A Orquestra Maré do Amanhã (OMA), formada por jovens do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, vai se apresentar no NOS Alive, um dos maiores festivais de música da Europa, no dia 9 de julho em Portugal. O grupo também vai lançar o livro 'Concerto para um sonho' em Lisboa, contando a história do projeto que já transformou a vida de mais de 17 mil crianças e jovens nos últimos 16 anos.
"Quero ver se esse pastel de Belém é bom mesmo." A brincadeira ajuda Caio Fiamo Jerônimo, de 22 anos, a driblar a ansiedade antes de subir ao palco do NOS Alive, um dos maiores festivais de música da Europa, no próximo dia 9, em Portugal. Integrante da Orquestra Maré do Amanhã (OMA), o violinista fará sua estreia em solo português. O grupo vai se apresentar no festival e também lançar, em Lisboa, o livro Concerto para um sonho.
- Caio Fiamo Jerônimo, de 22 anos, é violinista da OMA e vai tocar pela primeira vez em Portugal.
- O grupo tocará no dia 9 de julho no NOS Alive, um dos maiores festivais da Europa.
- A OMA já atendeu mais de 17 mil crianças e jovens do Complexo da Maré em 16 anos.
- O projeto foi criado pelo jornalista Carlos Eduardo Prazeres, filho do maestro Armando Prazeres, assassinado em 1999.
- Em Portugal, a orquestra vai tocar músicas de artistas como Shakira, Nelly Furtado e Red Hot Chili Peppers.
A obra conta a história do projeto que já atendeu mais de 17 mil crianças e jovens do Complexo da Maré nos últimos 16 anos, tornando-se uma das maiores referências brasileiras em inclusão social por meio da música.
"Dizem que é um festival grande, e a gente vai estar lá, junto com outros artistas, assistindo, tocando no mesmo lugar que eles", comemora Caio, que já viajou com a orquestra pela América do Sul e a China. "Sou a primeira pessoa da minha família a viajar para fora do Brasil. Meu pai e minha mãe ficam tão curiosos que tenho que mandar fotos todos os dias.", conta, entre risos.
Filho de um eletricista e de uma costureira, Caio começou a estudar música aos 11 anos na OMA e hoje divide o violino com a carreira de recém-formado em Ciências da Computação. "Não tem como largar a orquestra. Além de eu gostar muito de música, a maioria dos meus amigos está aqui. É a minha família fora de casa", resume.
A história da Orquestra Maré do Amanhã
A história da Orquestra Maré do Amanhã começou muito antes de sua criação. O projeto foi fundado, em 2010, pelo jornalista Carlos Eduardo Prazeres, filho do maestro português Armando Prazeres, um dos nomes mais importantes da música de concerto no Brasil e criador da Orquestra Petrobras Sinfônica.
Em 1999, Armando foi sequestrado e assassinado no Rio. O carro dele foi encontrado na Maré. Em vez de guardar mágoa do lugar, Carlos decidiu voltar anos depois para criar ali um projeto que oferecesse oportunidades a crianças e jovens por meio da música. "Quando o meu pai foi assassinado, decidi que a violência não teria a última palavra. A música que ele tanto amava seria o caminho para ajudar a transformar a realidade daquele território. Assim nasceu a Orquestra Maré do Amanhã", afirma o fundador.
A emoção de tocar em festivais
Veterana no grupo, a violoncelista Debora Choi, de 28 anos, calcula que esta será sua 11ª viagem internacional com a OMA, mas garante que a emoção continua a mesma: "Tocar em festival é uma outra energia. Quando a gente se apresenta em salas de concerto, as pessoas gostam, mas em festival a vibe é diferente. As pessoas cantam junto, gritam. A apresentação da orquestra no Rock in Rio, em 2023, é uma das memórias que guardo com mais carinho. Só de falar, fico arrepiada."
Uma das primeiras alunas do projeto, Debora hoje vive da música, dando aulas e se apresentando em eventos. "A orquestra abre portas. Não só para a música. Tenho colegas que hoje se formam em Direito, Farmácia, Psicologia e Pedagogia. Eu mesma já me aventurei pela Aviação. Fiz curso de Comissária de Bordo, mas a música, por enquanto, falou mais alto", conta.
Novos talentos e sonhos
Foi dando aulas em uma escola da Maré que Debora conheceu Stephany Grativol, hoje com 20 anos e líder do naipe de violoncelos da orquestra.
"Stephany sempre se destacou por ser muito estudiosa e centrada. Hoje, não só toca ao meu lado, como está assumindo a liderança", diz a professora orgulhosa.
Stephany entrou na OMA, aos 9 anos, inspirada pela própria família: a tia foi uma das primeiras violinistas do projeto e a avó trabalha até hoje na sede da instituição. "Eu até tentei seguir os passos da minha tia no violino, mas não me adaptei. Acabei trocando pelo violoncelo e me encontrei.", explica.
A musicista sonha em abrir seu próprio estúdio de tatuagem, mas sem abandonar a música. "Quero que ela me acompanhe pela vida inteira. A OMA representa possibilidades que eu nem imaginava. Quando comecei a tocar, nunca imaginei que faria viagens para o exterior. E as pessoas também não imaginavam isso para mim."
Em Portugal, ela e os colegas vão apresentar um repertório que mistura música portuguesa e sucessos internacionais, com versões para artistas como Carolina Deslandes, Maro, Dino D'Santiago, Napa, Shakira, Nelly Furtado, Twenty One Pilots e Red Hot Chili Peppers.

Debora Choi e Stephany Grativol: jovens da OMA embarcam para Portugal (Foto: Marco Brendon)



