O Brasil teve avanços importantes na educação, como a queda na reprovação e no abandono escolar no ensino médio. No entanto, ainda existem grandes problemas, como 8,4 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever e muitos jovens que não estudam nem trabalham. Melhorar a educação básica e o acesso à faculdade é essencial para o futuro do país.
Nas últimas semanas, dois importantes retratos da educação brasileira revelaram um cenário de contrastes: avanços que merecem ser comemorados e desafios estruturais que continuam impondo limites ao desenvolvimento do país. O Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e a Pnad Contínua Educação 2025, do IBGE, mostram um Brasil que caminha a passos lentos.
Enquanto o Censo Escolar constatou uma melhora na trajetória dos estudantes do ensino médio, a Pnad mostrou que o país ainda convive com problemas históricos que comprometem a conclusão da educação básica e o acesso à faculdade.
- A taxa de reprovação no ensino médio caiu 62% entre 2022 e 2025.
- O abandono escolar caiu 61% no mesmo período no ensino médio.
- Ainda existem 8,4 milhões de pessoas com mais de 15 anos que não sabem ler nem escrever.
- Cerca de 43% dos jovens de 14 a 29 anos abandonaram a escola para trabalhar.
- Apenas 21,4% dos brasileiros com mais de 25 anos concluíram uma faculdade.
Por exemplo, entre 2022 e 2025, as taxas de reprovação, abandono escolar e distorção idade-série dos estudantes do ensino médio da rede pública caíram, respectivamente, 62%, 61% e 28%. No sentido oposto, a taxa de aprovação cresceu 11%. Este resultado merece ser celebrado, já que há décadas o ensino médio é uma das etapas mais frágeis da educação brasileira, marcada por altas taxas de evasão.
Essa melhora demonstra que políticas públicas podem produzir bons resultados. O programa Pé-de-Meia, que ajuda financeiramente os estudantes, é um exemplo importante. Ele enfrenta um dos principais obstáculos para muitos jovens: a necessidade de abandonar a escola para trabalhar e ajudar a família.
Mas seria um erro interpretar esses números de forma isolada. A PNAD Contínua Educação 2025 mostra que o país ainda tem um grande problema educacional. São 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever. Cerca de 43% dos jovens de 14 a 29 anos abandonaram ou nunca frequentaram a escola por precisarem trabalhar. Entre os brasileiros com 25 anos ou mais, apenas 57,4% concluíram o ensino médio.
Outro dado preocupante é sobre os jovens que não estudam nem trabalham, os chamados "nem-nem". Em 2025, o país tinha 46,6 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. Destes, 17,5% não trabalhavam, não estudavam no ensino regular e nem frequentavam cursos de qualificação profissional. Embora esse número tenha caído em relação a 2019, ainda representa milhões de pessoas afastadas da educação e do mercado de trabalho.
Esse cenário também explica por que o acesso à faculdade continua avançando devagar. Segundo a Pnad, apenas 21,4% dos brasileiros com 25 anos ou mais concluíram uma graduação. A meta do novo Plano Nacional de Educação (PNE) é aumentar para 40% o acesso de jovens de 18 a 24 anos ao ensino superior. Isso é fundamental para um país que quer aumentar sua produtividade e competir em uma economia baseada no conhecimento.
Nesse contexto, o ensino médio assume um papel ainda mais importante. Não apenas por ser a etapa final da educação básica, mas porque concluir esse ciclo é essencial para entrar na faculdade. Cada estudante que abandona a escola reduz suas chances de se qualificar profissionalmente e ter uma vida melhor. Por outro lado, cada jovem que termina o ensino médio aumenta suas chances de continuar estudando e ter melhores oportunidades de trabalho.
Os resultados do Inep mostram que o Brasil é capaz de melhorar seus indicadores quando há políticas públicas consistentes e foco na permanência dos estudantes. Já os dados da PNAD lembram que o caminho ainda é longo. É preciso transformar os avanços em uma verdadeira ponte para a educação superior, ampliando as oportunidades de acesso e permanência na faculdade.
Celebrar os avanços é necessário, mas eles só farão efeito se forem parte de uma estratégia mais ampla, que conecte educação básica, ensino médio, faculdade e mercado de trabalho. Reduzir a evasão é uma conquista importante, mas transformar esses jovens em universitários e profissionais qualificados é o desafio que realmente definirá o futuro do Brasil.

Janguiê Diniz, diretor-presidente da ABMES


