A gigante chinesa do agronegócio, Cofco, já conseguiu US$ 1,2 bilhão em empréstimos que exigem a redução da poluição na produção de soja e milho. Os bancos oferecem juros mais baixos se a empresa provar que está cumprindo as metas de diminuir a emissão de gases que causam o efeito estufa.
Há muito tempo, a sustentabilidade deixou de ser apenas uma promessa e se tornou um número importante nos negócios da trading chinesa Cofco, uma das maiores compradoras e vendedoras de grãos do mundo.
Nesta semana, a empresa mostrou que está levando isso a sério ao conseguir dois novos empréstimos: um de US$ 400 milhões com o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) e outro de US$ 200 milhões com o Bank of China (Hong Kong) (BOCHK).
- A Cofco já tem US$ 1,2 bilhão em empréstimos que premiam a redução da poluição.
- Para ter juros mais baixos, a empresa precisa provar que está emitindo menos gases do efeito estufa.
- A meta é reduzir a poluição do milho em 54,6% e da soja em 39,4% até 2033.
- A empresa usa um programa próprio para certificar que seus fornecedores não desmatam.
- Os produtores rurais que seguem as regras podem ganhar descontos no Plano Safra do governo.
Esses empréstimos são especiais. Eles estão ligados ao desempenho da empresa na redução das chamadas emissões de Escopo 3, que são a poluição gerada por toda a cadeia de fornecedores, do campo à indústria. É a principal fonte de poluição do agronegócio.
A Cofco se comprometeu a reduzir, até 2033, 54,6% das emissões de CO2 ligadas ao milho e 39,4% das emissões ligadas à soja, usando os dados de 2021 como ponto de partida. Essas metas seguem a Science Based Targets (SBTi), um padrão internacional de sustentabilidade que busca limitar o aquecimento global em 1,5°C.
Na prática, a empresa só consegue usar o dinheiro se comprovar aos bancos que está, de fato, diminuindo sua poluição, seja na lavoura ou nas fábricas. Uma auditoria independente verifica se a meta foi cumprida. Se sim, a Cofco ganha um desconto nos juros do empréstimo.
"Eu comprovo para o banco que atingi a meta e o banco me dá um desconto na taxa", explica Daniel Cação Motta, gerente de sustentabilidade da Cofco na América Latina.
O dinheiro não precisa ser usado exclusivamente em projetos verdes. Ele ajuda a empresa a colocar em prática suas políticas, como o programa de certificação voluntária para produtores de grãos, chamado Cofco Standard.
Os fornecedores que participam desse programa se comprometem a seguir 54 regras. Elas incluem o uso correto de agrotóxicos, regras de trabalho nas propriedades e a conservação de áreas de preservação permanente e de reserva legal.
A certificação tem duas etapas. A primeira verifica, com imagens de satélite, se as áreas de produção são livres de desmatamento. A segunda etapa usa auditorias independentes para checar se todos os critérios socioambientais estão sendo cumpridos, mantendo como regra o corte de 2020 para mudanças no uso da terra.
"Temos expandido muito esse programa, tanto em origens e destinos quanto no número de produtores participantes", diz Motta.
Os produtores que aderem à certificação também podem ganhar um desconto de 0,5 ponto percentual no Plano Safra, um prêmio do governo federal para quem adota boas práticas no campo.
Rastreabilidade e metas
A Cofco também divulgou seu mais novo relatório de sustentabilidade, mostrando como estão suas metas e iniciativas.
Em 2025, a empresa conseguiu reduzir as emissões de CO2 em 11% na soja e 23% no milho, em comparação com 2021. A meta para 2033 é reduzir 54,6% no milho e 39,4% na soja.
Além disso, a Cofco aumentou em 46% o volume de grãos certificados como "sustentáveis" vindos da América do Sul.
A empresa também atualizou suas metas de desmatamento. Em 2025, 99,2% da soja e do milho originados no Brasil e 99,9% da soja argentina foram considerados livres de desmatamento.
Como a mudança no uso da terra responde por 58% das emissões totais da companhia, a Cofco havia prometido zerar o desmatamento na América do Sul até o final de 2025. Ainda há desafios, principalmente com fornecedores indiretos. Para eles, a empresa usa um sistema de análise de risco, focando em municípios com histórico de desmatamento.
"A gente não tem uma meta pública para fornecedores indiretos ainda", diz Motta.
Perguntado sobre a demanda por soja sustentável na China, que algumas fontes dizem estar em segundo plano, o executivo da Cofco afirma que há um interesse crescente. Como exemplo, ele cita um acordo do ano passado para fornecer 1,5 milhão de toneladas de soja sustentável para a China Mengniu Dairy e a Sheng Mu Organic Dairy até 2030.
Este ano, a empresa também enviou 40 mil toneladas de soja sustentável para o Meghna Group of Industries (MGI), de Bangladesh, para a produção de ração animal.
Certificação para algodão e café
A Cofco também trabalha com certificação e rastreabilidade de outras commodities, como algodão e café. Na avaliação de Motta, esses produtos estão mais adiantados nesse quesito do que a soja e o milho.
"Alguns produtos já têm um mercado mais estabelecido de certificações, como algodão e café. Outros são uma coisa mais nova, como a soja e o milho", explica.
No algodão, a Cofco atingiu 100% de rastreabilidade até a fazenda para a produção brasileira em 2025. Além disso, 51% das vendas de algodão brasileiro e 62,3% das vendas globais foram certificadas por programas como Better Cotton Initiative e Cotton Made in Africa.
No café, 43% das vendas globais da Cofco foram classificadas como "sustentáveis" em 2025. Esse volume inclui cafés certificados por iniciativas como 4C, Fairtrade, Rainforest Alliance e o programa próprio da empresa, o Crop.
No ano passado, a Cofco verificou que mais de 177 mil sacas de café produzidas no Brasil estavam de acordo com as exigências da EUDR, a lei antidesmatamento da União Europeia que deve entrar em vigor no final de 2026.

Estrutura da trading Cofco


