Com tanta desinformação e inteligência artificial, fica difícil saber o que é verdade. Este artigo explica por que as histórias de ficção podem ser uma ferramenta importante para enxergar o mundo com mais clareza e criar conexões entre as pessoas.
Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos casos do dia a dia. Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de verdade. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que misturado com o fantástico.
Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de concordar sobre as coisas Quando já não conseguimos entrar em acordo nem sobre o que é a própria realidade
- As inteligências artificiais estão cada vez mais parecidas com a vida real, e isso pode confundir nossas percepções.
- O excesso de notícias falsas está mudando a forma como enxergamos o que é verdadeiro.
- A realidade se fragmentou em versões personalizadas para cada pessoa, criadas por algoritmos.
- Em meio a tanta informação, a ficção pode ajudar a gente a pensar com mais profundidade.
- Histórias bem contadas podem criar pontes entre pessoas que pensam de jeitos diferentes.
Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de imitar a vida com uma precisão cada vez mais impressionante) e a enxurrada de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos desistindo da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.
A realidade, antes entendida como um acordo social básico, se fragmentou em milhões de conteúdos personalizados que raramente conversam entre si. São pacotes de realidade feitos sob medida, moldados por algoritmos, interesses e emoções.
O novo papel da ficção
Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no "e se". A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.
Em tempos de excesso de informação e falta de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.
Ficção como espelho
Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social. Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atinge instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.
Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.
Num mundo em que cada pessoa parece presa à sua própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis. A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.

Ilustração por Pedro Ivo





