A China está testando um selo criado no Brasil que mostra que a carne bovina foi produzida sem desmatar florestas. Esse selo pode começar a ser usado nas lojas chinesas no início de 2027.
O primeiro selo que mostra que a carne bovina é boa para o meio ambiente e para a sociedade, criado no Brasil, está mais perto de chegar às prateleiras da China.
O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) fez uma parceria com o China Quality Mark Certification Group (CQM), uma das maiores certificadoras da China, para ajudar a aprovar o Beef on Track (BoT). A informação foi dada em primeira mão ao AgFeed.
- O selo BoT comprova que a carne não vem de áreas desmatadas.
- É a primeira certificação do tipo para a pecuária no mundo.
- A parceria com a China é necessária porque o Imaflora não podia pedir a aprovação do selo diretamente.
- O selo poderá ser usado nas lojas chinesas a partir do início de 2027.
- Empresas chinesas já estão testando o sistema de certificação.
O BoT é um sistema de certificação criado pelo Imaflora no ano passado para provar que a carne vendida pelos frigoríficos brasileiros é produzida sem desmatamento.
"É a primeira certificação socioambiental para a pecuária no mundo. Não existe outra com esse foco", afirma Marina Guyot, gerente de políticas públicas do Imaflora, em entrevista ao AgFeed.
A parceria com a certificadora chinesa CQM foi necessária porque o Imaflora não poderia pedir a certificação diretamente ao CNCA, órgão da China parecido com o Inmetro no Brasil.
"A parceria com a CQM é um passo muito importante porque somente depois da aprovação o selo poderá ser usado comercialmente", explica Guyot.
De acordo com a gerente do Imaflora, o projeto entra agora na fase de testes com empresas chinesas que compram carne brasileira e estão interessadas em testar o sistema de certificação.
Entre elas estão um grupo ligado à Tianjin Meat Association, que no ano passado mostrou interesse em comprar 50 mil toneladas de carne que atendem aos critérios da certificação, e a Dahui Holding Group, da província de Henan.
Guyot explica que os testes servirão para validar os procedimentos e melhorar a documentação que será enviada para o processo de aprovação.
"A Tianjin, por exemplo, já tem volume nos estoques deles que já são considerados BoT, porque eles já compraram de frigoríficos que têm essa diferença. Compram de vários países, de vários lugares do Brasil e tem carne deles que já passou por esse processo de auditoria e tem carne que não", diz a gerente do Imaflora.
"O que a gente vai testar com eles esse ano é justamente a classificação desses volumes", completa.
A expectativa é que todo o material seja enviado ao "Inmetro chinês" entre outubro e novembro deste ano e que o selo esteja disponível comercialmente no início de 2027, chegando aos cortes de carne oferecidos ao consumidor final.
Muito além de um mero "selo"
Por trás do selo, que de fato vai aparecer nas carnes oferecidas nas prateleiras, há um sistema de certificação detalhado.
A ideia, no entanto, é que ele seja simples de ser emitido. Para ter o "selo verde" do BoT, por exemplo, os frigoríficos não precisarão necessariamente criar novos processos de controle ou contratar novas auditorias.
Na prática, poderão aproveitar os resultados das auditorias que já fazem para atender protocolos como o Boi na Linha, na Amazônia, e o Protocolo do Cerrado, que surgiram para garantir que o gado não vem de áreas multadas por desmatamento e garantir a conformidade socioambiental da carne que chega à mesa. Empresas com 95% de conformidade a esses protocolos poderão receber o selo.
"Para os frigoríficos que já são auditados pelo TAC, que já têm auditoria de terceira parte, o BoT reconhece esse processo", diz Guyot.
Já importadores e varejistas, porém, precisarão fazer uma auditoria da cadeia de custódia para garantir que os volumes comprados atendem aos requisitos do BoT.
Guyot explica que, diferente de outras certificações, o BoT foi desenvolvido para aproveitar mecanismos que já fazem parte da rotina de parte dos frigoríficos, como as auditorias do Boi na Linha, e assim reduzir custos.
"São dados que os frigoríficos que operam na Amazônia já monitoram por causa do TAC já firmado. O sistema de certificação reconhece esse processo que os frigoríficos já fazem", diz Guyot.
Em vez de ter dezenas de exigências, o protocolo se baseia em poucos critérios de fácil verificação por meio de bases públicas, como a ausência de desmatamento ilegal, a não sobreposição com áreas protegidas, terras indígenas, Unidades de Conservação e territórios quilombolas e a não inclusão de produtores em listas de trabalho análogo à escravidão.
"A ideia é que seja uma certificação leve no sentido de aplicação, justamente porque o objetivo é que ela ganhe escala para cobrir a maior parte da produção brasileira", completa.
O selo BoT terá quatro níveis de certificação de acordo com a conformidade socioambiental na pecuária de corte. Bronze e prata serão dados ao frigorífico que monitora desmatamento ilegal, fiscaliza condições análogas à escravidão e sobreposições de áreas de fornecedores diretos, e ouro e platina ao que também monitora a conformidade em toda a cadeia, incluindo os indiretos.
