A sociedade diz que só seremos felizes sendo mães, mas nos cobra que honremos todos os outros compromissos como se não tivéssemos filhos.
Na semana passada, a jornalista Sabina Simonato se envolveu em uma polêmica ao opinar sobre as escolas que liberam mais cedo ou não têm aula quando o Brasil entra em campo. Ela foi criticada.
Escola não é depósito de criança, diziam os internautas. Tanto que a apresentadora do Bom Dia SP precisou se explicar antes do fim daquela mesma edição. E eu, que gosto de defender pontos de vista diferentes quando o assunto é maternidade, venho por meio desta defender a colega de profissão.
- Mais de 11 milhões de mães criam seus filhos sozinhas no Brasil, e a grande maioria são mulheres negras.
- Mais de 86% das famílias com apenas um dos pais são comandadas por mulheres.
- A licença-maternidade no Brasil é de apenas quatro meses, enquanto a OMS recomenda seis meses de amamentação exclusiva.
- As mães solo ganham até 41% menos do que casais com filhos, por causa de trabalhos informais e jornadas mais curtas.
- Faltam creches para todas as crianças, e as mães acabam dependendo de parentes ou vizinhas para conseguir trabalhar.
Gente, é claro que escola não é depósito de criança. Mas é preciso admitir que existe, no imaginário popular, a imagem da mãe que deixa os filhos na escola para se livrar da responsabilidade de cuidar deles. Não duvido que realmente haja essa parcela pequena de mães. Porém, vamos olhar o coletivo Sair da bolha
O Brasil tem cerca de 11 milhões de mães solo, segundo dados do PNAD Contínua do IBGE, compilados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE). Elas chefiam 15% dos lares brasileiros, e dessas, 60% são mulheres negras. A maior parte dos filhos está na faixa entre 0 e 6 anos.
Dito isso, voltamos ao assunto principal: o jogo do Brasil.
Basicamente, somente servidores públicos são liberados para ver a Seleção em campo. Quem é CLT pode, no máximo, assistir ao jogo dentro da empresa. Em um país que tem poucas políticas públicas para as mães, a escola infelizmente acaba sendo a rede de apoio.
Veja bem, em momento algum estou dizendo que cabe estritamente à escola criar ou educar quem quer que seja.
Nesse sentido, o que fazer com a criança se tenho que bater ponto no trabalho em plena segunda-feira
Ah, Jéssica, se vira, quem mandou colocar filho no mundo
Bem, não estou falando aqui da Jéssica que, felizmente, teve rede de apoio para buscar as crianças mais cedo na escola naquele dia de Brasil x Japão. Eu me livrei do impasse eterno do e o que eu faço com meus filhos. Minha irmã, que é professora, quebrou esse galho para mim (e para o meu marido, claro, afinal os filhos são tanto dele quanto meus). Aliás, sempre uma mulher para rede de apoio, né Mas isso é tema para outra conversa.
Retomando!
E as milhares de mães que não tiveram a mesma sorte
O episódio envolvendo a Copa do Mundo é só um exemplo do problema. Na verdade, o dilema enfrentado pelas mulheres mães é gigante nesse sentido.
A sociedade diz que só seremos felizes sendo mães, mas nos cobra que honremos todos os outros compromissos como se não tivéssemos filhos.
A carga de trabalho, seja CLT ou PJ, não combina com o calendário escolar e esbarra na falta de soluções coletivas. Esbarra também no discurso de esticar a família o quanto Deus quiser. E se o cenário de qualidade de vida para as mães não melhorar, quem vai sofrer são as próprias crianças.
A questão está sempre presente. Emendas de feriados, os meses de férias, os plantões de fim de semana. Até no entretenimento isso ocorre.
Não é novidade, por exemplo, que ações de serviços, que vão desde corte de cabelo até consulta médica gratuita, ofereçam espaço kids para que mulheres possam participar. Caso contrário, é impossível sair de casa por não ter o que fazer com os filhos.
A aldeia está vazia porque avós, tias, vizinhas, todas nós formamos uma corrente solitária de mulheres que precisam trabalhar fora, dentro de casa e cuidar dos próprios filhos. Sim, a corrente inclui nossas professoras guerreiras, que também são mães e precisam criar os próprios filhos, não os dos outros.
A pauta aqui é sobre um ecossistema.
É a lei que permite aos responsáveis apenas um dia de atestado dentre os 365 do ano para cuidar do filho doente. É a lei que oferta apenas quatro meses de licença-maternidade, obrigando a mulher a fazer malabarismo para emendar as férias e, mesmo assim, se ver obrigada a voltar ao trabalho antes mesmo de o bebê sair da exclusividade do aleitamento materno, já que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda seis meses de amamentação exclusiva antes da introdução alimentar, outro desafio que precisamos conciliar com o turbilhão de emoções e adaptações que é a volta ao trabalho.
Não faz o menor sentido. A conta nunca fecha.
Além da falta do básico de políticas públicas para mães, já que sequer há número suficiente de creches para todas as crianças, existe ainda a cobrança principalmente em cima das mulheres.
Os pais, quando não foram comprar um cigarro e sumiram de casa para sempre, passam imunes a esse problema. Dificilmente um homem vai faltar ao serviço por não ter aula e não ter o que fazer com a criança. Aliás, mesmo os ditos pais presentes, a logística de dar um jeito nunca fica com eles. São as mães que correm atrás de ajuda e, de quebra, mesmo depois de resolverem, ainda carregam aquela pontinha de culpa por estarem ausentes, mesmo que essa ausência seja para trabalhar e dar sustento aos pequenos (e muitas vezes grandes).
Enfim, caras leitoras, a lista é infinita e o buraco é muito mais embaixo. Não se trata da frase feita escola não é depósito de crianças, e sim de um sistema que é uma máquina de moer mães, abastecida pelo pensamento infame de que quem pariu, que mantenha e embale.
Para pensar:
- 12,19 milhões de mulheres chefiavam lares só com os filhos no Brasil no fim de 2025, um aumento de 28% em relação a 2012, segundo o FGV IBRE.
- 86,5% das famílias formadas por apenas um dos pais e filhos são lideradas por mulheres. O país tem apenas 1,7 milhão de pais solo, segundo o Ipea.
- 61,5% delas são negras. Mulheres pretas e pardas são a maioria das mães solo do país, de acordo com o Ipea.
- 72,4% vivem totalmente sozinhas com seus filhos, sem o apoio de nenhuma rede de apoio familiar na mesma casa, conforme o FGV IBRE.
- 54,3% têm baixa escolaridade, tendo completado no máximo o ensino fundamental, segundo a PNAD Contínua avaliada pela FGV.
- Até 41% menos de renda. Mães sem cônjuge ganham bem menos do que a média de casais com filhos, por causa da alta taxa de informalidade e jornadas parciais, aponta o FGV IBRE.

Mãe segurando a bandeira do Brasil (Imagem criada por IA)



