no transporte de oxigênio e na síntese de hemácias, sustentando a produção de energia celular e a recuperação, base da performance em atletas de alto volume de treino.

Thomáz Baêsso reforça a comparação com uma dieta ocidental convencional: quando a alimentação é composta por carnes, ovos, leite, frutas e tubérculos minimamente processados, o organismo recebe junto com as calorias uma grande quantidade de vitaminas, minerais e compostos bioativos. Já uma dieta rica em ultraprocessados pode fornecer as mesmas calorias sendo relativamente pobre em micronutrientes.

"Existe uma diferença enorme entre ingerir 6.000 calorias de alimentos naturais e consumir 6.000 calorias de alimentos ultraprocessados", resume o médico. Dito isso, ele alerta: dizer que a necessidade de suplementação cai a zero seria exagero. Dependendo do esporte, da fase do treinamento e das características individuais, suplementos ainda têm indicação e boa evidência científica.

Tendões, ossos e cartilagens: a dieta como proteção estrutural

Do ponto de vista da estrutura física, a lógica também se sustenta. Rodrigo Castelo Branco, ortopedista, especialista em traumatologia do esporte, explica que proteínas de alto valor biológico fornecem aminoácidos essenciais para reparo muscular e adaptação tendínea.

"Glicina, prolina e hidroxiprolina participam da síntese de colágeno, matriz fundamental de tendões, ligamentos, cartilagem e osso. Minerais como cálcio, fósforo, magnésio e zinco contribuem para a mineralização óssea, contração muscular e remodelação tecidual", comenta.

A ressalva do ortopedista é importante: o alimento fornece o substrato, mas não regenera sozinho. O estímulo mecânico adequado, o sono e o controle de carga determinam a adaptação. A cartilagem, em especial, tem baixa capacidade regenerativa, então a nutrição ajuda mais na manutenção e recuperação do ambiente biológico do que em reconstruir o que já está lesionado. Para prevenção de sarcopenia e osteoporose, a recomendação geral é de 1,4 a 2,0 g de proteína por kg de peso corporal por dia, ajustando conforme carga, composição corporal e fase de treino.

Leite cru e mel: o que é verdade e o que é mito

O consumo de leite integral não pasteurizado é um dos pontos mais polêmicos da dieta de Haaland. Luís Guilhermo é direto: no Brasil, o consumo e a comercialização de leite cru são proibidos pelo Decreto nº 923/1969, e o Ministério da Agricultura alerta para riscos como tuberculose, brucelose, listeriose e salmonelose. A perda nutricional pela pasteurização é pequena, inferior a 10% em algumas vitaminas, o que torna a vantagem do leite cru questionável diante do risco microbiológico.

Rodrigo Castelo Branco complementa: o que importa para a densidade mineral óssea é a ingestão adequada e sustentada de cálcio, proteína e vitamina D, não o fato de o leite ser cru. "Não há evidência de que leite integral não pasteurizado seja superior ao pasteurizado para prevenir osteoporose ou aumentar densidade mineral óssea", afirma.

Sobre a suplementação de cálcio, Luís lembra que o leite é uma boa fonte, mas não a única nem necessariamente a melhor: gergelim, tahine, sardinha, vegetais verde-escuros como a couve e tofu também são fontes relevantes, e a absorção depende do status de vitamina D e da prática de exercício de impacto e de força. Já o mel orgânico fornece carboidrato rápido e compostos antioxidantes, sem papel estrutural ósseo comparável.

A dieta animal-based para não atletas: o que a ciência recomenda

A pergunta que a maioria do público faz ao ver a dieta de Haaland é inevitável: posso fazer o mesmo A resposta dos especialistas é unânime na cautela. O nutricionista explica que, para atletas de altíssimo gasto calórico sob acompanhamento e exames periódicos, a abordagem pode ser segura e vantajosa pela densidade nutricional. Como prescrição para não atletas, a comunidade científica nutricional segue cautelosa, citando ausência de estudos controlados de longo prazo e o risco de perda de fibras, vitamina C, folato e diversidade do microbioma intestinal.

Thomáz acrescenta que, para quem tem função renal normal, as evidências atuais não mostram que maior ingestão de proteína cause doença renal, conceito antigo que não foi confirmado pelos estudos mais recentes. O efeito das gorduras animais também depende do contexto da alimentação como um todo, do grau de processamento, da composição corporal e dos fatores individuais de risco cardiovascular. "O mais importante continua sendo a qualidade dos alimentos consumidos e o acompanhamento clínico", argumenta.

Para quem deseja fazer a transição, Luís recomenda exames prévios e periódicos incluindo perfil lipídico completo com LPA e ApoB, proteína C-reativa, vitamina B12, folato, ferritina, vitamina D, função renal e hepática, eletrólitos e magnésio, além de acompanhamento com nutricionista funcional integrativo e cardiologista para estratificação de risco.

Quando a busca por comer "limpo" vira transtorno

Com a viralização da dieta de Haaland nas redes, um alerta se faz necessário. Higor Caldato, psiquiatra, especialista em psicoterapias, transtornos alimentares e obesidade, lembra que Haaland tem uma equipe inteira cuidando dele: nutricionistas, médicos, preparadores físicos. A dieta é calculada para um objetivo muito específico. O problema começa quando uma pessoa comum tenta copiar sem orientação. A busca por "comer limpo" pode virar uma obsessão, condição chamada de ortorexia, em que a pessoa fica tão preocupada em comer perfeitamente que isso se transforma em sofrimento. Ela evita sair com amigos, passa horas planejando cada refeição, sente culpa intensa se consumir algo fora da regra.

Os sinais de alerta são claros: evitar situações sociais por causa da comida, cortar progressivamente grupos de alimentos sem motivo médico real, ter a identidade girando em torno da dieta e sentir ansiedade ou culpa excessiva diante de qualquer desvio.

Estudos com mais de 35 mil jovens mostram que quase 24% apresentavam comportamentos alimentares transtornados, e que a exposição a conteúdos de dietas restritivas e corpos "perfeitos" em redes como Instagram e TikTok aumenta diretamente o risco. Em um estudo, quando meninas adolescentes reduziram o uso das redes sociais, os sintomas de transtornos alimentares caíram 16%. "A diferença é simples: o atleta ajusta a dieta de acordo com a necessidade. Uma pessoa com ortorexia não consegue ser flexível, e isso vira uma prisão", conclui Caldato.