A ideia do Imaflora é que os frigoríficos passem gradualmente do nível mais básico para os níveis mais elevados.
De acordo com Guyot, o objetivo não é criar um selo restrito a nichos de mercado, mas uma ferramenta capaz de atender a maior parte da produção brasileira e, futuramente, também outros grandes exportadores de carne bovina, como Argentina, Paraguai e Austrália.
A ideia também não é encarecer o preço da carne. "Estamos falando de uma commodity. A carne brasileira compete principalmente por preço. Por isso a certificação precisa ser leve e barata para ganhar escala", disse.
Além das empresas da cadeia da carne, bancos, instituições financeiras e agentes do mercado de capitais também poderão usar a certificação para dar mais segurança quanto à conformidade legal e socioambiental em operações de crédito ou emissões de títulos lastreados nesses ativos.
Chineses pediram
O interesse pelo selo surgiu justamente de uma demanda dos compradores chineses, conta Guyot.
Durante reuniões feitas pelo Imaflora para apresentar o trabalho de conformidade socioambiental que realiza junto com o Ministério Público Federal, importadores disseram que conheciam as iniciativas brasileiras de monitoramento da pecuária, mas consideravam o sistema complexo demais para ser entendido pelo mercado.
"Eles diziam: 'Isso é muito complicado de entender, transformem isso em um selo'. O BoT nasce como uma resposta a essa demanda chinesa", afirma Guyot.
A gerente do Imaflora observa que, na China, o conceito de qualidade é mais amplo do que o normalmente usado no Brasil.
Para os compradores locais, atributos ligados à sustentabilidade também fazem parte da percepção de qualidade do produto, o que abre espaço para diferença entre importadores em um mercado altamente competitivo.
Ao mesmo tempo, a gerente do Imaflora destaca que o tema da sustentabilidade ainda é recente no país asiático.
"Enquanto aqui a gente já tem discussão sobre certificação, sobre desmatamento, sobre carbono, somos um país muito maduro nessa discussão, lá é tudo ainda muito novo", diz.
Por isso, além dos testes operacionais, os pilotos também terão papel importante no treinamento das empresas chinesas sobre auditorias, cadeia de custódia e rastreabilidade.
"A gente entende que esse processo também tem sido um processo de aprendizado para eles, de entender o que é uma certificação, o que é uma auditoria de cadeia de custódia", afirma.
No Brasil, Marina Guyot diz que o Imaflora mantém diálogo com frigoríficos nacionais desde o início do desenvolvimento do protocolo.
Embora nenhuma empresa participe oficialmente dos testes neste momento, Guyot afirma que o setor vem sendo consultado para melhorar as regras antes da implementação definitiva.
Guyot percebe que as discussões envolvendo as exigências ambientais da União Europeia, que bloqueou a entrada de carne bovina do Brasil a partir de setembro, e a cota de importação imposta pela China, fazem com que os frigoríficos adotem uma postura cautelosa diante da certificação.
"Tudo que mexe com mercados que são sensíveis, a gente nota que tem um cuidado por parte deles", diz.
A reportagem do AgFeed apurou que a Associação Brasileira dos Exportadores de Carne Bovina (Abiec) teria ficado contrariada com a iniciativa do Imaflora, por entender que poderia ser criada uma "barreira" para a carne do Brasil.
"Do nosso lado, a intenção é discutir, de ver o que é possível ajustar, porque a gente sabe que, no final das contas, tem que ter aderência com a realidade para ganhar escala e para ter os impactos que esperamos", diz Guyot.
A ideia é, no futuro, desenvolver a certificação de fornecedores indiretos e expandir o monitoramento para outros biomas.
"Vai depender dessa aproximação que a gente está fazendo com os frigoríficos, da gente ouvir e fazer os ajustes", diz.
A executiva do Imaflora ressalta que a certificação não prevê, por si só, um pagamento de prêmio pela carne que recebe o selo.
A ideia do instituto é que, com a certificação, compradores e vendedores possam negociar valores a partir das informações adicionais sobre a origem do produto.
"Hoje o setor vende carne. Com a certificação, ele passa a vender carne e informação. Se vai ter um valor adicional, vai depender muito da capacidade de negociação, dos interesses, mas, sem dúvida, a gente entende que é melhor do que você não ter nenhuma plataforma que possa oferecer esse produto adicional", diz Guyot.
Na avaliação da gerente do Imaflora, a ferramenta pode funcionar como um incentivo econômico para aumentar a rastreabilidade da pecuária e estimular maior conformidade socioambiental, complementando as políticas de fiscalização já existentes.
"A gente sabe que comando e controle ainda tem um certo limite de gerar o impacto, até pelo tamanho do setor, pela importância econômica. A ideia é que com isso a gente gere uma corrida positiva para conformidade, para quem não está conforme se regularizar", projeta.

Balcão refrigerado com carnes em supermercado chinês


