A empresa de nutrição de plantas já tem 40% da receita vinda de um produto criado com o trabalho de uma pesquisadora do Centro de Citricultura do IAC, que ganhou um prêmio na União Europeia.
A luta contra o greening, uma doença que ataca os pés de laranja, continua difícil no Brasil. Ela causa prejuízos de pelo menos 120 milhões de dólares por ano na produção de frutas cítricas, segundo estimativas do setor.
Mas existem boas notícias. Iniciativas de empresas pequenas e pesquisadores brasileiros estão começando a dar resultados.
- A doença greening causa prejuízo de US$ 120 milhões por ano na citricultura brasileira
- A Amazon AgroSciences, de São Carlos (SP), criou um produto que ajuda a combater o greening
- A descoberta foi feita por uma pesquisadora do Centro de Citricultura do IAC e premiada na Europa
- O produto usa uma substância chamada N-acetilcisteína, que já é usada em remédios para pessoas
- A empresa quer agora usar essa tecnologia também em outras culturas, como milho e hortaliças
Um exemplo é a Amazon AgroSciences, uma fábrica de fertilizantes especiais que fica em São Carlos (SP). Ela produz produtos líquidos para ajudar as plantas a crescerem melhor.
Como a empresa não pode competir com as grandes multinacionais, que investem bilhões em pesquisa, ela prefere trabalhar junto com pesquisadores de universidades e institutos, como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e o Centro de Citricultura Sylvio Moreira, que é ligado ao governo do estado de São Paulo.
A aposta mais recente que deu certo foi uma parceria com a startup CiaCamp. Eles melhoraram o uso de uma substância chamada N-acetilcisteína (NAC) na agricultura e criaram um produto que ajuda a combater o greening.
Essa substância já era muito usada em medicamentos para a saúde humana. Mas a pesquisadora Alessandra Alves de Souza, do Centro de Citricultura do IAC, em Cordeirópolis, começou a estudar o tema há quase 20 anos.
Em setembro do ano passado, ela ganhou um prêmio do Instituto de Propriedade Intelectual da União Europeia por ter inventado o uso da N-acetilcisteína na agricultura. Ela conseguiu provar que a substância funciona no Brasil para tratar e prevenir doenças bacterianas em plantas de citros, como laranja, tangerina e limão.
"Nós somos uma empresa familiar. Para sobreviver, buscamos fazer coisas diferentes. Entendemos a dor do produtor e criamos soluções para curar essa dor", disse Felipe Palma, diretor comercial da Amazon AgroSciences.
Para encontrar a solução, eles contam com os pesquisadores. A descoberta de Alessandra foi licenciada para outra pesquisadora, Simone Cristina Picchi, que fundou a startup CiaCamp. Depois de um acordo entre a Amazon AgroSciences, o IAC e a startup, foi lançado o primeiro produto comercial para citricultura à base de N-acetilcisteína.
"Lançamos um produto chamado GranBlack, o primeiro da linha NAC, com essa tecnologia que ajuda no manejo do greening. É algo diferente porque hoje se fala muito em indutor de resistência, bactericidas ou antibióticos, que nem podem ser usados aqui no Brasil. Mas nós temos uma molécula totalmente saudável, usada na medicina humana", explicou Palma.
Segundo ele, a principal ação do produto é liberar o fluxo de seiva na planta, evitando o bloqueio causado pelo greening, que impede a chegada dos nutrientes. A promessa é de mais produtividade e vida mais longa para os pomares. No terceiro ano de uso, a queda de frutos cai pela metade, de acordo com os estudos de campo.
Atualmente, 60% do faturamento da empresa vem das vendas para produtores de citros. A linha NAC é o destaque, respondendo por 40% da receita total, que não é divulgada.
Felipe Palma diz que a inovação tem ajudado a empresa a não ter queda nas vendas nos últimos anos, que foram marcados por investimentos menores na agricultura. No setor de laranja, os preços caíram muito desde o ano passado, o que afetou os negócios.
Em 2025, as vendas aumentaram 2% em relação ao ano anterior e a previsão é manter uma certa estabilidade em 2026, que tem sido um momento "ainda muito desafiador", segundo Palma.
A Amazon AgroSciences também foi afetada pelas recuperações judiciais de revendas e sofreu com a inadimplência, que agora está controlada em 3%.
Para voltar a crescer como antes (20% ao ano até 2023), a empresa aposta em produtos à base de NAC para outras culturas, como cereais, e na entrada no segmento de biológicos.
"Não queremos depender de uma só cultura. Estamos entrando nos cereais também, principalmente com o milho e um pouco de hortifrúti", revelou.
O empresário diz que a N-acetilcisteína também tem mostrado bons resultados no manejo do enfezamento do milho, uma doença parecida com o greening, mas causada pela cigarrinha do milho.

Estande da Amazon AgroSciences na Expocitros 2026


